Os burros, os mal-intencionados e os convertidos à Fé Católica

Um leitor do blog perguntou aqui se o fato de ele não alcançar a verdade histórica do Cristianismo fazia com que ele não fosse «uma pessoa honesta». A pergunta é excelente porque reflete um equívoco infelizmente comum aos dois lados da relação, tanto religiosos como descrentes.

Como todo grande equívoco, ele radica em uma grande verdade: neste caso, que o ser humano é capaz de Deus. Afinal, o Todo-Poderoso, Ser Perfeitíssimo, simplesmente não poderia exigir das Suas criaturas o culto a Ele se o próprio conhecimento deste culto e desta necessidade lhes fosse de todo impossível. Seria uma incoerência atroz. Uma vez que os homens precisam da Fé para se salvarem, uma vez que a Fé é por definição um ato livre — a Fé é essencialmente aquele ato de vontade mediante o qual a inteligência movida pela graça aquiesce às verdades reveladas — e uma vez que a responsabilização pelos próprios atos pressupõe e exige a liberdade de agir ou deixar de agir, a conclusão de que o homem tem que rejeitar a Fé para se condenar impõe-se de modo bastante consistente a quem considera todas essas coisas.

Ora, o ato de Fé é um ato complexo, uma vez que envolve as duas potências da alma humana: envolve a inteligência, que apreende a verdade da Fé, e envolve a vontade, que livremente dá crédito — acredita — a esta verdade. Parece, portanto, que para rejeitá-la é preciso vulnerar a vontade, a inteligência ou ambas.

Acontece que ninguém rejeita verdadeiramente aquilo que não leva a sério: é uma queixa bastante feita pelos incrédulos. Do homem médio contemporâneo não se pode propriamente dizer que ele rejeite, digamos, a existência de duendes ou do Saci-Pererê. Essas coisas não entram no seu universo de conhecimento como se fossem coisas reais, mas ao contrário: carregam inerentemente a nota da fantasia e do lendário. Não existe, aqui, um juízo valorativo a respeito da veracidade ou falsidade da informação: o próprio conhecimento é já apreendido com a sua nota de “fantasioso”, “mítico”, “não-verdadeiro”. E é sob esta clave que alguns ateus, segundo dizem, enxergam o Deus Todo-Poderoso.

Ora, eu naturalmente concedo que algumas pessoas possam imaginar o Criador nestes termos; concedo até que, em alguns casos, elas o façam sem malícia. O que não dá para conceder, de maneira alguma, é que tenham alguma razão nesta idéia. E é aqui que entra a história do burro ou do mal-intencionado: semelhante compreensão é tão estapafúrdia, tão distante da realidade, tão incompatível com o que ensina quer a teologia natural, quer as doutrinas religiosas, que aderir a ela — parece — só é possível se o fulano for muito burro ou estiver com muita má vontade.

Contudo, isto é um reducionismo que se deve evitar, tanto porque é impreciso (pelas razões que serão expostas mais embaixo) quanto porque é contraproducente (por razões óbvias: a pessoa apodada de burra ou mal-intencionada não costuma se mostrar muito receptiva a ouvir o que o seu interlocutor tem a dizer). É sim verdade que a Fé Católica, como ato para cuja concretização convergem a inteligência e a vontade, é alcançável a todo ser humano que esteja com as adequadas disposições intelectuais e volitivas. Contudo — e aqui está a raiz do problema –, nem toda dificuldade intelectual é sinônimo de burrice e nem todo problema da vontade significa que o sujeito está mal-intencionado.

O pe. Leonel Franca tem um excelente livro sobre o assunto (“A psicologia da Fé”), onde ele disserta sobre o que a Doutrina Católica convencionou chamar de praeambula fidei — que são aqueles assuntos alcançáveis à inteligência natural e reconhecíveis por todos os seres humanos, independente de eles terem Fé ou não, e que distingue completamente o Deus Todo-Poderoso do Saci-Pererê acima referido. Afirma o prelado que os obstáculos à Fé são de duas naturezas: de ordem intelectual e de ordem moral, i.e., respectivamente da ordem do conhecimento e da ordem da vontade. E compreender as coisas sob esta ótica muda radicalmente o assunto.

A questão não é meramente de nomenclatura: burrice e má intenção são substantivos de conotação pejorativa e, mais do que isso!, que implicam num certo juízo de censura sobre quem detém essas características. No caso da burrice talvez não se o perceba tanto, mas no da intenção má esta característica é evidente: o sujeito que está mal-intencionado é pessoalmente responsável pela prática deliberada de um ato reprovável. Já um obstáculo não é assim: aqui o termo é mais neutro, e a diferença terminológica reflete uma diferença de realidade muito importante. A pessoa pode fingir que não entende o Cristianismo, sim, mas essa não é a única fonte possível da incredulidade. Um sujeito pode deter muito honestamente uma gama de conhecimentos equivocados, e pode fazê-lo com bem pouca (ou até mesmo nenhuma) culpa própria particular. Pode, por conta disso, levar um determinado estilo de vida — as coisas que nós fazemos são condicionadas por aquelas nas quais acreditamos — incompatível com as exigências da Fé, e o primeiro impulso de preservar sua visão de mundo particular é perfeitamente humano e saudável. Tudo isso são obstáculos à crença; nem tudo é igualmente reprovável; e decerto os modos de superar os diversos obstáculos à Fé são bastante diferentes entre si.

Em suma, nem todo não-católico é pessoalmente desonesto. Pode acontecer — e ouso imaginar que é esta a maior parte dos casos — de ele partir de premissas incompatíveis com as do Catolicismo e, mediante métodos de inferência perfeitamente honestos, chegar a conclusões incompatíveis com as da Igreja. Obviamente, há premissas corretas e premissas equivocadas; mas a questão da veracidade ou falsidade dos pressupostos básicos de nossas visões de mundo é um pouco mais complicada do que o reducionismo “você é burro ou mal-intencionado” induz a acreditar. Sim, todo ser humano é chamado por Deus à Fé Católica, e é portanto capaz de responder-Lhe; sim, aquilo que impede o ser humano de oferecer ao Deus Onipotente o seu obséquio da inteligência e da vontade que caracteriza o ato de fé é um obstáculo, quer intelectual, quer moral; sim, o nosso papel deve ser, sempre!, o de fazer o que estiver a nosso alcance para retirar as barreiras que impedem os nossos próximos de viver a liberdade dos filhos de Deus. Mas não é possível subsumir igualmente toda descrença à deficiência mental de quem é um completo parvo ou à perversidade moral de quem se recusa a aceitar o que sabe ser verdadeiro. O papel de todo cristão, repita-se, é levar todas as almas à Fé. E, para fazê-lo, é fundamental que as coisas sejam compreendidas e apresentadas como de fato são — sem reducionismos fáceis, nem maniqueísmos cômodos.

A Odisséia da Vida

Nos olhos há milhões e milhões de átomos, há milhões e milhões de moléculas de uma complexidade e instabilidade estonteadoras, há células e tecidos, há nervos que sentem, há músculos que movem, há vasos que alimentam, e tudo, desde as propriedades químicas e fisiológicas da citropsina até aos movimentos reflexos que asseguram o poder de acomodação do cristalino ou os movimentos sinérgicos dos globos oculares, tudo converge admiravelmente para a unidade de uma função. É esta convergência, é este princípio de unidade – que exige uma explicação, que pede uma razão de ser. E outra razão de ser não há senão admitir que a natureza construiu um órgão para ver.

Pe. Leonel Franca, “O problema de Deus”.

Sobre Catolicismo e Protestantismo – pe. Leonel Franca

Que o Salvador tivesse conferido ao Colégio apostólico a mesma plenitude de poderes que a Pedro, já o sabíamos; não é novidade descoberta pelo Sr. ERNESTO que à p. 27 da IRC [N.E.: “Igreja, Reforma e Civilização”, livro anterior do jesuíta] poderia ler como “não há nenhuma incompatibilidade entre estas duas verdades. Um soberano diz a um general: “General, confio-te todo o meu exército. Tens plenos poderes para dirigir energicamente a campanha e levar a pátria à vitória. Tudo o que fizeres para defender a nação desde já o sanciono como se por mim fôra feito”. Dias depois fala o mesmo soberano ao estado-maior no meio do qual se acha o generalíssimo escolhido: “Confio-vos o meu exército. Tendes plenos poderes para dirigir energicamente a campanha, etc.” Que hermeneuta sofista haverá aí que pretenda inferir das últimas palavras do soberano que já não há generalíssimo no exército e que a plenitude do comando foi estendida a cada um dos oficiais presentes? Quem poderá sustentar sensatamente haver incompatibilidade entre os poderes do Estado-Maior e a chefia de um só? Ninguém. Ambas as expressões são, não só conciliáveis, mas apresentam juridicamente tôda a exatidão desejável. Diz-se em rigor de direito que um corpo moral possui todos os poderes de que se acha investido o seu chefe. Por que esquecer esta regra de senso comum quando se trata de interpretar o Evangelho para fantasiar contradições que não existem”, etc., etc. Como se vê, Sr. ERNESTO, a sua objeçãozinha já havia sido considerada e resolvida. Por que repeti-la teimosamente como se nada se houvera dito? É isto discussão sincera? desejo real de conhecer a verdade ou obstinação de preconceitos irredutíveis?

Não, tratemos a palavra de Deus com mais submissão e reverência. Em S. MATEUS, c. 16, diz Cristo só a Pedro: “tudo o que ligares na terra será ligado no céu…” Logo, Pedro só tem a plenitude dos poderes na Igreja de Deus. Em S. MATEUS, c. 18, diz Cristo aos seus apóstolos com Pedro: “tudo o que ligar[d]es na terra será ligado nos céus…” Logo, no Colégio apostólico com Pedro, reside também a plenitude dos poderes eclesiásticos. Eis o Evangelho. E o catolicismo ensina que no Papa só, sucessor de S. Pedro, reside a plenitude dos poderes, e que no corpo episcopal em união com o Papa – sucessão do Colégio apostólico com Pedro – se acha igualmente a mesma plenitude de jurisdição [N.E.: registro que isto foi escrito mais de dez anos antes da Lumen Gentium…]. Eis a Igreja Católica. Entre a palavra de Cristo e a constituição de sua Igreja fiel, a equação é perfeita. Que fizeram os protestantes das duas grandes palavras do Senhor? Atiraram uma contra a outra e destruíram ambas. No protestantismo não há nem uma pessoa nem um corpo moral com plenitude de poderes delegada por Cristo para ligar e desligar. Evidentemente, não nos achamos em face da Igreja fundada pelo Salvador.

[Pe. Leonel Franca, “Catolicismo e Protestantismo”, p. 31. 43-45. Ed. Agir, Rio de Janeiro, 1952]

Encadeando os argumentos

Comecemos pelo estudo do orgulho. Um fato que para logo se apresenta no vestíbulo das nossas indagações é o da sua freqüência na incredulidade. Quase todos os homens notáveis pela inteligência e hostis à fé foram também notoriamente soberbos; uniram a uma estima de si, não raro superior à própria valia, um desprezo altivo dos merecimentos alheios.
[Pe. Leonel Franca, “A Psicologia da Fé & O Problema de Deus”, pág. 121. Ed. PUC-Rio/Loyola, Rio de Janeiro, 2001]

Já mais de uma vez fui questionado quando, no meio de algum debate sobre religião, respondi simplesmente, como motivo para justificar determinado ponto, que “a Igreja disse”. Ora – poderia dizer alguém -, dizer “a Igreja disse” não é um argumento; é antes uma falácia, argumentum ad verecundiam, pois o simples fato de uma autoridade ter dito alguma coisa não faz com que a coisa dita seja verdadeira.

O argumento cristão definitivo, a instância última para além da qual não é possível apelar, é sem dúvida alguma o juízo da Suprema Autoridade da Igreja Católica; na célebre expressão de Santo Agostinho, Roma locuta causa finitaRoma falou, encerrou-se a questão. Isto é, sim, um argumento, mas é preciso reconhecer que tal argumento não tem valor sem uma série de pressupostos que o legitimam e sem os quais, de fato, ele não faz muito sentido. É necessário percorrer um longo caminho até se chegar ao Roma Locuta; e se os católicos não o percorrem de uma ponta a outra diante de cada situação prática com a qual se deparam, fiando-se sempre na palavra da Igreja, é porque já estão convencidos de todas as premissas que o legitimam e para o qual conduzem inelutavelmente. Como, p.ex., ao dirigir um carro, as pessoas simplesmente ligam o carro e saem, sem se preocuparem com os complexos conhecimentos mecânicos e eletrônicos sem os quais os carros não poderiam andar. A diferença é que os carros quebram, porque são obras humanas; já a Igreja é indefectível, por ser obra da mão de Deus.

O pe. Leonel Franca, no texto em epígrafe, fala-nos sobre o que ele chama de “obstáculos morais” à Fé. Com uma tremenda perspicácia, mostra-nos o insigne autor que – ao contrário do que alegam aqueles que são hostis à Igreja – os motivos que levam os homens a se afastarem da Igreja, muitas vezes, não são de origem intelectual, e sim moral. “É através de um programa de viver – diz o pe. Franca – que optamos por uma fórmula de pensar” (id. ibid., p. 119). Para o homem, crer é uma atitude razoável; há muitos que não crêem porque a Fé traz junto com ela exigências de vida que, não raro, chocam-se com o “programa de viver” por eles adotado.

Voltemos à questão da autoridade; se, por um lado, qualquer um há de convir que a mera afirmação de alguma coisa por parte de alguém, por mais douta e honesta que seja esta pessoa, não faz com que ipso facto a coisa afirmada se transforme em verdade incontestável, por outro lado é igualmente óbvio que a recusa sistemática em se levar em consideração as colocações das demais pessoas, pelo simples fato de que tais colocações não constituem demonstração definitiva, é uma atitude muito pouco razoável. Ora, seria simplesmente impossível viver em um mundo no qual todas as afirmações de todas pessoas precisassem ser postas à prova para que fossem aceitas. Ao contrário, é plenamente razoável que as pessoas assimilem, na sua vida, as experiências e o conhecimento daqueles que lhes precederam, sem precisarem refazer por si próprias todos os caminhos que trilharam os que vieram antes delas; a menos que – nas palavras do pe. Franca – sejam detentoras de “um desprezo altivo dos merecimentos alheios”…

Mas passemos a vista, ainda que do alto e bem superficialmente, por estes caminhos trilhados; olhemos para a história do Cristianismo, demonstração eloqüente da sua veracidade e confiabilidade. Tenhamos em conta que a pequena sociedade fundada por um Homem da Galiléia, dois mil anos atrás, cresceu e se desenvolveu ao longo dos séculos e se transformou na maior Família que o gênero humano já conheceu; a Igreja nascida do lado aberto de Nosso Senhor na Cruz transformou-se n’Aquela que mudou os rumos da História e construiu a civilização ocidental. Ora, não há efeito sem causa; qual é porventura a causa do extraordinário crescimento e da ainda mais extraordinária sobrevivência deste grupo de pessoas as mais distintas, unidas – ultrapassando os séculos, as culturas e os povos – ao redor do legado de um Carpinteiro de Nazaré? É porventura razoável imaginar que, sendo conhecidas as causas de um sem-número de efeitos, justamente este – sem sombra de dúvidas o mais portentoso que a História é capaz de narrar – não tenha nenhuma causa? É sensato postular que, no mundo em que o homem explica todos os fatos, justamente este esteja condenado a permanecer sem explicação?

Santo Tomás de Aquino já evocava este raciocínio, para demonstrar a importância da Fé para o cristão. São tão fortes e convincentes as palavras do Doutor Angélico que peço licença para deixá-lo falar por si próprio:

Se um rei enviasse suas cartas com o selo real, ninguém ousaria dizer que aquelas cartas não eram do próprio rei. É claro que as verdades nas quais os Santos acreditaram e que nos transmitiram como sendo de fé cristã, estão seladas com o selo de Deus. Tal selo é significado por aquelas obras que uma simples criatura não pode fazer, isto é, pelos milagres. Pelos milagres Cristo confirmou as palavras dos Apóstolos e dos santos.

Podes, porém, replicar, dizendo que ninguém viu esses milagres. É fácil responder esta objeção. É conhecido que toda a humanidade prestava culto aos ídolos e que a fé cristã foi perseguida, confirmando-o, além do mais, a história do paganismo. Converteram-se todos a Cristo, porém, em pouco tempo. Os sábios, os nobres, os ricos, os governos e os grandes converteram-se pela pregação de poucos homens rudes e pobres. Ora, não há saída: ou se converteram porque viram milagres, ou não. Se foi porque viram milagres que se converteram, a tua objeção não tem sentido. Se não o foi, respondo que não poderia haver maior milagre que esse de todos os homens converterem-se sem ter visto milagres. Deves te dar por vencido.

Eis porque ninguém pode duvidar da fé. Devemos acreditar mais nas verdades da fé do que nas coisas que vemos. Porque a vista do homem pode falhar, mas a ciência de Deus é sempre infalível.
[Santo Tomás de Aquino, “Exposição sobre o Credo”]

A História da Igreja Católica é simplesmente inexplicável, quando se a considera sob uma ótica meramente naturalista. Ao contemplar esta longa sucessão de séculos, por meio dos quais a Barca de Pedro navegou – não sem tempestades! – incólume e intacta, o espírito humano livre de preconceitos inclina-se naturalmente à conclusão de que está diante de alguma coisa extraordinária. Étienne Gilson repete isso, no seu estilo peculiar, que peço mais uma vez permissão para aqui reproduzir:

Não se vê na história nenhum caso de uma sociedade espiritual feita de homens unidos pelo único amor a uma verdade comum que transcende a razão e mantendo-a durante vinte séculos, sem nunca traí-la. Procura-se não menos em vão um outro exemplo de uma fé religiosa alimentando, durante dois mil anos, um fluxo ininterrupto de especulação racional e, para dizer tudo, de filosofia, toda ocupada em definir seu objeto de especulação, em defender-se dos inimigos de fora, em munir-se de razões, em conquistar alguma intelecção de um mistério que ela aliás não ousa evacuar. A admiração se instala diante dessa interminável linhagem de doutores de múltiplas origens, de algum modo se sucedendo ao longo dos séculos, para manter intacto o ensino de um homem que, no limite de três anos, pregou a doutrina da salvação aos pobres e aos humildes. Três anos somente de vida pública, e esse imenso rio de doutrina circulando por todo o lado há vinte séculos, sem jamais permitir que príncipes, povos, filósofos, enfim, nenhum poder deste mundo o desvie um pouco que seja do seu próprio curso. Nada pode substituir aqui a experiência direta e pessoal dessa história. Aqueles a quem a vida concede a oportunidade de adquiri-la sabem que ela dá invencivelmente a impressão de que uma força mais do que humana atua incessantemente nela. Podemos dizer que o simples olhar para esses vinte séculos de fecundidade doutrinal, que nada de humano pode explicar, nos coloca diante de uma prova manifesta da existência de um Deus imediatamente presente em sua Igreja. Mas talvez tal visão dessa história pressuponha uma longa vida despendida a estudá-la.
[Gilson, Étienne; “O Filósofo e a Teologia”, pp. 212-213. São Paulo, Paulus, 2009]

Eis, portanto, os argumentos, alcançáveis pela Razão Humana, que testemunham em favor da Fé. Há um Deus; houve um dia um Homem que Se disse Deus; os portentosos sinais por Ele realizado e o extraordinário sucesso – aliás, imprevisível e inverossímil – alcançado por Sua obra ao longo dos séculos concedem-Lhe credibilidade; a Igreja por este Homem fundada, até aqui, mostrou-Se incompreensivelmente, por vinte séculos, fiel a Ele. Eis os fatos. Eis o caminho que já foi incontáveis vezes percorrido por aqueles que nos precederam e que nos falam da Fé Católica. Eis as longas veredas que conduzem à filial submissão que o católico tem à Suprema Autoridade da Igreja Católica, sem que ele próprio precise percorrê-las por si mesmo a cada vez que se deparar com um ensino da Esposa de Cristo: basta-lhe saber que tais caminhos existem, e que outros já o percorreram antes dele.

Não é uma atitude razoável reinventar a roda a cada vez que ela precisar ser utilizada, nem mesmo negar a sua existência porque não fomos nós próprios a produzi-la. Não é sensato menosprezar os ensinamentos daqueles que nos precederam pela simples razão de que não fomos nós mesmos a adquiri-los. Não é inteligente desdenhar daquilo que nos dizem os que são mais sábios do que nós, meramente por uma recusa obstinada em admitirmos que possa existir uma realidade com a qual não tivemos ainda contato. Escutemos, portanto, a Igreja; até mesmo porque a reinvenção da roda é trabalhosa – segundo Gilson, talvez despenda uma vida inteira – e não há sentido em condicionarmos a nossa aceitação de uma conclusão à sua “refazenda” por nós próprios. Não é necessário que trilhemos todos os caminhos que já foram trilhados; convençamo-nos, ao invés disso, que eles existem, podem ser percorridos e já o foram por diversas vezes. Concedamos crédito à experiência dos que nos precederam. E termino com mais uma citação do filósofo francês, nas páginas finais do seu livro já citado:

[D]irei que, na noite de uma vida passada no estudo da filosofia cristã, plenamente consciente da evolução histórica por ela sofrida – exatamente aquela que o Papa Leão XIII descreveu com tanta lucidez em Aeterni Patris -, não sou menos consciente da milagrosa fidelidade à fé cristã que ela testemunha. (…) Relatando minha experiência, digo somente que, caso tivesse encontrado algo mais inteligente e mais verdadeiro do que aquilo que São Tomás disse sobre o ser, eu me apressaria em dizê-lo a meus contemporâneos. Contudo, acabei por concluir que sua metafísica é verdadeira, profunda, fecunda, e é essa verdade sem originalidade que devo me contentar em transmitir-lhes.

[…]

Como se poderia acreditar que esse belo cargueiro, que há tantos séculos percorreu tantos caminhos sem nunca mudar de rota, esteja hoje prestes a trocar de direção ou chegar ao fim da linha? Nem a energia lhe falta para seguir sua viagem, nem a assistência daquele que prometeu estar conosco até a consumação dos séculos.
[Gilson, op. cit., pp. 236-237. 239]

Eis os fatos que atestam o valor do Cristianismo, eis as razões que a Razão Humana aduz em favor da Fé, eis o tributo que a História presta à Igreja de Nosso Senhor.