Considerações sobre o STF e o julgamento das CTEHs

Friday, May 30, 2008 1:17 | Filled in Ética & Moral

“Supremo libera pesquisas com células-tronco embrionárias”, diz o G1. “STF aprova pesquisas com células-tronco embrionárias”, é a manchete da Folha online. “Supremo autoriza pesquisas com células-tronco embrionárias”, noticia o Estadão. “STF autoriza pesquisas com células-tronco embrionárias”, anuncia o Jornal do Commercio daqui da terrinha. É impressionante o tom monocórdico da cantilena!

As manchetes poderiam ser diferentes. “Aberto importante precedente para a legalização do aborto”. “Embriões humanos não são sujeitos de direitos”. “Vida não merece proteção desde a concepção”. “Embrião pode morrer”. Qualquer coisa que expusesse, de maneira clara e sem floreios, a verdade nua e crua da decisão do Supremo Tribunal Federal, que deveria cobrir de vergonha toda esta nação.

Foram dois dias de votação, dois dias de orações e de esperanças, dois dias de expectativas e de angústias. Está consumado. Aquela que se intitula Suprema Justiça condenou os inocentes à morte. A votação teve o placar de 6 x 5, que é o que consta no site do Supremo Tribunal Federal.

O resultado é desastroso sob todos os aspectos. Em primeiro lugar, porque o simples fato de tal pergunta - se o Estado deve proteger os inocentes - ter sido formulada revela a mais completa confusão na qual se encontra o povo brasileiro em geral e os Ministros do Supremo em particular. É preocupantemente sintomático que as pessoas não saibam diferenciar as discussões que são válidas daquelas que são intrinsecamente nonsense. É óbvio que o Estado deve proteger os inocentes, e o óbvio não pode sequer ser discutido. Eis o primeiro passo em direção ao abismo.

Em segundo lugar: o próprio fato de tal pergunta ter sido levada a julgamento revela mais um grau da escala de sandice que acomete os brasileiros, porque, se já é preocupante a concessão de se debater a pergunta nonsense, a noção que se encontra adjacente ao julgamento é ainda mais diabólica: não só é permitido discutir o óbvio, como o Estado tem o poder de dizer e fazer o contrário do óbvio. Ora, uma coisa - que já é bastante séria - é fazer uma, digamos, discussão acadêmica sobre se é permitido ao Estado matar nordestinos; outra coisa muitíssimo mais séria é o Supremo Tribunal reunir-se para deliberar e aprovar a carnificina no Nordeste Brasileiro. Não satisfeito em conceder que a proteção à vida humana é passível de discussão, o país concedeu também que competia ao Supremo Tribunal Federal deliberar sobre a manutenção ou retirada desta proteção. O segundo passo é dado. O abismo já se abre monstruoso diante dos pés.

E, no final, a queda: o poder da deliberação absurda sobre a discussão nonsense foi concedido não a uma nobre casta de probos e ilibados baluartes das virtudes, não a uma elite intelectual e moral que fosse digna deste nome, mas a um bando de malucos, com surtos de megalomania, notoriamente preconceituosos, volúveis, irresponsáveis e levianos. É isso o que se infere dos votos dos ministros - à exceção (honrosa) dos ministros Direito e Lewandowski. Não encontrei na internet a íntegra dos discursos, mas os excertos a seguir foram tirados do “ao vivo” do G1.

“Nossa religião, aqui dentro, é o direito” - é a afirmação esdrúxula da sra. Carmen Lúcia. A “combinação do caráter laico do Estado e o princípio da liberdade individual ditam que ninguém pode interferir caso os pais desejem dar esse destino aos embriões congelados que carregam seu material genético”, é a besteira monumental defendida pelo sr. Joaquim Barbosa. O sr. Marco Mello “passou por Santo Agostinho e até pelo livro bíblico do Êxodo, no qual a morte de um feto é citada como uma ofensa menor do que um assassinato”. Já o sr. Celso de Mello “começa frisando o caráter “secular e laico” do Estado brasileiro e louvando os votos dos ministros do STF que o precederam”, e diz ainda que “a religião é uma questão de ordem estritamente privada”.

É preciso ser cego para não ver o preconceito contra a Igreja Católica, o ranço anti-clerical dessa gente; principalmente pelo fato de que não há argumentos religiosos no discurso pró-vida! Os votos dos ministros estão, portanto, enviesados por puro preconceito: já que a Igreja Católica tem uma determinada posição, eles simplesmente votam na posição contrária. E, talvez por ato falho, revelam-no claramente, quando destilam o seu ranço contra a Igreja em situações onde Ela não está presente. A obsessão pelo “Estado Laico” está de tal maneira arraigada nas cabeças dos senhores ministros que a preocupação principal é não seguir a opinião da Igreja - opinião não-religiosa, é sempre bom frisar - porque, caso ela seja seguida, será uma ingerência religiosa obscurantista nos assuntos que competem ao Estado e um retorno à Idade das Trevas medieval! Isso não está dito de modo explícito, mas está tão claramente expresso nas entrelinhas do discurso ofensivo à Igreja que é impossível passar despercebido. Não haveria necessidade de se ser anti-clerical e nem mesmo de se afirmar com tanta ênfase a “iurelatria” e a proscrição de Deus das salas do STJ, se não estivessem os votos já enviesados pelo preconceito prévio contra a Igreja e as cartas já marcadas de antemão. Nenhum ministro quer a “pecha” de ser “ligado à Igreja”, de ser “conservador”, “obscurantista”, de pertencer a esta “Instituição Retrógrada”. É vergonhoso, é ridículo, mas é verdade, infelizmente.

Esta é a primeira farsa da vitória de Satanás. Mas tem uma outra trapaça que, de tão gritante, merece ser citada: todo o arrazoado dos senhores ministros foi baseado sobre uma versão falseada do problema, segundo a qual os embriões, se não fossem utilizados em pesquisas científicas, seriam “jogados no lixo”. Como, “jogados no lixo”? E a possibilidade dos genitores os procurarem? E a possibilidade de adoção? E a possibilidade de se manterem os embriões congelados, simplesmente, enquanto não se lhes arranja um útero onde eles possam se desenvolver? É uma grosseira mentira que a única alternativa possível à experimentação científica seja o descarte. E, num ambiente de indiscutível alta erudição como o é o Supremo, como se justifica que uma burla grosseira dessas possa ter passado incólume? Quanta leviandade! O Supremo Tribunal Federal parece ser a Casa da Mãe Joana, onde cada um faz o que quer, e onde nenhuma seriedade é exigida.

E os deuses da Suprema Justiça - a brasileira, que não faz jus ao nome que leva -, onipotentes do alto do seu poder de voto, viraram as costas a Cristo e prostraram-se diante de Satanás em adoração. O sangue dos inocentes irá manchar a terra desta Terra de Santa Cruz. A maior nação católica acaba de cerrar fileiras com os inimigos da Igreja. Tenha Deus misericóridia de nós todos.

E existe, por fim, mais um aspecto diabólico, malignamente perverso, desta palhaçada toda, que precisa ser exposto, ao menos, para se tentar fazer um desagravo. Noticiou o G1:

O aposentado Pedro Freire, de 60 anos, assistiu ao julgamento ao lado do neto, João Victor Freire Xavier, de 9 anos, que tem distrofia muscular. Segundo ele, o menino sempre acompanhou pela TV os debates sobre o tema. “Ele nos cobra muito, pergunta quando o remédio vai sair”, comentou.

Nós estamos falando de uma criança doente, que está sendo covardemente usada, alimentada com falsas expectativas e vãs esperanças, manipulada pelo lobby dos que querem movimentar a opinião pública por vias sentimentalistas para a aprovação da destruição de embriões humanos. Ele tem nove anos, e já pergunta quando vão sair os remédios. Quem é que vai se preocupar em dizer ao menino, dia após dia, mês após mês, ano após ano, que ele espere a panacéia universal que vai ser descoberta “logo amanhã”?

Que a Virgem Maria, Refúgio dos Pecadores e Espelho da Justiça, possa olhar com misericórdia para este menino e para todo o povo brasileiro. E que Ela possa, com toda a corte celeste, ser em favor dos mais novos excluídos e desprotegidos do beneplácito da Nação Brasileira, aqueles que são tão pobres que têm bem menos do que a roupa do corpo, pois nem mesmo têm o corpo já formado; aqueles que nem ainda nasceram, e já são órfãos; aqueles a quem não foi dado um lar, num útero materno, onde eles pudessem crescer; aqueles que não podem alimentar-se sozinhos e que não são alimentados, e que passam fome e frio, muito frio, na solidão das câmaras criogênicas.

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13 Comments to Considerações sobre o STF e o julgamento das CTEHs

  1. Wagner Moura says:

    May 30th, 2008 at 2:02 am

    Jorge, incrivelmente são os anticatólicos os que mais usam de argumentos que citam a religião! Um grande deboche.
    Parecia que não estavam nem aí para qualquer argumento… Importava cumprir uma agenda. Só pode ter sido isso! Não vejo outra justificativa para afirmações insistentes sobre, como você diz bem, “uma grosseira mentira” a respeito do descarte como única alternativa. Bom, seus comentários são longos e proveitosos! Quase consigo ver suas mãos reforçando cada palavra indignada.

  2. Pacheco says:

    May 30th, 2008 at 10:02 am

    Juelho,

    suas palavras conseguem expressar de forma extraordinária a nossa indignação pelas mentiras deslavadas que nos são enfiadas goela abaixo, e pela grave injustiça emanada da Suprema Corte brasileira.

    Que a Virgem Santíssima receba em suas suaves mãos os inocentes que serão assassinados em prol de um pretenso desenvolvimento científico.

    Rogai por nós, Santa Mãe de Deus!

  3. gabriel says:

    May 30th, 2008 at 10:08 am

    “A maior nação católica acaba de cerrar fileiras com os inimigos da Igreja.”

    não concordo com essa frase… podemos ser a nação com maior percentual de católicos mas não somos (infelizmente) uma nação católica. Prova disso são os projetos absurdos, o descaso com os mais fracos, a corrupção desmedida, o “estado laico” (que no nosso caso deveria ser chamado de “estado ateu”) e essa infeliz decisão do STF…

  4. Jorge Ferraz says:

    May 30th, 2008 at 10:22 am

    Gabriel,

    Você tem toda razão. A despeito do catolicismo ser a religião majoritária do povo brasileiro, existe um abismo ideológico entre o povo e os seus [supostos] representantes.

    Utilizei, no meu post, a palavra “Nação” no sentido de “povo”, e não no de “Estado”*. O povo brasileiro é católico; e o católico médio é um bom católico, que faz o que pode com a inanição doutrinária à qual é submetido.

    Rezemos para que o nosso país possa ter, um dia, representantes que realmente representem os interesses do povo brasileiro.

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz

    *Caso interesse:
    Estado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado
    Nação: http://pt.wikipedia.org/wiki/Na%C3%A7%C3%A3o

  5. Evelyn says:

    May 30th, 2008 at 11:16 am

    Você escreveu tudo o que gostaria de dizer.

    De fato, hoje é um dia de luto.

    Quando saiu o resultado, infelizmente eu esperava que pudéssemos perder, já que nossa nação e nosso povo está tão descristianizado… Nosso povo está longe de Cristo, fazendo tudo ao contrário do que Ele mandou. E tudo por quê? Por causa de três malditas coisas que mata e perde o homem: o Ser, o Ter e o Poder.

    Fico pensando como será para estes o peso do braço do Senhor.

    Rezemos para não nos perdermos.

  6. Christiano says:

    May 30th, 2008 at 1:50 pm

    parabéns pelo artigo!

    Confesso que não tive estômago para acompanhar os votos de alguns ministros, tão imbecis eram as argumentações, tão revoltantemente “desinformados” sobre tudo eles pareciam, a ponto de se mostrarem verdadeiras bestas até para um leigo quase iletrado como eu.

    Por outro lado tive o prazer de conseguir acompanhar um pequeno trecho do voto do Sr. Lewandowski, justamente sobre epistemologia da ciência, excelente, escancarou a demência da ministra anterior que cantou as maravilhas do progresso dessa “deusa”.

    Desculpe as palavras um pouco inflamadas, mas acho que esse é o sentimento geral diante da súbita queda do coeficiente intelectual dos srs. ministros, que culminou nessa desgraça para o povo brasileiro.

    Lutemos, lutemos e que Deus nos ajude!

  7. André Luís Brandão says:

    June 3rd, 2008 at 2:38 pm

    Para a pior asneira dos dias de votação foi ouvir o ministro Eros Grau citar São Tomas de Aquino para justificar o seu voto em favor do “mal menor”.

  8. STF - A grande farsa continua « Deus lo vult! says:

    August 27th, 2008 at 2:44 pm

    [...] 27, 2008 de Jorge Ferraz Após o escandaloso jogo de cartas marcadas de três meses atrás, o Supremo Tribunal Federal deu início ontem a mais uma farsa grotesca na qual a vítima é a vida [...]

  9. Palhaçada anunciada « Deus lo vult! says:

    August 30th, 2008 at 3:27 pm

    [...] questão sob uma pilha de argumentos anti-religiosos e anti-clericais, da exata mesma maneira que foi feito no caso das células-tronco embrionárias, dêem prosseguimento ao processo de desconstrução da civilização aumentando o rol de crimes [...]

  10. Deus lo Vult! » O rei está nu says:

    April 28th, 2009 at 11:44 am

    [...] porque não estava acompanhando as notícias e em parte porque nunca levei o Supremo a sério [já disse inclusive aqui há alguns meses, por ocasião da aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias, que ele "parece ser a [...]

  11. Alexandre Magno says:

    April 28th, 2009 at 2:53 pm

    Blog Deus lo Vult!: “todo o arrazoado dos senhores ministros foi baseado sobre uma versão falseada do problema, segundo a qual os embriões, se não fossem utilizados em pesquisas científicas, seriam ‘jogados no lixo’”

    Não, o buraco é mais embaixo!

    Todo o arrozoado dos senhores ministros foi baseado sobre uma versão falseada do problema, segundo a qual “são legítimos aqueles processos artificiais que geram essa ‘problemática do congelamento de embriões’”.

    Aqueles embriões não deviam estar ali, congelados! Eles estão, eles existem daquela forma, porque a Verdade foi deixada de lado…

  12. Deus lo Vult! » Vendendo esperanças says:

    April 28th, 2009 at 3:34 pm

    [...] Há quase um ano, escrevi aqui o seguinte sobre um menino de nove anos de idade, doente, e que, por ocasião do julgamento sobre as pesquisas com células-tronco embrionárias pelo STF, acompanhava tudo com bastante ansiedade: [...]

  13. Deus lo Vult! » A interina e o aborto dos anencéfalos says:

    July 7th, 2009 at 4:06 pm

    [...] (p. 11). A ADIn 3510 é a das pesquisas com células-tronco embrionárias. Também comentei aqui esta vergonhosa decisão do STF. Sugeri então que as manchetes dos jornais poderiam ter sido “Aberto importante precedente [...]

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