Dois curtas

PT decide dia 17 se expulsa deputados antiaborto. “O Partido dos Trabalhadores decide na próxima semana se expulsa, adverte, suspende ou mantém na legenda dois deputados que são abertamente contrários à legalização do aborto, uma das bandeiras assumidas pelo partido do presidente Lula durante encontro nacional de militantes”.

Parece-me claro que o melhor para nós é que o monstro abortista expulse logo os pró-vida de seus quadros. Na verdade, o melhor realmente seria se os pró-vida tivessem a decência de sair por conta própria do partido assassino; mas a política brasileira me parece cada vez mais incompreensível.

Só receio que os excelentíssimos deputados não saiam do PT batendo a poeira dos sapatos, nem o Partido os expulse impiedosamente, e aí os pró-vida continuem fingindo esquizofrenicamente que dá para fazer militância anti-aborto fazendo parte do partido que apóia o aborto, enquanto o PT continue fingindo que não é abortista. Esperemos.

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Está Instaurada a Idiocracia. “Sim, é isso que esse projeto [que ‘consiste em reduzir a complexidade linguística dos textos, substituindo palavras raras (menos frequentes) por palavras mais usuais ou dividindo e reorganizando orações longas e complexas, entre outras adaptações’] propõe, o emburrecimento institucional de uma população já burra de nascença. Ao criar mecanismos que ‘facilitem’ a compreensão de textos estamos GARANTINDO que essas pessoas JAMAIS se interessarão em desenvolver capacidade de entendimento, JAMAIS ampliarão seu vocabulário e dependerão dos programas para dizer o que pensam sobre determinado assunto”.

Como não concordar? Lembrei-me do que dizia um amigo há muito tempo atrás, nos saudosos debates do Orkut: quem não escreve direito é porque não pensa direito. E, por extensão, também quem não lê direito. Mas, fala sério, já imaginaram um software dividindo orações longas e supondo manter-lhes a semântica?! Tem como proibir este mutilador do trabalho intelectual alheio de ser aplicado àquilo que escrevo?!

Escutai, senhores bispos do Brasil!

Prezados Irmãos, nos decênios sucessivos ao Concílio Vaticano II, alguns interpretaram a abertura ao mundo, não como uma exigência do ardor missionário do Coração de Cristo, mas como uma passagem à secularização, vislumbrando nesta alguns valores de grande densidade cristã como igualdade, liberdade, solidariedade, mostrando-se disponíveis a fazer concessões e descobrir campos de cooperação. Assistiu-se assim a intervenções de alguns responsáveis eclesiais em debates éticos, correspondendo às expectativas da opinião pública, mas deixou-se de falar de certas verdades fundamentais da fé, como do pecado, da graça, da vida teologal e dos novíssimos. Insensivelmente caiu-se na auto-secularização de muitas comunidades eclesiais; estas, esperando agradar aos que não vinham, viram partir, defraudados e desiludidos, muitos daqueles que tinham: os nossos contemporâneos, quando vêm ter conosco, querem ver aquilo que não vêem em parte alguma, ou seja, a alegria e a esperança que brotam do fato de estarmos com o Senhor ressuscitado.

[Bento XVI, aos bispos da Conferência Episcopal do Brasil dos Regionais Oeste 1 e 2 em visita ad limina apostolorum]

Que primor! Escutai, senhores bispos do Brasil, escutai. É Pedro quem fala, e vai diretamente ao ponto. “Neste deserto de Deus”  – prossegue o Sumo Pontífice – “a nova geração sente uma grande sede de transcendência”.

“Deserto de Deus”! Que expressão dura. Não menos dura que outra utilizada pelo Papa pouco antes: “ambiente eclesial secularizado”. Expressões duras, mas não menos verdadeiras. Escutai, senhores bispos do Brasil, Pedro falar!

Já há muito tempo vivemos no “deserto de Deus”. Já há muito tempo morremos de sede, à míngua, nesta que outrora foi chamada Terra de Santa Cruz. Já há muito tempo temos fome de transcendência, e as migalhas catadas em meio ao lixo que recebemos dos nossos legítimos pastores não nos são suficientes. Já há muito tempo o ar pestilento do “ambiente eclesial secularizado” tem envenenado e envergonhado a nossa Pátria Amada. Já há muito tempo o cheiro de enxofre e a fumaça de Satanás tomaram o lugar do incenso de agradável odor que, um dia, perfumou as nossas igrejas. Escutai, senhores bispos, porque não somos nós que falamos: é Pedro que fala.

“[E]sperando agradar aos que não vinham, viram partir, defraudados e desiludidos, muitos daqueles que tinham”… que frase espetacular! Escutai, senhores bispos, escutai: há aqueles que não vêem. E não adianta tocar fogo na Igreja em atenção a eles. Não adianta conspurcar o leito conjugal com as prostitutas. O Bom Pastor vai atrás da ovelha tresmalhada, sim, mas entendei, senhores bispos, que os porcos não fazem parte do aprisco do Senhor. Os porcos, exorcizam-se. E não é resfolegando na lama que os senhores bispos ireis trazer de volta os que não querem ser católicos. Escutai, senhores bispos, e entendei: agindo assim, só vereis partir muitos daqueles que tendes. Escutai, senhores bispos, porque é Pedro quem fala, e não nós!

Rezemos pelo clero. Em especial, pelo episcopado. E rezemos pelo Papa. Peçamos ao Senhor – de joelhos! – pela conversão dos pecadores, liberdade e exaltação da Santa Madre Igreja.

Denúncia de Fraude

Atenção!

O Luciano Henrique, do blog “Neo-Ateísmo, Um Delírio”, denunciou hoje uma fraude cometida contra o seu blog da qual o Deus lo Vult! foi, involuntariamente, palco. A despeito do Luciano verdadeiro já ter esclarecido o ocorrido aqui, julgo uma questão de justiça deixar algumas coisas claras.

O comentário falso foi enviado hoje, dia oito de setembro de 2009, às 06:12 da manhã. O IP do sujeito é o 67.159.45.53, diferente do utilizado pelo Luciano Henrique que fez o esclarecimento. O email por ele informado é o lh@neoateismodelirio.wordpress.com, também diferente daquele que o dono do blog apresentou. O teor do comentário dele é completamente diferente quer dos textos do blog, quer dos comentários seguintes que o Luciano verdadeiro colocou aqui. Portanto, só me resta fazer coro à denúncia do autor do “Neo Ateísmo, Um Delírio” e pôr às claras o mau-caratismo de alguns que, esgotadas as falácias, lançam mão de fraudes para semear a discórdia entre católicos e caluniar falsamente sites que se esforçam para realizar um trabalho honesto.

Repudio com veemência esta palhaçada. Os meios utilizados por alguns dão eloqüente testemunho da qualidade de suas posições.

Natividade de Nossa Senhora

Aniversário da Virgem Santíssima! No dia oito de dezembro nós celebramos a Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria; hoje, nove meses depois, a Igreja celebra a festa da Sua natividade.

Se nasceu no dia vinte e cinco de dezembro o Sol da Justiça, no dia oito de setembro veio ao mundo a Stella Matutina; Aquela que anuncia a proximidade da alvorada, que dá ao mundo sinal de que as trevas da noite estão chegando ao fim. Aquela que reflete a luz do Sol antes mesmo que o Sol nasça: a Virgem Maria vem ao mundo repleta da Graça de Deus, mesmo quando ainda todo o mundo jazia sob o maligno. Nas trevas do pecado que cobriam toda a terra, a Virgem Santíssima resplandece Imaculada: avisando a todos do arrebol glorioso que estava por vir, enchendo de esperança os pecadores arrependidos e impondo verdadeiro terror a Satanás e seus asseclas.

Antes do Sol da Justiça, Deus concede ao mundo a Estrela da Manhã. Antes que a luz refulgisse nas Trevas, já elas eram incomodadas pelo brilho Imaculado da Santa Mãe de Deus. Lembremo-nos, hoje, da Virgem Santíssima, agradeçamos ao Altíssimo por ter-nos concedido tão gloriosa Mãe, e confiemo-nos à proteção d’Aquela que trouxe ao mundo Aquele que é a Salvação do Mundo.

Sancta Maria,
ora pro nobis!

Rascunhos de viagem

Cheguei de viagem. Muitas coisas para fazer, sono atrasado a recuperar, pendências deixadas a serem resolvidas… Mas é mais fácil fazer qualquer coisa quando se está satisfeito com o justo prazer recém-aproveitado.

Aviões e aeroportos são estressantes. Rever os amigos, é rejuvenescedor. Gosto de visitar os lugares já outras vezes visitados; gosto de ver o efeito do tempo nas cidades. O que mudou, o que mudei. Gosto de lembrar.

Lembrei-me, por exemplo, de maio de 2007. Não havia Deus lo Vult!, mas havia Jorge. Ia a São Paulo ver o Sumo Pontífice. Foi a primeira vez que o vi de perto, a primeira vez que lhe ouvi a voz. Na janela do mosteiro de São Bento. Revi a janela, e saboreei a nostalgia: aqui, ouvi Pedro falar.

Algumas fotos de que gostaria não puderam ser batidas. Mas registrei-as com os olhos. Como dentro do mosteiro, na capela do Santíssimo do lado direito, onde o Sucessor de Pedro um dia ajoelhou-se e rezou. Também eu me ajoelhei e rezei: ut inimicos sanctae Ecclesiae humiliare digneris, Te rogamus, Domine, audi nos.

E fui à Catedral. Gótica. No centro de São Paulo. À frente, um herege esbravejava e gabava-se de estar há quinze anos denegrindo a imagem da Esposa de Nosso Senhor e de Sua Mãe Imaculada. Ouvi dizerem que a Igreja matou cinqüenta milhões de cristãos durante a Inquisição; ouvi o “pastor” que pregava dizer, com convicção, que foram mais. É inútil. Tiro o terço do bolso, bato o pó do tênis e dirijo-me à catedral. Rezar em desagravo à Mãe Santíssima. E suplicar ao Altíssimo do fundo da alma pela conversão dos pecadores, liberdade e exaltação da Santa Madre Igreja.

Ando por algumas ruas, ainda sozinho. Sozinho? Nunca. Logo que saí do hotel, na primeira manhã, encontrei aberta a Igreja de Santa Efigênia e entrei. Lá, o Santíssimo exposto; e, num instante, sinto-me em casa. Na presença de todos os meus irmãos e irmãs que, comigo, participam do Corpo e do Sangue do Salvador. Em qualquer parte do mundo. Agradeço a Deus por ser católico: a sensação de familiaridade obtida ao entrar em qualquer igreja de qualquer lugar do mundo, não encontro palavras para exprimir.

Mas tenho amigos a encontrar. Alguns a rever; outros, a conhecer pessoalmente pela primeira vez. Telefonemas, metrôs, ônibus, rodoviárias… encontramo-nos. Que Deus lhes pague a hospitalidade! Conversas e música, e pizzas e cigarrilhas, e cerveja e feijoadas; visitando lugares encantadores e aterradores, rindo-nos e lamentando-nos. Mas sempre com esperança.

A esperança de que a noite não pode durar para sempre, a esperança que se alimenta das pequenas notícias trazidas, ora por um, ora por outro. A esperança rejuvenescida quando vemos que não estamos sós. Quando entramos nas igrejas e vemos as pedras que ultrapassam os séculos, quando estamos de joelhos diante do Santíssimo Sacramento e encontramos outros – irmãos desconhecidos – de joelhos ao nosso lado, quando passamos algum tempo na companhia das pessoas que, conosco, compartilham um profundo amor à Igreja e uma vontade firme de tudo fazer para a maior glória de Deus… aí, sim, alimentamos a nossa esperança. Deus é, afinal, Senhor da História. Que chegue até Ele o nosso clamor. Que Ele ouça a nossa oração. E que nos guarde sempre a Virgem Mãe de Deus, Auxilium Christianorum, que desde a Sua concepção é vencedora de Satanás. Que Ela nos mantenha acesa a chama da esperança, e possa apressar a sua realização.

A soteriologia e o apostolado

Um dos mais graves sintomas da crise que assola a Igreja nos dias de hoje é, no meu parecer, a relativização com a qual é tratado o dogma Extra Ecclesiam Nulla Salus. Como eu comentei aqui bem en passant, há a possibilidade do Batismo de Desejo e da Ignorância Invencível para a salvação dos não-católicos; mas possibilidade não é presunção nem certeza e – eu diria ainda – não é nem esperança no mesmo sentido em que o termo é aplicado a um falecido católico.

Do jeito que algumas pessoas colocam as coisas, chega a parecer até que é mais fácil salvar-se fora da Igreja do que dentro d’Ela! Despreza-se, por um lado, a necessidade absoluta da Graça para a salvação (isso vale inclusive para os que pertencem in voto à Igreja) e, por outro, a natureza humana decaída e a inclinação para o mal que todos os homens possuem. Como se o homem pudesse obter a Graça sozinho (o que é heresia), ou como se Deus conferisse de ordinário a Graça por meios que não os que Ele instituiu para este fim (o que não sei se é heresia, mas é no mínimo uma proposição muitíssimo estranha ao ensino tradicional da Igreja, à qual não se pode aderir levianamente).

Este tipo de mentalidade encontra-se também no otimismo com o qual as pessoas vêem às vezes os não-católicos. Ora, nem mesmo o católico que vive de ordinário em estado de graça, que freqüenta os Sacramentos, que reza, nem este está imune à fragilidade humana e sempre pode cair – e muitas vezes cai! – em desgraça e em pecado mortal; quanto mais não cairão aqueles que não têm os meios ordinários instituídos por Nosso Senhor para a manutenção da vida espiritual, e vivem sujeitos (por melhores que sejam as suas intenções) às vicissitudes da natureza decaída! Têm os não-católicos uma natureza humana melhor do que a dos católicos? Pecam eles menos do que os católicos? Obtêm eles mais facilmente do que os católicos uma contrição perfeita para serem perdoados pelo Altíssimo quando pecam? Por qual motivo, então, são tratados como se estivessem muito bem do jeito que estão, e como se não precisassem urgentemente de tudo aquilo que a Igreja tem para lhes oferecer?

A Teologia nos ensina que é possível – registro e sublinho, possível – ao homem salvar-se pertencendo “à alma” da Igreja caso não seja culpado de estar fora do Seu grêmio visível. Isso é uma coisa. Mas existem duas outras coisas muito relevantes que não podem ser negligenciadas. Primeiro: será que Fulano, uma alma concreta por quem Nosso Senhor derramou o Seu Divino Sangue na Cruz do Calvário, não é culpado por estar fora da Igreja? Não sabemos; mas quem, em sã consciência, iria arriscar num assunto de tão grande gravidade? Segundo: Fulano tem maiores possibilidades de se salvar pertencendo à Igreja in voto ou sendo bom católico e usufruindo dos meios de santificação que a Igreja tem para oferecer?

O arcabouço intelectual não é suficiente – de modo algum! – para nos tranqüilizar quanto à salvação dos que não militam pela Igreja de Nosso Senhor. Não basta saber que existe a “possibilidade” de que se salvem; é necessário se esforçar para que eles se salvem concretamente. É necessário ter uma correta compreensão da Doutrina da Igreja e um verdadeiro amor pelas almas, a fim de que o apostolado seja profícuo. Não nos esqueçamos de que Nosso Senhor nos disse que o caminho era estreito. Não podemos concebê-lo tão largo a ponto de considerarmos de pouca monta a visibilidade da Igreja de Nosso Senhor.

Censura e Liberdade

Reinaldo Azevedo contra a censura na internet. Concordo, para o caso específico, mas não para o geral. A premissa utilizada pelo articulista – “os males da liberdade se combatem como mais liberdade” – é falsa. Atenção! O Reinaldo Azevedo faz questão de frisar que isto se aplica “nesse caso”. No entanto, faltou a ele dizer o resto da sua posição; e em outros casos, como se combatem os males da liberdade?

“Liberdade” – na definição que sempre ouvi atribuída a Santo Agostinho, mas não sei a referência – “não é fazer o que se quer, e sim fazer o que se deve porque quer”. À primeira vista, a frase esvazia completamente a noção de “liberdade” que nós temos, mas isso acontece justamente porque a palavra foi prostituída. Liberdade, ao contrário do que prega o nosso século, não está relacionada à ausência de limites para se agir. Liberdade tem a ver com a deliberação individual. Não faz o menor sentido falar em “liberdade absoluta”. Há limites que simplesmente existem, e não podem ser ignorados.

Por exemplo, os limites morais. Advogar uma liberdade que os ignore é como pretender uma geometria euclidiana que “ignore” a limitação dos triângulos de possuírem três lados, ou desejar abolir a limitação da aritmética que está sujeita à contingência da soma de dois números naturais ser sempre maior ou igual a cada um deles. A melhor geometria não é a que é livre o bastante a ponto de desenhar uma bola quadrada, nem a melhor matemática é aquela que escapa à necessidade exata de suas operações – ao contrário, tais coisas teriam pouca ou nenhuma aplicação.

Igualmente, o melhor homem não é aquele “livre” o suficiente para ser desregrado. O melhor homem é o que tem sob controle as suas paixões e que, dotado de um apurado senso moral, pauta a sua vida por ele – este é verdadeiramente livre, porque não está sujeito à mais terrível escravidão, que é a escravidão do pecado e das próprias paixões. É necessário resgatar o sentido da palavra “liberdade”, distorcido nos nossos dias a ponto de se apresentar quase irreconhecível aos olhos dos homens modernos.

E, voltando à censura estatal ora em pauta, faço coro ao Reinaldo Azevedo e sou a ela contrário exatamente porque ela não é justa, não é razoável, não está orientada ao bem comum. Não por ser um advogado da “liberdade” sem limites, mas por acreditar que a liberdade (a verdadeira, sem aspas) está sendo ultrajada quando os criminosos que tomaram conta dos poderes constituídos, não contentes em sacrificarem a própria liberdade, querem impôr as suas más escolhas aos cidadãos desta Terra de Santa Cruz. Isto, não se pode admitir – esta “liberdade” não têm os excelentíssimos governantes do Brasil.

Gregório Magno, por Bento XVI

Talvez o texto mais orgânico de Gregório Magno seja a Regra pastoral, escrita nos primeiros anos de Pontificado. Nela, Gregório propõe-se traçar a figura do Bispo ideal, mestre e guia da sua grei. Com esta finalidade, ele explica a gravidade do ofício de Pastor da Igreja e os deveres que ele comporta: portanto, aqueles que não foram chamados para esta tarefa, não a busquem com superficialidade; por outro lado, aqueles que porventura a assumiram sem a devida reflexão, sintam nascer na sua alma uma necessária trepidação. Retomando um tema preferido, ele afirma que o Bispo é em primeiro lugar o “pregador” por excelência; como tal, antes de tudo ele deve servir de exemplo para os outros, de tal forma que o seu comportamento possa constituir um ponto de referência para todos. Além disso, uma acção pastoral eficaz requer que ele conheça os destinatários e adapte as suas intervenções à situação de cada um: Gregório passa a explicar as várias categorias de fiéis, com anotações intensas e pontuais, que podem justificar a avaliação de quem viu nesta obra também um tratado de psicologia. Daqui, compreende-se que ele conhecia realmente o seu rebanho e falava de tudo com as pessoas da sua época e da sua cidade.

Todavia, o grande Pontífice insiste sobre o dever que o Pastor tem de reconhecer todos os dias a sua própria miséria de maneira que o orgulho não torne vão, diante dos olhos do Juiz supremo, o bem levado a cabo. Por isso, o capítulo final da Regra é dedicado à humildade: “Quando nos regozijamos por termos alcançado muitas virtudes, é bom reflectirmos sobre as nossas insuficiências e humilhar-nos: em vez de considerarmos o bem realizado, temos que pensar naquilo que deixamos de fazer”. Todas estas preciosas indicações demonstram o altíssimo conceito que São Gregório tem acerca do cuidado das almas, por ele definido como “ars artium”, a arte das artes. A Regra teve tanto êxito que, algo bastante raro, foi depressa traduzida em grego e anglo-saxão.

Bento XVI, Audiência Geral da 4ª-feira, 04 de junho de 2008 (grifos meus).

Divórcio virtual, divórcio real

Havia em Portugal, no ano passado, uma lei que permitia o divórcio pela internet,  graças à qual “qualquer casal sem filhos menores de idade e sem bens para dividir pode se divorciar em no máximo uma hora”. Não sei se tal lei continua em vigor ainda hoje – acho provável que sim.

Aqui, no Brasil, continuamos com a síndrome de copiar de fora – e com atraso – tudo o que não presta. Foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça, hoje pela manhã, “em caráter terminativo[,] projeto que autoriza o uso da internet para acelerar a separação entre casais”.

Em caráter terminativo! Lembrando: a PEC do divórcio (que eliminava a separação prévia por um ano ou mais exigida pela Constituição para que os cônjuges pudessem se divorciar, e contra a qual protestou a CNBB) foi aprovada pela mesmíssima CCJ em junho passado. Não sei se já foi promulgada.

No texto do PLS 464/2008, hoje aprovado, consta o seguinte:

Art. 1º A Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil), passa a vigorar acrescido do seguinte artigo:

Art. 1.124-B. A separação consensual e o divórcio consensual, não havendo filhos menores ou incapazes do casal, e observados os requisitos legais quanto aos prazos, poderão ser requeridos, ao juízo competente, por via eletrônica, conforme disposições da Lei nº 11.419, de 19 de dezembro de 2006, que dispõe sobre a informatização do processo judicial.

Parágrafo único. Da petição constarão as disposições relativas à descrição e partilha dos bens comuns, à pensão alimentícia e aos nomes, se tiverem sido alterados com o casamento.

Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação.

Em certo sentido, é ainda pior do que em Portugal, porque lá exigia-se do casal que não tivesse “bens a dividir”. Aqui, não. Mas, pelo que eu entendi do projeto de lei tupiniquim, ele se refere ao requerimento do divórcio, e não à sua efetivação. Em assim sendo, menos mal. Ruim, sem dúvidas, mas poderia ser pior.

No Palavras Apenas: “São nossos nobres Senadores, fazendo o possível para facilitar ao máximo possível a desintegração das nossas famílias”. Exatamente: são os poderes constituídos atentando contra o bem comum! Que Nossa Senhora da Conceição Aparecida possa interceder pelo Brasil.

Arraste-me para o Inferno

[ATENÇÃO! CONTÉM SPOILERS!]

dragmetohell“Arraste-me para o Inferno” é um filme muito, muito tosco. Quem assiste ao trailler – ou quem vê o cartaz de divulgação do filme – é levado a pensar que se trata de um filme de terror, se não do calibre de um “O Exorcismo de Emylly Rose”, ao menos perto de um “Evocando Espíritos”. Puro engano. O filme não se decide entre o terror verdadeiro, o horror nojento e a comédia.

A intensidade dos efeitos especiais chega a ser cômica, em alguns momentos. Bem feitos, mas – nunca pensei que eu fosse dizer isso – desnecessariamente exagerados. Aquele chão se abrindo já logo no começo e arrastando o menino inteiro para as profundezas do Inferno não assusta. Aquela cabra, quase no final do filme, na qual “entra” o demônio e começa a falar, me arrancou verdadeiras gargalhadas. Isso sem contar quando as cenas são simplesmente nojentas, como a do olho no bolo e a do cadáver da velha vomitando sobre a menina (que me lembraram as mais tenebrosas cenas de “Fome Animal”). Claro, há algumas que valem a pena: a mulher fugindo do demônio que sobe a escada, o portão rangendo e as panelas balançando na cozinha… mas, sinceramente, são poucas. E a indecisão manifesta sobre qual é exatamente o gênero do filme estraga tudo.

À história. A mulher nega a regularização de um empréstimo a uma velha cigana e é amaldiçoada por esta. A velha pega um botão do seu casaco, lança uma mandinga e o devolve; a partir daí, a garota vai ser perseguida por três dias por um demônio – Lamia -, ao final dos quais o ser das trevas vai levar a alma (com corpo e tudo, como já falei) dela para o inferno. A mulher tenta de tudo para se livrar do demônio: procura falar com a velha (que encontra morta), procura um vidente, sacrifica um gato à Lamia (!), paga 10.000 dólares por uma médium experiente, tenta devolver o botão amaldiçoado à velha bruxa (porque a Lamia viria buscar “o dono do objeto amaldiçoado”)… tudo, menos procurar um exorcista de verdade. Nada adianta (a última tentativa, de “repassar” o objeto amaldiçoado, não funciona por mero acaso). A jovem protagonista é arrastada para o inferno ao final do filme. O que, aliás, faz com que o título do filme, no imperativo (mesmo em inglês), não faça o menor sentido… mas deixa pra lá.

Interessam-me aqui principalmente duas coisas: a noção de maldição e as escolhas morais feitas no filme. Primeiro, maldições e exorcismos existem de verdade (há pelo menos duas entrevistas com o pe. Amorth – famoso exorcista de Roma – disponíveis na internet, uma no site do Shalom e, outra, no da Montfort), mas não para “levar a pessoa para o inferno”. As pessoas vão para o Inferno por causa de seus pecados pessoais, e não “arrastadas” por outras. Malefícios podem causar muito mal às pessoas, sim, e o demônio pode atormentar bastante pessoas que deles foram vítimas, sim. Mas Satanás não pode levar para o inferno quem esteja em estado de Graça, e o único capaz de perder a Graça Santificante é a própria pessoa que a possui, por meio do pecado mortal. Nem possessões demoníacas levam ao inferno.

Lembro-me de Fausto, que – aí sim! – é uma história majestosa de pacto com Satanás. O final é apoteótico: Fausto (que havia vendido a alma a Mefistófeles na juventude) morto, a cratera do inferno aberta de um lado, os anjos do Céu descendo do outro e afastando os demônios… Salva-se. Mas o que interessa é que, no caso do clássico de Goethe, o negócio foi feito entre o demônio e o próprio dono da alma. Vender almas de terceiros não faz sentido.

E as escolhas morais… ao final da trama, a senhorita tem a opção de entregar o botão amaldiçoado para alguém e, assim, livrar-se do Inferno. Pois Lamia viria buscar “o dono do objeto amaldiçoado”… Aqui, a injustiça atinge as raias do surreal: vai-se ao inferno pelo simples ato de se receber um botão velho, ainda que não se saiba o significado do gesto! A garota pensa quem vai ser “presenteado” com a maldição. Encontra um velho doente e pensa em entregar-lhe, mas desiste. Pensa no seu colega de trabalho que a havia desonestamente passado para trás, chega a chamá-lo, mas desiste. Por fim, pensa na velha (morta) que a amaldiçoou. E decide fazê-lo.

E eu fiquei pensando… obviamente é imoral passar maldições – aliás, fazer qualquer mal – para terceiros que não têm nada a ver com a história. Mas, na impossibilidade de se destruir o malefício, não será lícito devolvê-lo a quem o lançou? Na minha opinião, é um caso de legítima defesa contra o agressor injusto, sim. Não é uma vingança pura e simples, porque não foi “outra” maldição que a garota lançou – ela pensou em devolver a mesmíssima. A agressão estava “em acto”, e não era passada, dado que Lamia ainda não viera buscar-lhe a alma. Não houve desproporcionalidade. Não havia opções. Neste final do filme, parece-me que conseguiram apresentar uma escolha razoável: o dilema diante das opções de injustiça (p. ex., passar o botão até mesmo para o sujeito que lhe havia sacaneado), a recusa de escolher qualquer uma delas, a escolha definitiva que é – no meu entender – defesa legítima.

Mas permanece o bizarro e o surreal, porque esta reação dependia da entrega, física, do objeto amaldiçoado – e a menina acaba entregando outra coisa à velha, por engano. E o chão se abre sob os pés dela, e os demônios a arrastam para o inferno. À injustiça de ser levada para o inferno por maldição de outrem, juntou-se a injustiça de não ter – por acaso, por uma troca de envelopes – conseguido defender-se da agressora injusta. Neste mundo kafkiano retratado pelo filme, realmente, é complicado viver. Se o filme quis passar desesperança, conseguiu.