Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem

Confesso a minha ignorância da história portuguesa: não conheço Salazar. Sei que os anti-clericais o demonizam. E não saberia indicar nenhum texto que se empenhe em defender a memória do famoso líder português.

Mas esta resposta, dada aos familiares dos soldados portugueses mortos na Guerra do Ultramar, é um espetáculo. A voz no vídeo é do próprio Salazar. Todos os soldados que aparecem são portugueses.

“Sem hesitações, sem queixumes, naturalmente como quem vive a vida, os homens marcham para climas inóspitos e terras distantes a cumprir o seu dever. Dever que lhes é ditado pelo coração e pelo fim da Fé e do Patriotismo que os ilumina. Diante desta missão, eu entendo mesmo que não devemos chorar os mortos. Ou melhor. Havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem”.

Ainda sobre o abaixo-assinado dos bispos contra o PNDH-3

Só atualizando: o abaixo-assinado dos 67 bispos contra o PNDH-3, que eu publiquei aqui na semana passada, encontra-se disponível no site da Arquidiocese do Rio de Janeiro. No da CNBB, ao que me conste, ainda não.

E saiu na mídia secular: Bispos condenam Programa de Direitos Humanos em texto.

Bispos condenam Programa de Direitos Humanos em texto.

Quem é socialista propõe uma via comprovadamente retrógrada

[Faço questão de publicar cum jubilo o pequeno artigo de S.E.R. Dom Aloísio Roque Oppermann, cujo título é “Pode existir socialismo cristão?”, e que foi publicado – pasmem! – no site da CNBB. Os grifos são meus.

Vamos ver se, agora, alguns políticos ditos católicos acordam, algumas múmias da Teologia da Libertação voltam para os seus túmulos e alguns leigos param de apoiar partidos socialistas.]

Recebo uma revista católica, que leio religiosamente. Destina-se aos Jovens. É escrita por uma equipe de pessoas de bom nível intelectual e didático. Mas lá no fundo, a linha de pensamento me deixa preocupado. Entre outras coisas, mensalmente sai um artigo que louva certas revoluções, de viés claramente esquerdizantes. É um estímulo aos jovens, para canalizar suas energias, de modo bem suave, para o socialismo. A mesma impressão me causa o Stedile, com seus sequazes nem sempre de origem rural. Novas terras para cultivar, é o que menos interessa. O que se busca é uma nova ordem social, evidentemente socialista. (Ou seria anarquista?) Em todas as latitudes, em qualquer ramo, sempre que se apresenta um corifeu do socialismo, ele se auto-reveste das características simpáticas de moderno, avançado, restaurador da justiça, criador da abundância para todos, enfim, da prosperidade agora ao alcance da mão.

Felizmente, já temos no mundo uma vasta experiência socialista, de duzentos anos, que se instalou em vários países, e deixou rastos de sangue e de atraso. Assim conhecemos sua face. Vejamos as características de tal linha econômico-política. Ela é invencivelmente de alma atéia. E como não consegue convencer a população, via raciocínio, então lança mão do cerceamento da liberdade.  Esvazia tudo o que é de ordem particular, para destinar todos os bens para a administração da sociedade. Como, no seu entender, a livre iniciativa só visa o lucro pessoal e o egoísmo, então o Estado é que deve planejar a produção e a distribuição dos bens. Cabe-lhe ditar regras para a imprensa, selecionar a linha ideológica da escola, e impor a revolução violenta, para implantar o regime dos miseráveis. Para o triunfo do socialismo, a via democrática se mostrou um caminho inviável. Só a coação, para eles, é que resolve. É claro que existem vários tipos de socialismo, mas suas semelhanças são enormes. Com essa descrição também não posso aprovar o capitalismo grosseiro. Mas este admite reformulações, deixa espaço para os partidos de tônica social, e aceita (às vezes constrangido), em aperfeiçoar-se pela Doutrina Social da Igreja. Gente, vamos encurtar caminhos: a via socialista, definitivamente, não é solução. Quem é socialista propõe uma via, comprovadamente retrógrada.

Precisa-se de voluntários

Divulgando – o Blog do Fernando (que, aliás, está com um design novo muito legal) mantém já algum tempo um apostolado de Defesa Católica, e precisa de voluntários.

A idéia é excelente e tremendamente necessária. Trata-se de uma espécie de liga anti-difamação católica, para defender a Igreja dos ataques que Ela sofre na mídia no Brasil. Reproduzo aqui o convite do Fernando Tavolaro, e uno-me aos pedidos deles: quem puder se dedicar a este apostolado, que o faça. Deus saberá recompensar!

Há algum tempo, mantenho um apostolado na internet, a Associação de Santa Cruz para a Defesa Católica. O trabalho exercido por esse apostolado consiste em defender a Igreja de ataques sofridos na mídia no Brasil. No último ano os trabalhos do apostolado estiveram parados por conta de meus compromissos profissionais e pessoais. Agora, com mais tempo para me dedicar aos trabalhos, gostaria de ter alguns voluntários para me ajudar a escrever artigos, entrar em contato com meios de comunicação e sugerir abordagens.

Todos são bem-vindos a ajudar no que puderem, mas gostaria de avisar que profissionais e estudantes de direito são especialmente necessários.

Conto com a ajuda de todos!

Fiquem com Deus e divirtam-se,
Fernando.

Vocações recentes para a vida religiosa

[Fonte: National Religious Vocation Conference.
Tradução: Pedro Ravazzano.
Observação: a pesquisa completa é muito mais detalhada; cliquem acima para ver.]

Vocações Recentes para a Vida Religiosa

Center for Applied Research on the Apostolate

(Centro de Pesquisa Aplicada sobre o Apostolado)
Georgetown University, Washington, DC

Agosto 2009

Vocações Recentes para a Vida Religiosa:
Relatório para a Conferência Nacional de Vocações Religiosas

Mary E. Bendyna, RSM, Ph.D.
Mary L. Gautier, Ph.D.

Tradução: Pedro Ravazzano

Sumário Executivo:

Este relatório apresenta os resultados de um estudo recente de vocações à vida religiosa na América, conduzido pelo Center for Applied Research in the Apostolate (Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado) (CARA) para a National Religious Vocation Conference (Conferência Nacional de Vocações Religiosas) (NRVC). O estudo é baseado em pesquisas de institutos religiosos, estudos e grupos de enfoque com vocações recentes à vida religiosa, e uma análise de determinadas instituições religiosas selecionadas que têm tido sucesso em atrair e reter novos membros. O estudo foi desenhado para identificar e compreender as características, atitudes e experiências de homens e mulheres que entram na vida religiosa hoje, bem como as características e as práticas das instituições religiosas que estão atraindo novos candidatos e retendo novos membros com êxito.

(…)

CARA enviou os questionamentos por correio a um total de 976 entidades, na primavera de 2008 e, em seguida, empreendeu uma extensa pesquisa através do correio, e-mail, telefone e fax durante todo o verão e outono de 2008 para alcançar uma alta taxa de resposta. CARA recebeu respostas preenchidas por 591 institutos religiosos com uma taxa de resposta de 60 por cento. No entanto, uma análise mais detalhada das listas e os que não responderam mostrou que algumas das congregações e províncias nas listas originais haviam sido fundidas com outras durante o curso da pesquisa. Outras entidades da lista não são províncias ou congregações, mas regiões ou casas que não possuem formação/incorporação nos Estados Unidos e não deveriam ter sido incluídas na pesquisa. Outros ainda, especialmente entre os monastérios contemplativos e comunidades emergentes, aparentemente tinham deixado de existir.

(…)

Principais Conclusões:

(…)

Atração para a Vida Religiosa e a um Instituto Religioso em particular

• Os novos membros são atraídos para a vida religiosa primeiro por um sentido de vocação e um desejo de oração e crescimento espiritual. Mais de três quartos (78 por cento) disseram que foram atraídos “muito” pela primeira e quase a mesma quantidade (73 por cento) disseram que foram atraídos “muito” pela segunda. Mais do que qualquer outra coisa, foram atraídos para sua instituição religiosa particular pelo exemplo de seus membros e, especialmente, pelo seu senso de alegria, por seu realismo e seu empenho e entusiasmo. Cerca de 85 por cento disseram que o exemplo dos membros atraiu “muito”.

• Em um grau um pouco menor, os membros mais novos também disseram que eles foram atraídos para a vida religiosa pelo desejo de servir e de fazer parte de uma comunidade. Se sentiram atraídos, em particular, ao seu instituto religioso pela sua espiritualidade, vida comunitária e vida de oração. As pastorais são igualmente importantes para a maioria dos novos membros, entretanto, são menos importantes que a espiritualidade, a oração, a comunidade e estilo de vida. As questões pastorais, especialmente a possibilidade de uma diversidade destas, tendem a ser mais importantes para os homens do que para as mulheres entre os novos membros.

• É mais provável que os entrevistados mais jovens digam que foram atraídos para a vida religiosa pelo desejo de se comprometerem mais com a Igreja e com seus institutos, em particular pela sua fidelidade à Igreja, em comparação com os inquiridos mais velhos. Muitos também dizem que sua decisão de aderir ao seu instituto foi influenciada pela sua prática em relação ao hábito religioso. O fosso entre as gerações, especialmente entre a “Geração Milênio” (nascidos em 1982 ou depois) e geração do Vaticano II (nascidos entre 1943 à 1960), se tornou evidente durante todo o estudo de questões que tenham a ver com a Igreja e com o hábito. As diferenças entre as duas gerações também se extendem às questões da vida em comunidade, bem como os estilos e tipos de oração.

• Os membros mais recentes da vida religiosa se relacionaram com as instituições religiosas de maneiras muito diferentes. A experiência mais comum foi em uma instituição como a escola, na qual servem os membros. Outras formas relativamente comuns de entrar em contanto com o instituto são mediante a recomendação de um amigo ou conselheiro, trabalhar com um membro do instituto, através de um amigo da congregação, por meio de materiais promocionais impressos ou pela Internet.

• Em comparação com as mulheres, é mais provável que os homens digam que entraram em contato com seu instituto religioso em uma escola ou outra instituição onde servem os membros. Comparado com os homens, é mais provável que as mulheres descubram seu instituto através da recomendação de um amigo ou conselheiro.

• Comparado com os mais jovens, é mais provável que os inquiridos mais velhos tenham conhecido seu instituto de forma mais direta, ou seja, trabalhando com um membro ou através de um amigo do instituto. Inquiridos mais jovens, em particular a Geração Millennium, mais provavelmente conheceram seu instituto através da recomendação de um amigo ou conselheiro, ou através de materiais promocionais impressos ou pela Internet.

• Alguns dos membros mais jovens não tinham conhecido homens e mulheres religiosos antes de sentir um chamado à vida religiosa. Muitos destes jovens religiosos primeiro conheceram seu instituto, nomeadamente, através da recomendação de um amigo ou conselheiro, muitas vezes um padre, e muitos descobriram ou sabiam mais sobre o instituto através da internet. A experiência direta com o Instituto e os seus membros, através de eventos presenciais, retiros, discernimento, e outras oportunidades, são especialmente importantes para este grupo etário.

(…)

Oração e Espiritualidade

• Muitos dos novos membros identificam a oração comum como um aspecto da vida religiosa que atraiu mais e que mais os sustenta atualmente. Quando perguntado sobre a importância dos diferentes tipos de oração, o que mais os entrevistados mencionam é Comunhão diária e a da Liturgia das Horas, como os tipos de devoção que são mais importantes para eles.

• É mais provável que os entrevistados da geração do Milênio, em comparação com outros entrevistados, especialmente os da geração Vaticano II, digam que a comunhão diária, a Liturgia das Horas, adoração Eucarística, e outras orações devocionais são “muito importantes” para eles. Comparado com os entrevistados mais jovens, os entrevistados mais velhos dão mais importância à fé e, em menor grau, a oração comunitária não litúrgica.

• Esses padrões se repetiram nas respostas abertas tanto como nas entrevistas e grupos de enfoque em que muitos membros mais jovens mencionaram a comunhão, a adoração da Eucaristia, o Ofício Divino e devoção mariana como particularmente importante para eles.

(…)

Práticas com respeito ao Hábito Religioso

• As respostas à pergunta aberta sobre o que os atraiu ao seu instituto religioso revelam que ter um hábito religioso foi um fator importante para um número significativo de novos membros. Entrevistas com os diretores vocacionais também sugerem que muitas pessoas que estão pesquisando a vida religiosa buscam a oportunidade de vestir um hábito, mesmo naqueles institutos em que poucos ou nenhum dos membros o fazem regularmente.

• Cerca de dois terços dos novos membros, nos institutos pesquisados, estão num instituto que faz uso do hábito religioso. Para pouco mais da metade destes novos membros (55 por cento), o hábito é necessário em todas ou na maioria das circunstâncias e para outros 16 por cento só é necessário em certas ocasiões, como na pastoral ou oração. Nas discussões dos grupos de enfoque, alguns participantes foram muito fortemente a favor ou contra a exigência do hábito, enquanto alguns viram o valor de usar o hábito eclesiástico em, ao menos, algumas circunstâncias.

• Entre os que relataram que o hábito é opcional, 90 por cento dos homens e 27 por cento das mulheres disseram que usam ocasionalmente, enquanto 14 por cento dos homens e 15 por cento das mulheres disseram que usam sempre ou na maioria das vezes. Entre aqueles que afirmam que o seu instituto não tem hábito, quase metade dos homens (48 por cento) e quase um quarto das mulheres (23 por cento) disseram que usariam um hábito, se tivessem essa opção.

Aspectos mais gratificantes e satisfatórios da Vida Religiosa

• Quando perguntado o que eles acham mais gratificante e satisfatório da vida religiosa, os novos membros brindaram uma série de comentários sobre vários aspectos da vida religiosa. As respostas mais freqüentes foram sobre a dimensão da vida religiosa. Alguns mencionaram viver, orar e trabalhar em conjunto, enquanto outros se concentraram mais no sentido de um objetivo comum e de ser parte de algo maior que eles. A freqüência de menções de vida em comunidade sugere que este é um aspecto particularmente importante da vida religiosa para a maioria dos novos membros.

• Muitos dos novos membros também identificam alguns aspectos da dimensão espiritual da vida religiosa como o sentido de seguir o chamado de Deus, aprofundar nosso relacionamento com Deus e com Cristo e/ou a oração pessoal e comunitária, como os aspectos que fornecem o maior senso de gratificação ou satisfação. Nas suas respostas, muitos novos membros mencionaram a comunhão diária, a adoração Eucarística, o Ofício Divino, a devoção mariana, e outras práticas devocionais como particularmente significativas para eles.

• Alguns dos novos membros citaram o serviço ou a extensão do apoio da comunidade para a vida religiosa como o mais gratificante para eles. Muitos destes entrevistados mencionaram a pastoral, o serviço, ou o apostolado, enquanto outros disseram ser um testemunho de Deus para os outros. O fato de que os comentários sobre a pastoral, serviço ou apostolado são menos freqüentes do que os relacionados com a comunidade e espiritualidade sugere que eles podem ser menos notáveis para os novos membros.

(…)

Melhores Práticas no Ministério das Vocações

• Os resultados do estudo sugerem um conjunto de “melhores práticas” para promover as vocações. Estes incluem a implementação de uma “cultura vocacional” e incluir membros e diretores no esforço concertado para promover as vocações; ter um diretor vocacional em tempo integral apoiado por uma equipe e recursos para utilização de novas mídias, especialmente sites e outra presença na Internet; oferecer programas de discernimento e outras oportunidades para conhecer potenciais candidatos a membros e aprender mais sobre o Instituto; ter como alvo os estudantes universitários e adultos jovens, bem como alunos de escolas primárias e secundárias para mostrar a possibilidade da vida religiosa e informá-los sobre o instituto.

• Embora estas práticas possam ter um impacto positivo para atrair e reter novos membros, a pesquisa sugere que as características do exemplo dos membros e do instituto são o que mais influencia a decisão de aderir a um instituto em particular. As instituições de maior sucesso em termos de atrair e reter novos membros são, no momento, aquelas que seguem um estilo mais tradicional de vida religiosa, em que os membros vivem juntos em comunidade, participam da Comunhão diária, recitam o Ofício Divino, fazem práticas devocionais, usam hábito religioso, trabalham juntos no apostolado comum e mostram ostensivamente a sua fidelidade à Igreja e aos ensinamentos do Magistério. Todas estas características são particularmente atraentes para os jovens que ingressam hoje na vida religiosa.

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Santidade e vocações

Hoje, 31 de janeiro, recordamos em particular São João Bosco, fundador da Família Salesiana e padroeiro dos jovens. Neste Ano Sacerdotal, eu gostaria de invocar sua intercessão para que os sacerdotes sejam sempre educadores e pais dos jovens; e para que, experimentando esta caridade pastoral, muitos jovens acolham o chamado a dar a vida por Cristo e pelo Evangelho.

– Bento XVI, Angelus, 31 de janeiro de 2009

Achei este pedido do Papa particularmente feliz. Vocações, e fidelidade à vocação. Não apenas que os jovens decidam seguir a Cristo; mas também que, uma vez que o façam, sejam sempre educadores e pais dos jovens.

Educadores da educação verdadeira, que nada tem a ver com a mera “informação” sobre assuntos diversos tão comum nos nossos dias. Educação que é verdadeira formação, e formação do ser humano integral – não mera erudição.

Pais, de paternidade espiritual, daquela que fala São Paulo. Há carência de pais espirituais, de homens sábios e santos que possam ser, para a vida espiritual, aquilo que os pais naturais são para a vida física. Na ordem da natureza, todo mundo precisa de pais. Isso não é menos verdade na ordem da graça; mas, infelizmente, é muitas vezes menosprezado.

Não basta que haja vocações, é preciso que sejam vocações santas. E, mesmo assim, é preciso que haja vocações, porque ninguém é insubstituível neste mundo, nem vai perdurar para sempre. Mas a santidade é difusiva de si mesma e, por isso, o Papa assim pede, nesta ordem: que os sacerdotes sejam santos, e que os jovens atendam aos chamados do Altíssimo. Se os sacerdotes forem santos, não faltarão vocações. A “crise de vocações” bem pode ser vista como uma crise de santidade no clero. Padre santo, povo piedoso – e a veracidade deste ditado é empiricamente verificável nos nossos dias.

Lembrei-me daquele texto sobre os coroinhas – profundamente verdadeiro! – que nem sei se cheguei a citar aqui; caso contrário, faço-o agora, fazendo coro aos pedidos do Papa Bento XVI: que os ministros do Deus Altíssimo sejam santos, e que os jovens possam dar generosa resposta a Nosso Senhor que os chama.

De fato, convivendo com o sacerdote, os pequenos iam percebendo a importância daquele homem que era tão procurado: visitava os doentes, confessava os penitentes, aconselhava casais em crise, julgava dissídios na comunidade, pregava o Evangelho, celebrava a Santa Missa. E mais: os pequenos viam a piedade do padre, breviário em punho, mergulhado na oração.

Talvez esse tempo se recupere. Talvez não. Pode ser que, neste século pós-moderno, outras atividades mais importantes gastem todo o tempo dos novos sacerdotes, competindo com sua missão específica. Pode ser que agendas entupidas tornem incômoda a presença daqueles pardais. Pode ser que o pároco pareça um homem infeliz, um burocrata do altar, permanentemente irritado e insatisfeito, um autêntico “espanta-nenê”….

Nesse caso, é melhor que não haja mesmo crianças por perto.

João Paulo II e o cilício, Bento XVI e El País

Só comentando: todo mundo já deve ter ouvido falar do novo livro sobre João Paulo II, escrito pelo postulador da causa de beatificação, o monsenhor Slawomir Oder. Eu não li o livro, mas a julgar pelas notícias que saíram a única coisa que parece interessar nele é a informação de que o Papa usava cilício e penitência.

Aliás, a notícia não fala em cilício e penitência; diz somente que o Vigário de Cristo “se flagelava regularmente”. O cilício, fui eu que coloquei, uma vez que acho perfeitamente razoável supôr que o Pontífice o utilizava. E ponho o cilício na história porque o piedoso instrumento de ascese já foi, nos últimos anos, devidamente demonizado pelos inimigos da Cruz de Cristo. E, a Opus Dei, junto com ele.

Alguém comentou em um email ou no twitter que João Paulo II, comunicativo como sempre foi, jamais poderia ser chamado pela mídia de retrógrado ou medieval pela utilização do cilício ou da penitência. Seguindo esta lógica, o resultado deveria ser a absolvição das penitências corporais, uma vez que mesmo João Paulo II as utilizava. Ledo engano. Uma senhora chamada Barbara Gancia, ilustre desconhecida de mim até hoje, já resolveu jogar lama na imagem do falecido pontífice. Entre outras diatribes e vitupérios que não ouso reproduzir, esta senhora sentenciou que João Paulo II seria “um sujeito de mentalidade medieval!”.

A revelação de que o Servo de Deus João Paulo II fazia penitências corporais deveria servir para resgatar estas santas práticas de ascese – até o presente momento restritas ao gueto dos fanáticos ultra-reacionários e de extrema-direita da Opus Dei. No entanto, já estão tentando fazer precisamente o contrário: na cabeça de alguns anti-clericais, se o Papa usava cilício e penitência, isso não significa que o cilício e a penitência são coisas boas, mas sim que o Papa é um desequilibrado, um sadomasoquista. Contra gente preconceituosa como a sra. Gancia não há nada que se possa fazer. Ela já botou na cabeça que as penitências corporais são coisas do Capeta no qual ela não acredita, e ai de quem aparecer para as defender. Com esse tipo de gente, não vale nem a pena perder muito tempo.

Enquanto isso, e por incrível que pareça, na contramão de tudo o que se poderia esperar, tive a grata surpresa de encontrar no El País uma matéria com o singelo título de en defensa de Benedicto XVI! E fico pensando cá com os meus botões: se a Barbara Gancia se escandaliza e rasga as vestes ao saber que João Paulo II se flagelava, qual será a opinião dela sobre o Papa Bento XVI gloriosamente reinante? E chego à conclusão de que não quero nem saber. Tenho a ligeira sensação de que seria alguma coisa bem parecida com o que se critica na reportagem espanhola acima citada. Os anti-clericais são tão previsíveis. Às vezes eu acho incrível como eles conseguem manter platéia.

Abaixo-assinado dos bispos contra o PNDH-3

[Recebi por email de duas fontes distintas. Não tem (ainda) nem no Google, mas o sacerdote meu amigo que mo enviou garantiu a autenticidade.

Reitero a minha positiva surpresa com a tomada de posição pública (finalmente, graças a Deus!) dos bispos católicos desta Terra de Santa Cruz. Já estava mais do que na hora. Deus seja louvado. São 67 os sucessores dos Apóstolos que subscreveram o texto abaixo. Que a Virgem Santíssima os possa recompensar.

No entanto, eu tenho uma dúvida: segundo a Wikipedia (que cita o “Diretório da liturgia e da organização da Igreja no Brasil” da CNBB), há 272 circunscrições eclesiásticas no Brasil. Contando os bispos auxiliares e eméritos ainda vivos, deve haver uns 400 bispos no “maior” país católico do mundo. Onde está o resto das assinaturas?

Sugiro que enviemos este abaixo-assinado aos nossos bispos diocesanos, para que eles tenham também a oportunidade de se manifestar publicamente e engrossar as fileiras dos que não traíram o seu dever.]

Pronunciamento acerca do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos

Nós abaixo-assinados, impelidos por nosso dever pastoral como Bispos católicos, provenientes de várias regiões do País, reunidos em um encontro de atualização pastoral – prosseguindo a tradição profética da Igreja Católica no Brasil que, nos momentos mais significativos da história de nosso País, sempre se manifestou em favor da democracia, dos legítimos direitos humanos e do bem comum da sociedade, em continuidade com a Declaração da CNBB do dia 15 de Janeiro de 2010 e com a Nota da Comissão Episcopal de Pastoral para a Vida e a Família e em consonância com os pareceres emitidos por diversos segmentos da sociedade brasileira feridos pelo III Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), assinado pelo Preside nte da República no dia 21 de dezembro de 2009 – nos vemos no dever de manifestar publicamente nossa rejeição a determinados pontos deste Programa.

Diz a referida Declaração: “A CNBB reafirma sua posição muitas vezes manifestada em defesa da vida e da família e contrária à discriminalização do aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e o direito de adoção de crianças por casais homo-afetivos. Rejeita, também, a criação de mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União, pois considera que tal medida intolerante, pretende ignorar nossas raízes históricas”.

Não podemos aceitar que o legítimo direito humano, já reconhecido na Declaração de 1948, de liberdade religiosa em todos os níveis, inclusive o público, possa ser cerceado pela imposição ideológica que pretende reduzir a manifestação religiosa a um âmbito exclusivamente privado. Os símbolos religiosos expressam a alma do povo brasileiro e são manifestação das raízes históricas cristãs que ninguém tem o direito de cancelar.

Há propostas que banalizam a vida, descaracterizam a instituição familiar do matrimônio, cerceiam a liberdade de expressão na imprensa, reduzem as garantias jurídicas da propriedade privada, limitam o exercício do poder judiciário, como ainda correm o perigo de reacender conflitos sociais já pacificados com a lei da anistia. Estas propostas constituem, portanto, ameaça à própria paz social.

Fazemos nossas as palavras do Cardeal Dom Geraldo Majela Agnelo, Primaz do Brasil, referidas à proposta de discriminalização do aborto, mas extensivas aos demais aspectos negativos do programa. O PNHD 3 “pretende fazer passar como direito universal a vontade de uma minoria, já que a maioria da população brasileira manifestou explicitamente sua vontade contrária. Fazer aprovar por decreto o que já foi rechaçado repetidas vezes por órgãos legítimos traz à tona métodos autoritários, dos quais com muito sacrifício nos libertamos ao restabelecer a democracia no Brasil na década de 80”.

“Firmes na esperança, pacientes na tribulação, constantes na oração” (Rm 12, 12), confiamos a Deus, Senhor supremo da Vida e da História, os rumos de nossa Pátria brasileira.

Rio de Janeiro, 28 de Janeiro de 2010.

+ Alano Maria Pena, Arcebispo de Niteroi, RJ

+ Francisco de Assis Dantas de Lucena, Bispo de Guarabira

+ Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica S. João Maria Vianney, Campos, RJ

+ Benedito Gonçalves Santos, Bispo de Presidente Prudente, SP

+ Joaquim Carreira, Bispo Auxiliar de São Paulo, SP

+ Juarez Silva, Bispo de Oeiras, PI

+ Manoel Pestana Filho, Bispo emérito de Anápolis, GO

+ José Moreira da Silva, Bispo de Januária, MG

+ Tarcísio Nascentes dos Santos, Bispo de Divinópolis, MG

+ Guiliano Frigenni, Bispo de Parintins, AM

+ Paulo Francisco Machado, Bispo de Uberlândia

+ Gilberto Pastana de Oliveira, Bispo de Imperatriz, MA

+ Philipe Dickmans, Bispo de Miracema, TO

+ Edney Gouvêa Mattoso, Bispo eleito de Nova Friburgo, RJ

+ Carlos Alberto dos Santos, Bispo de Teixeira de Freitas – Caravelas, BA

+ Walter Michael Ebejer, Bispo emérito de União da Vitória, PR

+ José Antônio Peruzzo, Bispo de Palmas – Francisco Beltrão, PR

+ Franco Cuter, Bispo de Grajaú, MA

+ Karl Josef Romer, Secretário emérito do Pontifício Conselho para a Família

+ Roberto Lopes, Abade do Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro, RJ

+ Orani João Tempesta OCist., Arcebispo do Rio de Janeiro, RJ

+ Eugenio de Araujo Card. Sales, Arcebispo emérito do Rio de Janeiro, RJ

+ João Carlos Petrini, Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia

+ Luciano Bergamin, Bispo de Nova Iguaçu, RJ

+ Antônio Augusto Dias Duarte, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, RJ

+ Wilson Tadeu Jönck, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro

+ Pedro Brito Guimarães, Bispo de São Raimundo Nonato, PI

+ Fernando Guimarães, Bispo de Garanhuns, PE

+ Salvador Paruzzo, Bispo de Ourinhos, SP

+ José Moureira de Mello, Bispo de Itapeva, SP

+ José Francisco Rezende Dias, Bispo de Duque de Caxias, RJ

+ Laurindo Guizzardi, Bispo de Foz do Iguaçu, PR

+ Gornônio Alves da Encarnação Neto, Bispo de Itapetininga, SP

+ Carmo João Rhoden, Bispo de Taubaté, SP

+ Ceslau Stanula, Bispo de Itabuna, BA

+ João Bosco de Sousa, Bispo de União da Vitória, PR]

+ Osvino José Both, Arcebispo Militar do Brasil, BSB

+ Capistrano Francisco Heim, Bispo Prelado de Itaituba, PA

+ Aldo di Cillo Pagotto, Arcebispo da Paraíba, PB

+ Gil Antonio Moreira, Arcebispo de Juiz de Fora, MG

+ Moacir Silva, Bispo de São José dos Campos, SP

+ Diamantino Prata de Carvalho, Bispo de Campanha, MG

+ Caetano Ferrari, Bispo de Bauru, SP

+ Aléssio Saccardo, Bispo de Ponta de Pedras, PA

+ Heitor de Araújo Sales, Arcebispo emérito de Natal, RN

+ Matias Patrício de Macêdo, Arcebispo de Natal, RN

+ Geraldo Dantas de Andrade, Bispo auxiliar de São Luis do Maranhão, MA

+ Bonifácio Piccinini, Arcebispo emérito de Cuiabá, MT

+ Tarcísio Scamarussa, Bispo Auxiliar de São Paulo, SP

+ Celso José Pinto da Silva, Arcebispo emérito de Teresina, PI

+ José Palmeira Lessa, Arcebispo de Aracaju, SE

+ Antônio Carlos Altieri, Bispo de Caraguatatuba, SP

+ Aloisio Hilário de Pinho, Bispo emérito de Jataí, GO

+ Guilherme Porto, Bispo de Sete Lagoas, MG

+ Adalberto Paulo da Silva, Bispo Auxiliar emérito de Fortaleza, CE

+ Bruno Pedron, Bispo de Ji-Paraná, RO

+ Fernando Mason, Bispo de Piracicaba, SP

+ João Mamede Filho, Bispo Auxiliar de São Paulo, SP

+ José Maria Pires, Arcebispo emérito de Paraíba, PB

+ Alfredo Schaffler, Bispo de Parnaíba, PI

+ João Messi, Bispo de Barra do Piraí – Volta Redonda, RJ

+  Friederich Heimler, Bispo de Cruz Alta, RS

+ Osvaldo Giuntini, Bispo de Marília, SP

+ Assis Lopes, Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, RJ

+ Edson de Castro Homem, Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, RJ

+Alessandro Ruffinoni, Bispo auxiliar de Porto Alegre, RS

+ Leonardo Menezes da Silva, Bispo auxiliar de Salvador, BA

Questões de Bioética em debate – Niterói

Divulgando, com muita alegria: a dra. Lenise Garcia, professora da UnB e presidente do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil sem aborto estará em Niterói no próximo dia 06 de fevereiro, no evento “Questões de Bioética em debate”.

O cartaz de divulgação pode ser visto abaixo. A entrada é franca. Não deixem de ir.

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Hélio, o aborto e a alma

Aproveitando o ensejo surgido em uma troca de emails com uns amigos, gostaria de comentar o artigo do Hélio Schwartsman de hoje sobre o aborto. Para fins de praticidade vou comentar por partes, abstendo-me de citar os trechos sobre os quais não tenho comentários a tecer; quem quiser ler o artigo na íntegra, vá no link supracitado.

Comecemos com um pequeno experimento mental. Suponhamos por um breve instante que as leis e instituições funcionassem direitinho no Brasil e que todas as mulheres que induzem ou tentam induzir em si mesmas um aborto (…) fossem identificadas, processadas e presas

[…]

Minha pergunta é muito simples: Você acha que a aplicação universal do que preconiza a lei do aborto tornaria o Brasil um país melhor ou pior do que é hoje?

Melhor, obviamente, porque um país que pune os crimes de seus cidadãos é sem dúvidas melhor do que um país onde reina a impunidade. Ademais, esta questão pragmática não tem nenhuma relevância no debate, simplesmente porque a “aplicação universal” de virtualmente qualquer artigo do Código Penal iria esbarrar nos exatos mesmos problemas apontados pelo articulista da Folha. E nem por isso nós advogamos pela extinção do Código Penal.

Trabalhos da década de 90 estimavam em até 1,4 milhão o número anual de interrupções forçadas da gravidez.

Estimativas chutadas, para dizer o mínimo. Sobre o número de abortos que ocorrem no Brasil, vale a pena ler este post do Murat – que, aliás, hoje completa exatamente um ano.

Independente disso, sob qualquer ótica minimamente racional, um grande número de crimes é motivo para se aumentar a fiscalização e a punição, e jamais para se lhe abrandar. Se os abortistas fizessem uma aplicação honesta dos seus princípios, quanto mais assaltos houvesse em uma cidade, maior deveria ser o clamor para a descriminalização do roubo. No entanto, eles não fazem isso. Só aplicam os seus “raciocínios” à questão do aborto.

É no mínimo complicado afirmar que a vida começa com a concepção.

Não, não é. O que é complicadíssimo – como o próprio articulista vai admitir no final – é negar que a vida comece na concepção. Mas já vamos chegar lá.

Uma semente não é uma árvore e não recebe do Ibama o mesmo nível de proteção que uma respeitável tora de mogno.

Não, mas o Ibama pune como crime contra a fauna a destruição de ovos – ainda que seja um único – de tartarugas marinhas. E aí, como ficamos? A vida das tartarugas começa “antes” da dos seres humanos? Trata-se de alguma peculiar característica evolutiva com a qual a espécie humana não foi agraciada?

O que a concepção produz é um ser humano em potência, para utilizar a distinção aristotélica, autor tão caro à igreja

Que grosseira petição de princípio. A concepção produz um ser humano em ato, e um homem adulto em potência. Como um recém-nascido é também um adulto em potência, e não “um ser humano em potência”.

Só o que torna coerente a posição do Vaticano, é um dogma de fé: o homem é composto de corpo e alma. E a igreja inclina-se a afirmar que esta é instilada no novo ser no momento da concepção.

Não, negativo. Não é somente por causa disso que a Igreja condena o aborto. Bastaria ler a Declaração sobre o aborto provocado da Congregação para a Doutrina da Fé, onde se diz, citando inclusive autores do início do Cristianismo: “Tertuliano não usou, talvez, sempre a mesma linguagem; contudo, não deixa também de afirmar, com clareza, o princípio essencial: « É um homicídio antecipado impedir alguém de nascer; pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está ainda para nascer. É já um homem aquele que o virá a ser »”. Aliás, vale a pena citar a nota de rodapé que fala explicitamente sobre a questão da infusão da alma:

Esta Declaração deixa expressamente de parte o problema do momento de infusão da alma espiritual. Sobre este ponto não há tradição unânime e os autores acham-se ainda divididos. Para alguns, ela dá-se a partir do primeiro momento da concepção; para outros, ela não poderia preceder ao menos a nidificação. Não compete à ciência dirimir a favor de uns ou de outros, porque a existência de uma alma imortal não entra no seu domínio. Trata-se de uma discussão filosófica, da qual a nossa posição moral permanece independente, por dois motivos: 1° no caso de se supor uma animação tardia, estamos já perante uma vida humana, em qualquer hipótese, (biológicamente verificável); vida humana que prepara e requer esta alma, com a qual se completa a natureza recebida dos pais; 2° por outro lado, basta que esta presença da alma seja provável (e o contrário nunca se conseguirá demonstrá-lo) para que o tirar-lhe a vida equivalha a aceitar o risco de matar um homem, não apenas em expectativa, mas já provido da sua alma.

Agora, sabem de quando é este documento? De 1974. Tem, portanto, mais de trinta anos. O que justifica que, em pleno século XXI, um sujeito tenha a pachorra de publicar um texto na internet acusando a Igreja de defender uma coisa que Ela não defende? Isso poderia ser encontrado em qualquer pesquisa do Google! Custa se informar sobre um determinado assunto antes de escrever sobre ele?

Uma das mais importantes autoridades da igreja, santo Tomás de Aquino, afirmou, acompanhando Aristóteles, que a alma de garotos só chegava ao embrião no 40º dia. Já a de garotas (vocês sabem como são as meninas!) só no 48º dia.

É sinceramente frustrante ser obrigado a ler um coisa dessas no dia de Santo Tomás de Aquino (que é comemorado hoje, dia 28 de janeiro).

Em primeiro lugar, a teoria não dizia que as almas femininas eram infusas “no 48º dia”, e sim no 80º (ou no 90º, segundo alguns). Em segundo lugar, essa posição era mais científica (da “embriologia” de então) do que teológica, uma vez que, à época do Estagirita e do Aquinate, acreditava-se que os homens produziam “homúnculos” que se instalavam no útero materno e iam recebendo “almas sucessivas” (primeiro vegetativa, depois sensitiva e, depois, intelectiva – era essa última que era infusa no 40º dia) conforme fossem se desenvolvendo. Em terceiro lugar, há quem defenda que Santo Tomás não adotava a teoria da animação sucessiva. Em quarto lugar, a Igreja não condenou jamais nem uma teoria nem outra. Em quinto lugar, mesmo com as disputas filosóficas sobre o instante da infusão da alma, nem Santo Tomás de Aquino e nem ninguém na Igreja nunca defendeu o aborto (veja-se, p.ex., Dom Estêvão sobre o assunto, ou João Paulo II na Evangelium Vitae, n. 61)! Aliás, vou citar esta passagem da EV (grifos meus):

Ao longo da sua história já bimilenária, esta mesma doutrina [em classificar o aborto como desordem moral particularmente grave] foi constantemente ensinada pelos Padres da Igreja, pelos seus Pastores e Doutores. Mesmo as discussões de carácter científico e filosófico acerca do momento preciso da infusão da alma espiritual não incluíram nunca a mínima hesitação quanto à condenação moral do aborto.

Esta carta encíclica é de 1995. Tem quinze anos. E tem no Google. Custava ler antes de escrever?

Volto ao Schwartsman:

Mas será que a noção de alma para em pé?

Vale salientar que, uma vez que (como foi mostrado) a condenação moral do aborto independe do momento da infusão da alma, todas as objeções do Hélio à teoria da animação simultânea têm somente interesse filosófico. Em absolutamente nada mudam a condenação moral do aborto. No entanto, vamos às objeções dele.

Estima-se que 2/3 a 3/4 dos óvulos fecundados jamais se fixem no útero, resultando em abortos espontâneos.

Irrelevante. Um limbo “super-povoado”, embora me incomode profundamente, não é de per si uma demonstração da animação tardia.

Além da hipótese da superpopulação do Limbo, pode perfeitamente acontecer que (a) as estimativas estejam erradas; (b) estes abortos sejam frutos de um defeito na concepção, resultando assim em matéria não adequadamente disposta para a recepção da alma intelectiva e, portanto, neste caso, é precisamente a ausência da alma que provoca a “morte” do embrião e o subseqüente aborto espontâneo; (c) a teoria da animação simultânea esteja errada. Ou qualquer outra coisa na qual eu não consiga pensar agora.

Isso, como foi dito, pode até ter interesse metafísico, mas é completamente irrelevante no debate sobre o aborto.

Para começar, a própria concepção não é exatamente um instante, mas um intervalo que varia de 24 a 48 horas. Esse é o tempo que transcorre entre a penetração do espermatozóide no óvulo e a fusão genética dos gametas. Será que a alma leva todo esse tempo para ser soprada no novo ser?

Pode-se perfeitamente assumir que a infusão da alma ocorre ao fim do processo, quando a matéria está adequadamente disposta. Aliás, se a gente parar de pensar em “infusão da alma” como um “sopro”, literalmente, e considerar as coisas da maneira que a filosofia católica considera, todas as dificuldades levantadas pelo artigo da Folha deixam de existir.

O homem, como todas as coisas (exceto os anjos), tem matéria e forma. O corpo é a matéria, a alma é a forma. Para existir o homem – como, aliás, para existir qualquer coisa – é preciso que haja a matéria e a forma, porque “matéria não-informada” não existe e, forma sem matéria, só os anjos. Se, portanto, há um ser humano, há forma, há alma. Em outras palavras: se a matéria orgânica está disposta de tal maneira que seja um ser humano (lógico, e este ser humano em questão está vivo), há uma forma a lhe dar consistência ontológica, há uma alma. Assim considerando, todas as objeções perdem o fundamento, como se pode ver a seguir.

Como já expliquei em outras colunas, gêmeos monozigóticos (idênticos) se formam entre um e 14 dias depois da fertilização, quando o embrião sofre um desenvolvimento anormal dando lugar a dois ou mais indivíduos com o mesmo material genético. A alma, é claro, já estava lá. Cabem, assim, algumas perguntas. Ela também se divide, ou outras almas surgem para animar os demais irmãos?

As almas surgem quando a matéria está disposta, conforme acima explicado. Assim, caso uma divisão celular resulte em dois embriões, a segunda alma surge junto com o segundo embrião, da mesma forma como surgiria se o embrião fosse resultante de fecundação, e não de divisão celular.

Quem fica com a alma “original” é uma pergunta obviamente irrelevante e impossível de ser respondida.

O quimerismo é relativamente raro entre humanos, mas ocorre quando dois ou mais embriões se fundem antes do quarto dia de gestação.

Se o embrião deixa de existir, a alma dele morre. Qual a dificuldade com isso?

O que procurei mostrar com essas considerações é que não é tão certo que a vida comece com a concepção.

Aqui, o Hélio identifica – de maneira totalmente indevida – “a vida começa na concepção” com “a alma é infundida na concepção”. A primeira, é um dado científico incontestável; a segunda, é uma questão filosófica em aberto. O Hélio contestou a segunda; sobre a primeira, não deu um único pio ao longo de todo o longo artigo.

O meu palpite (e é só um palpite, porque eu, ao contrário de alguns religiosos, tenho muito poucas certezas) é que não dá para estabelecer um instante mágico a partir do qual o embrião se torna um ser humano. Ou melhor, até podemos eleger esse momento, mas ele será tão arbitrário quanto qualquer outro.

E, já que a definição é necessariamente arbitrária, não vejo motivos para não a ajustarmos às nossas necessidades.

Que pérola! Antes de mais nada, a embriologia já define perfeitamente que um embrião é um ser humano (se não for um ser humano, ele é o quê? Uma galinha?); o que o Hélio quer dizer, confundindo as duas questões que eu mencionei acima, é que não dá para dizer com certeza quando a alma é infusa.

E a “solução” para ele, ao invés do in dubio pro reo obviamente mais sensato (i.e., considerar ao menos que o embrião pode ser um ser humano, dado que esta possiblidade não foi de modo algum excluída e, portanto, todas as pessoas, para serem honestas, precisam considerá-la e, por conseguinte, proteger o embrião), é… ser arbitrário. Já pensou que maravilha? A gente pode mandar a biologia às favas. A gente pode arbitrar quando é que o ser humano passa a existir. Alguns podem escolher que é na concepção, outros, que é aos 48 dias. Outros podem escolher que é aos dezoito anos. Outros, aos sessenta. E talvez outros possam arbitrar que, para algumas pessoas (digamos, deficientes mentais, ou negros ou judeus), não é nunca. Afinal, não dá para saber com certeza…

Sim, o mundo não é um lugar perfeito. Mas seria muito, muito pior se os abortistas fossem levados a sério em todas as sandices que defendem.