Na solenidade de São Pedro e São Paulo – pe. António Vieira

Primeiramente não nego, nem se pode negar que o texto  parece que fala com todos os Discípulos e Apóstolos,  a quem o divino Mestre fazia a pergunta. Mas eu  pergunto também quem foi o que única e singularmente respondeu a ela? Claro está que foi São Pedro: Respondit Petrus. E porque respondeu só ele e nenhum outro? Excelentemente St.° Ambrósio: Cum interrogasset Dominus quid homines de Filio hominis æstimarent, Petrus tacebat: ideo (inquit) non respondeo, quia non interrogor: interrogabor, et ipse quid  sentiam tum demum respondebo, quod meum est. «Enquanto Cristo perguntou o que diziam os homens, Pedro esteve calado sem dizer palavra» __  tacebat; e porque esteve calado Pedro e não respondeu palavra? «Porque aquela pergunta, diz ele, não fala comigo»: Ideo non respondeo, quia non interrogor; «porém quando eu for perguntado, então responderei e direi o que sinto, porque a mim me pertence»: Cum interrogabor, et ipse quid sentiam respondebo, quod meum est. Note-se muito esta última palavra, quod meum est, na qual excluiu o mesmo S. Pedro a todos os outros Apóstolos e confiadamente diz que a resposta daquela altíssima pergunta só era sua e só a ele pertencia. É verdade que a palavra da pergunta: vos autem parece que compreendia a todos; mas a resposta exclui aos demais, como encaminhada a ele por quem sabia o que só Pedro sabia e os demais ignoravam.

Em um famoso milagre do mesmo S. Pedro temos um extremado exemplo, com que a extensão do vós autem se limita só a ele. Entretanto S. Pedro com S. João por uma das portas do templo de Jerusalém a orar, estava ali um pobre tolhido dos pés desde seu nascimento, o qual lhes pediu uma esmola; disse-lhe S. Pedro: Respici in nos: «Olha para nós», e respondendo ao que pedia o pobre; __ Eu __ diz __ não tenho ouro, nem  prata, mas o que tenho, isso te dou; e tomando-o pela mão «o pôs em pé inteiramente são»: Et protinus consolidatæ sunt bases ejus. Pois se S. Pedro só havia de fazer, como fez, o milagre sem ter parte nele o companheiro, porque não disse também – olha para mim, senão, olha para nós?: Respice in nos ?

A razão fique para outro dia; o exemplo nos serve agora, e é quanto se pode desejar adequado. De sorte que o respice in nos referiu-se a Pedro, e mais a João; mas o milagre não o obraram Pedro e João, senão só Pedro. Pois assim como então o respice in nos se referiu a ambos e o obrador do milagre foi só um, assim no caso presente o vos autem referia-se a todos __ Respiciebat omnes __ e a milagrosa confissão foi só de Pedro. Só de Pedro, sem que o número ou multidão a que foi dirigida a pergunta, impedisse a glória única e singular de quem deu a resposta: e senão, combinemos o vos com o tu e o tibi. O vos autem foi de todos, e o tu só de Pedro: Tu es Petrus; o vos autem de todos, e o dico só de Pedro: dico tibi; o vos autem de todos, e o  dabo só de Pedro: Tibi dabo.

Padre Antonio Vieira,
Sermão de São Pedro

Primeiramente não nego, nem se pode negar que o texto  parece que fala com todos os Discípulos e Apóstolos,  a quem o divino Mestre fazia a pergunta. Mas eu  pergunto também quem foi o que única e singularmente respondeu a ela? Claro está que foi São Pedro: Respondit Petrus. E porque respondeu só ele e nenhum outro? Excelentemente St.° Ambrósio: Cum interrogasset Dominus quid homines de Filio hominis æstimarent, Petrus tacebat: ideo (inquit) non respondeo, quia non interrogor: interrogabor, et ipse quid  sentiam tum demum respondebo, quod meum est. «Enquanto Cristo perguntou o que diziam os homens, Pedro esteve calado sem dizer palavra» __  tacebat; e porque esteve calado Pedro e não respondeu palavra? «Porque aquela pergunta, diz ele, não fala comigo»: Ideo non respondeo, quia non interrogor; «porém quando eu for perguntado, então responderei e direi o que sinto, porque a mim me pertence»: Cum interrogabor, et ipse quid sentiam respondebo, quod meum est. Note-se muito esta última palavra, quod meum est, na qual excluiu o mesmo S. Pedro a todos os outros Apóstolos e confiadamente diz que a resposta daquela altíssima pergunta só era sua e só a ele pertencia. É verdade que a palavra da pergunta: vos autem parece que compreendia a todos; mas a resposta exclui aos demais, como encaminhada a ele por quem sabia o que só Pedro sabia e os demais ignoravam. Em um famoso milagre do mesmo S. Pedro temos um extremado exemplo, com que a extensão do vós autem se limita só a ele. Entretanto S. Pedro com S. João por uma das portas do templo de Jerusalém a orar, estava ali um pobre tolhido dos pés desde seu nascimento, o qual lhes pediu uma esmola; disse-lhe S. Pedro: Respici in nos: «Olha para nós», e respondendo ao que pedia o pobre; __ Eu __ diz __ não tenho ouro, nem  prata, mas o que tenho, isso te dou; e tomando-o pela mão «o pôs em pé inteiramente são»: Et protinus consolidatæ sunt bases ejus. Pois se S. Pedro só havia de fazer, como fez, o milagre sem ter parte nele o companheiro, porque não disse também – olha para mim, senão, olha para nós?: Respice in nos ?

A razão fique para outro dia; o exemplo nos serve agora, e é quanto se pode desejar adequado. De sorte que o respice in nos referiu-se a Pedro, e mais a João; mas o milagre não o obraram Pedro e João, senão só Pedro. Pois assim como então o respice in nos se referiu a ambos e o obrador do milagre foi só um, assim no caso presente o vos autem referia-se a todos __ Respiciebat omnes __ e a milagrosa confissão foi só de Pedro. Só de Pedro, sem que o número ou multidão a que foi dirigida a pergunta, impedisse a glória única e singular de quem deu a resposta: e senão, combinemos o vos com o tu e o tibi. O vos autem foi de todos, e o tu só de Pedro: Tu es Petrus; o vos autem de todos, e o dico só de Pedro: dico tibi; o vos autem de todos, e o  dabo só de Pedro: Tibi dabo.

As “flores de Marcela”

Da série “afogar o mal na abundância do bem”, embora já tenha mais de um ano, merece ser divulgado: “Flores de Marcela”. Documentário sobre a pequena Marcela de Jesus, anencéfala, que faleceu em 2008 após viver mais de um ano e meio.

Parte 1:

Parte 2:

Curtas

“A ousadia da santidade”, pelo Carlos Alberto Di Franco e publicada… no Estadão! “A tese, por exemplo, de que é necessário ouvir os dois lados de uma mesma questão é irrepreensível; não há como discuti-la sem destruir os próprios fundamentos do jornalismo. Só que passou a ser usada para evitar a busca da verdade. A tendência a reduzir o jornalismo a um trabalho de simples transmissão de diversas versões oculta a falácia de que a captação da verdade dos fatos é uma quimera. E não é. O bom jornalismo é a busca apaixonada da verdade. O jornalismo de qualidade, verdadeiro e livre, está profundamente comprometido com a dignidade do ser humano e com uma perspectiva de serviço à sociedade”.

Comunicado da Santa Sé sobre a audiência entre o Papa Bento XVI e o Cardel Schönborn. “A palavra ‘chiacchiericcio’ (fofoca) foi erroneamente interpretada como desrespeitosa às vítimas de abuso sexual, para com as quais o Cardeal Angelo Sodano nutre os mesmos sentimentos de compaixão e de condenação do mal, como expressado em várias ocasiões pelo Santo Padre. A palavra pronunciada durante a saudação de Páscoa ao Papa Bento XVI foi tomada literalmente da homilia pontifical do Domingo de Ramos e se referia à ‘coragem que não se deixa ser intimidada por fofocas de opiniões predominantes'”.

Crônicas Vaticanas: o Papa e a Itália. “Bento XVI e os seus estreitos colaboradores intervêm muito rapidamente em questões italianas, dando mais atenção em relação a outros países do mundo. Isso porque a Itália constitui uma espécie de laboratório para os muitos desafios que a Igreja deve enfrentar: é um país historicamente católico, mas a prática da fé e o seu impacto social estão em decadência. Portanto, a campanha de nova evangelização do Papa só pode começar literalmente do jardim de casa”.

El cardenal Kasper anuncia su partida y traza un balance de su gestión. Em espanhol, mas dá para compreender. “El balance examinó luego las relaciones con las Iglesias y las comunidades eclesiales de la Reforma: ‘Errores o, más bien, imprudencias en el modo de formular la verdad – admitió el cardenal Kasper -, han sido cometidos entre nosotros e incluso de parte nuestra’. Pero en lo que concierne a este diálogo, el cardenal quiso remitirse al texto recientemente publicado por el dicasterio, ‘Harvesting the fruits’, en el que se hace un balance de los resultados y de los acuerdos alcanzados”.

Poesia sobre a morte de Saramago. Destaco: “Proponho assim, por descargo / – Como quem dá a camisa / – Rezarmos por Saramago / Que bem precisa coitado…! / Mãe dos Céus, Oh se precisa”.

– Sobre a Bélgica: “Papa se solidariza com bispos belgas” e “Indignação da Santa Sé pela brutal inspeção ao episcopado belga”. Deste último: “‘Manifestaram que haveria uma inspeção do arcebispado devido a denúncias de abuso sexual no território da arquidiocese’, explica um comunicado assinado pelo porta-voz da Conferência Episcopal da Bélgica, acrescentando que ‘não se deu nenhuma outra explicação, mas todos os documentos e telefones celulares foram confiscados e se manifestou que ninguém poderia deixar o edifício. Este estado, de fato, durou até quase as 19h30′”.

Podcast IV – Direitos da Igreja, apostolado

Com algum tempo de atraso, trago o novo podcast do Deus lo Vult!. Desta vez, falando sobre a expansão da Fé Católica, os direitos da Igreja de pregar o Evangelho e o Apostolado – inclusive e principalmente dos leigos – enquanto direito e dever de todos os membros da Igreja.

O documento citado no áudio pode ser lido aqui: Apostolicam Actuositatem.

[podcast]https://www.deuslovult.org//wp-content/uploads/podcast/podcast-004-apostolado-leigos.mp3[/podcast]

Clique aqui para baixar.

Virgem Maria, desejos de Céu

[Está tão bonita que reproduzo do mesmo jeito que recebi por email. Não tenho muito mais o que acrescentar – que a Virgem Santíssima inspire em todos o desejo do Céu! Sim, que esta Boa Senhora possa nos curar da tibieza, e inflamar as nossas almas de um verdadeiro desejo pela Vida Eterna junto ao Seu Filho.

A frase do título não está na reportagem. Está no discurso de Bento XVI em visita al Centro Don Orione di Monte Mario, anteontem. Que, como disse o Sumo Pontífice “[l]a Madonnina (…) protegga le famiglie, susciti propositi di bene, suggerisca a tutti desideri di cielo”; é também o que eu desejo. “Guardare al cielo, pregare, e poi avanti con coraggio e lavorare. Ave Maria e avanti!” – como dizia San Luigi Orione. Que nos guarde a Virgem Santíssima, Salus Populi Romani, que também nós somos romanos. Da Igreja de Roma. Da Igreja de Cristo.]

Bento XVI: “Que Maria inspire em todos desejos de céu”.

25/06/2010 (1:29)

Papa: “Que Maria, Mãe de Deus e nossa, esteja sempre no alto de seus pensamentos e afetos, amável conforto de suas almas, guia certa de suas vontades e amparo de seus passos, inspiradora persuasiva da imitação de Jesus Cristo”.

Bento XVI visitou na manhã de quinta-feira o Centro Don Orione de Monte Mario e abençoou a imagem de Nossa Senhora, abatida alguns meses atrás pela fúria do vento. Restituída aos olhos e à devoção dos romanos, graças à restauração atenciosa, a efígie – recordou o Pontífice – é “memória de eventos dramáticos e providenciais, escritos na história e na consciência da Cidade”. A imagem, de fato, “foi colocada na colina de Monte Mario em 1953, como realização de um voto popular pronunciado durante a II Guerra Mundial, quando as hostilidades e as armas faziam temer pelo futuro de Roma”. Uma iniciativa que partiu dos orionitas, que justamente no alto da colina realizaram um centro de “acolhimento de mutilados e de órfãos”. “Don Orione – precisou o Papa – viveu de maneira lúcida e apaixonada a tarefa da Igreja de viver o amor para fazer entrar no mundo a luz de Deus”, “convencido de que a caridade abre os olhos à fé”. “As obras de caridade – concluiu Bento XVI – jamais podem reduzir-se a gesto filantrópico, mas devem permanecer sempre tangíveis expressão do amor providencial de Deus”.

Fonte: H20News

Votar no PT: filtrar um mosquito, engolir um camelo

Já que as eleições de outubro estão se aproximando e alguns comentários sobre o voto no PT surgiram recentemente em um post antigo do Deus lo Vult!, gostaria de aggiornar esta discussão. Confesso que me sinto frustrado quando alguém vem me dizer que é perfeitamente possível votar no Partido dos Trabalhadores e permanecer bom católico mesmo assim. Sinto muito, não é.

O bom católico não vota em partido abortista, porque sabe que a vida humana é o mais sagrado de todos os bens e, por isso, deve ser protegido antes de qualquer outra coisa. O bom católico sabe, como disse Madre Teresa de Calcutá, que o maior inimigo da paz é o aborto; porque, se dissermos às mães que elas podem matar os próprios filhos, não poderemos dizer às pessoas que elas não se matem umas às outras.

O bom católico não vota em partido gayzista, porque sabe que os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados e não podem, em hipótese alguma, ser aprovados. O bom católico sabe que a família deve ser protegida e que existe, em curso no Brasil e no mundo, um movimento para amordaçar os valores tradicionais judaico-cristãos e impôr a depravação como única norma aceitável de comportamento social.

O bom católico não vota em partido socialista, porque sabe que o socialismo é intrinsecamente perverso e ninguém pode ser, ao mesmo tempo, bom católico e verdadeiro socialista. O bom católico sabe que existe atualmente, na América Latina, um movimento esquerdista revolucionário que tenciona recuperar aqui o que foi perdido no leste europeu, e sabe que não pode, de nenhuma maneira, colaborar com esta revolução.

Ora, o PT defende descaradamente o aborto, tendo já inclusive punido dois de seus deputados que ousaram – destoando da orientação partidária – defender a vida humana. Ora, o PT é um partido socialista, tendo sido o fundador do Foro de São Paulo, do qual fazem parte inclusive grupos terroristas e de guerrilha (como as FARCs e o MIR chileno). A conclusão é inevitável: o bom católico, que deseja permanecer bom católico, não pode dar o seu apoio a este partido que, em tantos e tão importantes pontos, adota posições frontalmente contrárias àquelas defendidas pela Igreja.

Nada, portanto, justifica o voto no PT. Não adianta sair “pinçando” as coisas boas que porventura existam na gestão petista. Obviamente elas existem, porque quem quiser simplesmente encontrar coisas boas fazendo vistas grossas ao resto pode defender até mesmo o voto no Nazismo alemão – p.ex., louvando o avanço da medicina alemã sob Mengele. O PT afasta-se tanto e em tantos aspectos da Igreja que merece, sim, inclusive ser classificado como um partido anti-católico. E estas coisas são muito graves e importantes para não serem levadas em consideração na hora de dar o próprio voto: um bom católico não filtra um mosquito para engolir um camelo.

Ecoterrorismo; aborto no corpo docente da PUC-SP

São dois assuntos distintos.

1. “A Frente de Libertação da Terra (FLT), assumiu um ataque incendiário contra oito veículos Land Rover de uma concessionária que comercializa o modelo em São Paulo”. Os sujeitos são ecologistas que, por algum motivo absurdo, acham que queimar carros é uma boa maneira de salvar o planeta. Segundo o comunicado por eles emitido (mesmo link acima):

O alvo foi escolhido pelo simples fato da Land Rover ser uma das marcas líderes na construção, venda e incentivo à compra e utilização de SUV’s. Automóveis altamente poluentes e danosos ao meio-ambiente.

A efetivação do ato se deu através de coquetéis molotovs lançados em direção aos carros, uma maneira simples, barata e eficiente de destruição. O gasto com o material foi de 10 reais, aproximadamente.

Nós não ficaremos parados assistindo a destruição do planeta e suas espécies de braços cruzados. Da mesma maneira que esses carros queimaram, outros carros, casas, caminhões e estabelecimentos que/de quem danificam e exploram a terra e os animais, também queimarão.

Já está mais do que na hora dos pilares de nossa civilização virem abaixo. Esta ação foi feita em nome de todos que foram presos em nome da libertação total.

Nós estamos com vocês!

Interessante notar que o “politicamente correto” está mostrando as suas garras e deixando cair a máscara que escondia a intolerância e o fanatismo. Cabe perguntar: quem são os fanáticos intolerantes mesmo?

2. “Aborto: “carnificina”, desigualdade e as eleições”. O texto é da pena do senhor “Leonardo Sakamoto[, que] é jornalista e doutor em Ciência Política (…) e, hoje, ministra aulas na pós-graduação da PUC-SP”, conforme se pode ler no seu blog. Depois das críticas ao José Serra por conta da (segundo o Sakamoto) posição contrária ao aborto do candidato tucano, o professor da PUC dispara a pérola nua e crua: “[a] discussão não é quando começa a vida, mas as mulheres que estão morrendo nesse processo”.

Ou seja, pouco importa que crianças inocentes estejam sendo assassinadas – a única preocupação é quanto às mulheres que, porventura, morrem durante o ato homicida. Se elas puderem assassinar os próprios filhos em segurança, está tudo muito bem. Analogamente, então, qualquer um poderia advogar pelo “descriminalização do furto” argumentando que a discussão não é sobre o direito à propriedade, mas sobre os ladrões que estão morrendo quando tentam assaltar em condições precárias. Quem acha que isto é um absurdo irracional, deve achar o mesmo em relação ao “argumento” do Sakamoto acima reproduzido.

E ainda:

Se o candidato não quisesse defender publicamente o direito da mulher ao seu próprio corpo, defendesse a questão como saúde pública.

Nem saúde pública, nem direito ao próprio corpo. O aborto deve ser entendido como aquilo que é: o assassinato direto de um ser humano inocente. E, como tal, deve ser encarado. Porque é fora de discussão que o direito à vida tenha precedência sobre o (inventado) “direito ao próprio corpo” ou o (falsificado) “problema de saúde pública”.

“Direito & Saúde: o caso de Alagoinha”

Em março passado, completou-se um ano do assassinato dos gêmeos de Alagoinha. Na época, o IPAS lançou um documentário sobre o caso, que foi comentado pelo William Murat. Agora, há uma semana, o documentário completo (30 min.) foi disponibilizado para ser assistido na internet.

Foi a primeira vez que vi “Direito & Saúde: o caso de Alagoinha”. Nada de inesperado: as mentiras de sempre (como, p.ex., que o aborto inseguro é uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil), o apelo emocional (com algumas cenas e entrevistas na cidade natal da menor duplamente agredida), a cantilena “o-estado-é-laico-e-mimimi” perpassando o documentário de uma ponta a outra. Ninguém lembra que a laicidade do Estado implica também, por definição, que ele não pode privilegiar a fé dos ateus em detrimento da Fé dos católicos. E ninguém lembra que o assassinato de inocentes não é uma questão religiosa. No final, o documentário é mais um exemplo do modus operandi abortista: mente, distorce alguns fatos quando é conveniente e ignora outros quando são desagradáveis, e faz a caveira da Igreja Católica, pintando-a como a grande vilã da história. Nada de novo.

Mas duas coisas interessantes. Primeiro, a declaração de um médico aos 10m18s. In verbis: “Então a gente não sabe realmente (…) Ela [a menina de Alagoinha] teria um risco muito aumentado de pré-eclâmpsia, de parto prematuro, ruptura prematura das bolsas, hemorragia pós-parto ou de ruptura interina mas, eu não sei dizer qual é o risco. Eu sei que é muito maior; eu não sei se é 1%, 2%, 3%, não sei; mas que é muito maior do que a população geral, isso era”. Então, o artigo do Código Penal que não pune o aborto quando “não existe outra maneira de salvar a vida da gestante” foi evocado para assassinar duas crianças porque a mãe teria (atenção ao tempo verbal) um certo risco (de magnitude desconhecida) de sofrer algumas complicações no decorrer da gravidez? O fato é que, no momento do aborto, ela não tinha nada! “Aborto preventivo” agora também é “legal” no Brasil?

E, segundo, a narrativa do seqüestro da garota. A partir dos 11 min. “Nós fomos ao hospital [IMIP] (…) a direção do hospital estava sendo pressionada”. “Fomos, Curumim, SOS Corpo, (…) a secretária de políticas (…) e uma secretária adjunta dela, fomos (…) conversar com a diretoria médica do IMIP”. “Ligávamos para os promotores (…) [perguntando] aonde nós podemos atuar (…) para garantir que a lei seja cumprida?”; “Nós estamos falando de lei, e eu acho que o Brasil sendo um país laico (…)”; “contactamos outro serviço de atendimento ao aborto legal, perguntamos se eles receberiam a garota”. “Conversamos com a mãe dela, explicamos a situação (…) colocamos para ela todas as possibilidades que ela tinha para que ela tomasse uma decisão”. “Ali mesmo ela assinou o pedido de alta. (…) E a gente fez uma operação de guerra, pegamos as coisas da menina, botamos dentro das sacolas, uma sai com a menina, a outra sai com a mãe, a outra sai duas para disfarçar, e o carro vem pegar de um lado, vem pegar do outro”. “Ela chegou [no CISAM] num carro preto, com vidro fumê”. “Começou o tumulto, a imprensa, já tinha gente aí de todo o lugar (…) eu fui lá, e a gente tratou de isolá-la na enfermaria”.

Lamentável. No documentário, também uma médica residente “contra” o aborto, as declarações de Lula e de Temporão, e muitas outras besteiras que nem vale a pena comentar. Enquanto isso, padrasto engravida menina de 12 anos no interior de Pernambuco. Na semana passada. A gestação já está em seis meses e, por isso, provavelmente, a menina estará livre do lobby abortista (contextualizando: aqui)…

A resistência, o Leão de Campos e a Sé de Pedro

Dom Antonio de Castro Mayer sempre me pareceu mais sensato e equilibrado do que Dom Marcel Lefebvre, a despeito de ambos quase sempre serem citados juntos na “resistência” ao Vaticano II – e também na excomunhão… Ontem, eu e mais dois amigos conversávamos sobre o assunto, julgando interessantes alguns aspectos da vida e do ministério episcopal do Leão de Campos.

Por exemplo, Dom Mayer não proibiu jamais nenhum dos seus padres de celebrar o Novus Ordo Missae. Apesar dele próprio ter sempre utilizado o missal de S. Pio V, em sua diocese nenhum padre foi impedido de adotar (caso desejasse) a Reforma Litúrgica. Cada padre de Campos recebeu uma cópia do Missal de Paulo VI quando ele foi promulgado, junto com uma nota diocesana avisando que, em Campos, manter-se-ia a viva a Liturgia tradicional, apesar de cada sacerdote ser livre para optar por uma ou outra forma de oferecer o Santo Sacrifício.

Mais: Dom Antonio nomeou párocos que celebravam o Novus Ordo. Ou seja, em Campos, havia paróquias onde as missas eram celebradas segundo a Reforma Litúrgica, e isso sem nenhuma perseguição do então bispo diocesano (ao contrário do que aconteceu no resto do Brasil – e mesmo em Campos, depois – em contrapartida, quando os bispos perseguiam quem ousasse continuar celebrando segundo as antigas rubricas). Em Campos, apesar dos problemas de consciência de Dom Antonio, as duas formas do Rito Romano coexistiram. Fico imaginando se a nossa situação atual não seria incomparavelmente melhor caso exemplos assim houvessem perdurado e se multiplicado… afinal, na prática, o que fez Dom Mayer foi uma aplicação diocesana (com mais de três décadas de antecedência) do que estabelece o Summorum Pontificum para toda a Igreja. O Missal de Paulo VI e o de São Pio V lado-a-lado. Com uma liberdade muito maior para este último – é evidente – do que se pode encontrar hoje, mas sem nenhuma perseguição de nenhum dos lados.

E Dom Mayer não foi jamais perseguido por causa disso. Não foi suspenso de ordens (ao contrário do prelado francês), não foi afastado, não recebeu censura alguma da Santa Sé. Um ano antes da sua renúncia em 1981, em visita ad limina apostolorum (junto com o então pe. Rifan, a propósito), encontrou-se com João Paulo II e, em Roma, tudo transcorreu em clima da mais completa normalidade. Apresentou ao Vigário de Cristo a situação da sua diocese, falaram sobre os assuntos pertinentes à visita, e a situação litúrgica em Campos não foi colocada em questão. Até se tornar bispo emérito, no início dos anos oitenta, Sua Excelência manteve-se em fiel espírito de submissão e respeito à Sé de Pedro. O que aconteceu depois disso foi mais complicado; mas, até João Paulo II aceitar a renúncia do bispo de Campos em 1981, Dom Mayer – ao que parece – serviu plenamente à Igreja de Cristo, como se espera que faça um Sucessor dos Apóstolos. Algumas pessoas, muitas vezes, “esquecem-se” disso, e querem ver no bispo de Campos somente o superior da União Sacerdotal São João Maria Vianney.

Sobre o mesmo assunto, ler também: Carta de D. Mayer ao Papa Paulo VI. Vejam-se as palavras, o tom, o objetivo. Destaco:

Cumpro, assim, um imperioso dever de consciência, suplicando, humilde e respeitosamente, a Vossa Santidade, se digne, por um ato positivo que elimine qualquer dúvida, autorizar-nos a continuar no uso do “Ordo Missae” de S. Pio V, cuja eficácia na dilatação da Santa Igreja, e no afervoramento de sacerdotes e fiéis, é lembrada, com tanta unção, por Vossa Santidade.

Ao que me consta, infelizmente esta carta não obteve nunca resposta…

Que assim seja!

Leio em ZENIT que Dom Fernando Saburido vai receber o pálio no próximo dia 29 de junho. A mesma notícia recorda que a peça de lã branca é “símbolo da união com o sucessor de Pedro”. Que assim seja! Oremus pro Antistite nostro Ferdinando – stet et pascat in fortitudine tua, Domine, in sublimitate nominis tui.

Leio também que o Papa Bento XVI, em discurso aos bispos do Regional Leste II da CNBB, disse recentemente que os bispos têm “a missão de ensinar com audácia a verdade que se deve crer e viver, apresentando-a de forma autêntica”, e também que eles devem “procurar que a liturgia seja verdadeiramente uma epifania do mistério, isto é, expressão da natureza genuína da Igreja, que ativamente presta culto a Deus por Cristo no Espírito Santo”; pois “[d]e todos os deveres do (…) ministério [episcopal], «o mais imperioso e importante é a responsabilidade pela celebração da Eucaristia»”. Que assim seja! Não só para a “Regional Leste II”, mas para todo o Brasil.

E, por fim, leio com alegria o Santo Padre lembrar que, para ser cristão, é necessário tomar a sua cruz. “Tomar sua cruz significa empenhar-se em vencer o pecado que obstaculiza o caminho em direção a Deus, acolher diariamente a vontade do Senhor, intensificar sua fé especialmente diante dos problemas, das dificuldades, do sofrimento”. Que assim seja! Para todos nós, ad majorem Dei Gloriam.