Tradição, tradições e conservadorismo – por Carlos Ramalhete

closeAtenção, este artigo foi publicado 5 anos 4 meses 26 dias atrás.

[Excelente intervenção do Carlos Ramalhete em um papo privado sobre Tradição Católica, tradições cristãs e conservadorismo. Publico na íntegra a resposta dele, que delineia bem o papel que nos compete – a todos nós! – diante do mundo moderno, na situação em que nós o encontramos.]

O fato de haver uma diferença entre a Tradição – que é fundamentalmente doutrinal – e tradições – aplicações provadas pelo tempo desta Tradição ao mundo, dela dependentes e a ela apontando – não faz com que nem se justifique um minimalismo doutrinal que as tornaria irrelevantes nem, muito menos, com que se possa acusar todo conservadorismo de confusão entre aquela e estas.

Num momento como este em que vivemos, em que os poderosos tentam criar uma sociedade nova a golpes de leis e novelas, o conservadorismo nada mais é que o reconhecimento de que “qualquer evolução dos costumes e qualquer gênero de vida devem ser sempre mantidos dentro dos limites impostos pelos princípios imutáveis fundados nos elementos constitutivos e nas relações essenciais de cada pessoa humana, elementos e relações que transcendem as contingências históricas” (Dz-H 4580; é Paulo VI, nada de rad-tradismo…). A palavra chave é “mantidos”, que poderia ser traduzida também como “conservados”. Conservadorismo é isso. Como há, sim, uma enorme riqueza cultural de que somos, ou deveríamos ser, herdeiros, espelhando e expressando de várias formas o possível e o impossível nesta conservação de limites, preservá-la é sim dever nosso.

Como filhos fiéis da Igreja, o nosso dever é procurar *conservar*, sim, o que resta da civilização cristã, até para que no futuro mais ou menos próximo possa se erigir uma *outra* civilização cristã. Não se trata, como é evidente e eu não me canso de repetir (quer dizer, canso, sim: confesso que torra a paciência ter que dizer sempre a mesma coisa…), de voltar a qualquer passado tido como utópico, mas de procurar manter a sociedade “dentro dos limites impostos pelos princípios imutáveis”.

Isso quer dizer, na prática, que, como já ocorreu 1600 anos atrás, é função da Igreja (e nós somos Igreja, assim como o clero e os seminaristas de cuja formação se está falando) *conservar* o imenso tesouro de sabedoria humana, já depurado pelo confronto com a Revelação, que compõe o currículo de humanidades clássicas que eu mencionei ser importante. Quer dizer *conservar* o valor da vida humana, o valor da mulher (cada vez mais reduzida a ou um pseudo-homem ou a uma máquina de prazer sexual), o valor da hierarquia, o valor do respeito à sabedoria dos idosos, etc. E conservar Cícero, Dante, Ortega. E, por que não, mesmo que como exemplo negativo, Rawls, Marx ou Rand?

Isso não quer dizer que seja um herege quem não aprecia o valor de Dante ou de Cícero. Quer dizer apenas que é um idiota. E já há idiotas o bastante nas telas de tevê, para que se os queira também nos presbitérios.

No meu apostolado, eu não chego ao ponto de assistir TV, embora até leia sobre o que está passando nela; falta-me paciência. No meu trato com catecúmenos e com o público em geral, procuro apresentar como novidade, em geral apoiando-me unicamente na razão, as obviedades que só o são por terem já chegado a esta situação pela sua repetição ao longo dos séculos; é sabedoria humana, sim, mas é sabedoria, e sabedoria burilada pela Igreja ao longo dos séculos. E ela tem que ser, sim, conservada, ou estaremos como o muçulmano que manda queimar a biblioteca de Alexandria por que ou repete o Corão é assim desnecessária, ou o nega e é assim blasfema.

Cada geração de jovens pode aprender de novo, e precisa aprender de novo, descobrir de novo aquilo que é sua herança. Cada uma. Ano passado um aluninho de filosofia de seus 15 anos de idade veio, sério como só um rapaz desta idade pode ser, me dizer que resolvera tornar-se um estóico. Ótimo. Melhor estóico que fã do BBB ou fanqueiro. Isso quer dizer que o contato com o estoicismo é necessário para sua salvação? Não, mas pode perfeitamente bem ser instrumental. A chance de o ser é muito maior que a do contato com Tati Quebra-Barraco. Ou, pior ainda, de achar que “descobriu” alguma coisa ao abandonar-se aos mais baixos instintos, como sói ocorrer com quem não percebe que não é o primeiro ser humano a sentir atração sexual. O estoicismo, tal como nos chegou após depurado pela Igreja ao longo dos séculos – nas palavras de Padre Antônio Vieira, “um estóico é como um cristão de antes de Cristo” – é uma semente do Verbo, algo que abre para a graça.

Já temos problemas demais com idiotas que, por falta desta mesma cultura clássica que estou defendendo, confundem pudor com a moda de 1950. Não precisamos de uma reação igualmente inane, que se arrepia ao ouvir falar de conservadorismo por achar que há perigo de confusão entre Tradição e tradições, como se tanto estas quanto aquela não fossem, hoje, animais em risco de extinção.

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2 thoughts on “Tradição, tradições e conservadorismo – por Carlos Ramalhete

  1. Alexandre Magno

    Resumo o finalzinho, que mais me interessou.

    Quem não aprecia o valor de Dante ou de Cícero não necessariamente é um herege, mas um idiota. É bom que esses fiquem longe dos presbitérios. A propósito, é melhor ser estóico do que fã do BBB ou fanqueiro. Nas palavras de Padre Antônio Vieira, “um estóico é como um cristão de antes de Cristo“. Alguns idiotas, por falta dessa cultura clássica que o professor defende, confundem pudor com a moda de 1950.

    Despertou meu interesse por saber mais sobre estoicismo. Algumas páginas a partir das quais vou tornar a investigar o assunto, quando puder:

     – Estoicismo (Wikipédia)
     – O Período Ético (Mundo dos Filósofos)
     – Estoicismo: Indiferença, renúncia e apatia estóica (UOL Educação)
     – O estoicismo (blog perspectivas)
     – Estoicismo (Ana Palmira Bittencourt Santos Casimiro)
     
    Não é que eu esteja aprovando ou desaprovando esses sites. Apenas me pareceram interessantes, à primira vista.

    Chamou minha atenção a definição do dicionário online de português:

    s.m. Doutrina que se desenvolveu entre o séc. IV a.C. e o séc. IV d.C. Originou-se na Grécia e, depois, propagou-se por Roma. Os estóicos acreditavam que cada homem possui em si próprio a razão, que o liga a todos os outros homens e à Razão (Deus), que governa o universo. Esta crença forneceu uma base teórica para o cosmopolitismo. Esta idéia também estimulou a crença numa lei natural que se encontra acima da lei civil e estipulam critério segundo o qual as leis humanas podem ser julgadas.

  2. Leandro Salvagnane Correia

    Jorge, me ajude, deixe-me ver se entendi…
    O autor se diz conservador e dá alfinetadas nos católicos que são rotulados como tradicionalistas, diferenciando “Tradição” de “tradições”, e diz que a diferença entre eles é que os conservadores se conformam com o Modernismo até certo ponto, enquanto os tradicionalistas o repudiam completamente. É isso?
    E ainda chama de idiotas aqueles que, como o Papa Pio XII, acham que a moda atual é imodesta?