A tolerância e a dose de whisky

closeAtenção, este artigo foi publicado 4 anos 6 meses 13 dias atrás.

Fala-se muito em tolerância nos dias de hoje, mas de uma maneira completamente equivocada. Para alguns, a tolerância radica-se na incapacidade de emitir juízos de valor sobre coisas que – dizem – pertencem à esfera subjetiva; para outros, pior ainda, tolerância significa apoio entusiasta, e só existe verdadeiramente quando se é capaz de vestir a camisa daquilo que é tolerado.

No entanto, nenhum desses conceitos é satisfatório. Só cabe falar propriamente em tolerância quando estamos diante de um ato objetivamente equivocado, ao qual circunstancialmente não nos opomos em atenção a um bem maior que possa concretamente advir desta nossa renúncia a agir (ou para evitar um mal maior que decorresse da nossa ação, o que dá no mesmo).

Assim, não é verdade que só exista tolerância porque não somos capazes de saber o que é certo (ou porque não existe certo no caso em questão), mas é exatamente o contrário: toda tolerância pressupõe e exige um juízo de valor, por meio do qual nós possamos estabelecer uma hierarquia de bens e males e, com base nela, agir ou deixar de agir: combater ou tolerar. Do mesmo modo, exigir que a tolerância sincera implique na aprovação moral da coisa tolerada é um completo nonsense. Por definição, aquilo que é certo não é objeto de tolerância: não se tolera o bem, mas tão somente o que é mal.

O uso comum de certos termos é legítimo e necessário, mas não podemos deixar que ele obscureça o sentido verdadeiro das expressões que empregamos. Assim, por exemplo, “tolerar” que minha esposa coloque água de coco no nosso whisky quando eu sei que o sabor de um bom malte só pode ser devidamente apreciado em uma dose à cowboy significa colocar o prazer dela (perfeitamente legítimo) acima das minhas exigências etílicas. Todos os elementos da tolerância estão aqui presentes: o bem objetivo (= degustar o puro sabor do malte) ameaçado, as ações possíveis (= não tomar o whisky com ela, não deixar que ela o estrague com água de coco, etc.), o bem (= o deleite e a satisfação dela em dividir uma dose comigo) obtido quando aceito a dose oferecida, o mal (= a privação do pequeno prazer doméstico) que adviria de recusá-la. O fato de fazermos (em casos simples assim) todos esses juízos de valor automaticamente não significa que eles não existam.

Algumas situações são extremamente simples. Em se tratando de doses de whisky, nós podemos dizer que tanto faz a maneira como se as toma. Nós podemos facilmente imaginar o prazer obtido por quem, por razões quaisquer, preza mais pelo doce que pelo amargo. Ainda: nós seríamos monstros insensíveis se forçássemos todo mundo a só tomar whisky puro e sem gelo. Tudo isso é verdade; no entanto, seria simplismo tratar todos os atos humanos com a mesma displicência que nos é lícito devotar ao gosto por bebidas destiladas. É bastante óbvio que existem bens maiores do que o sabor imaculado do scotch envelhecido em barris de carvalho, bem como existem males mais sérios do que a frustração de um exigente prazer gustativo. Não se pode pretender que a tolerância automática que dedicamos às preferências de paladar aplique-se indiscriminadamente a todas as demais esferas do comportamento humano.

Há hoje em dia uma tendência a se nivelar por baixo as relações interpessoais e a pretender que todos os atos humanos tenham a mesma importância social da maneira como cada um prefere a sua bebida. Como complemento a tanto quanto se disse aqui, é oportuno o artigo de hoje do Carlos Ramalhete na Gazeta do Povo, que fala sobre a tolerância brasileira. Não a caricatura de tolerância que nos pretendem vender, mas a verdadeira: aquela que sabe existirem coisas certas e coisas erradas, mas segundo a qual «é de se esperar que pessoas boas façam coisas erradas de vez em quando; devemos combater – ou mesmo tolerar – as coisas erradas, sem demonizar as pessoas». O autor acerta em dizer que uma visão dualista do mundo é uma forma de reducionismo que deve ser evitada. Mas este dualismo é criticável quando procura categorizar absolutamente seres humanos, e não quando afirma que algumas coisas são certas e, outras, erradas. Porque também é reducionista dizer que não existe bem ou mal no mundo. Também é reducionista pretender que tudo seja equiparável a colocar ou não alguma coisa na dose de whisky.

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