«Tem boi na linha; se não é boi, pelo menos é chifrudo» – Carlos Ramalhete

closeAtenção, este artigo foi publicado 3 anos 11 meses 29 dias atrás.

[Fonte: Facebook]

Tem boi na linha; se não é boi, pelo menos é chifrudo

Quando meus filhos eram pequenos, eu sempre fazia com eles uma brincadeira de palavras, um joguinho meio besta, mas muito útil, para ensiná-los a se expressar claramente. A maior vantagem da brincadeira é que ela também ensinava que é simplesmente impossível ser entendido claramente quando o receptor do discurso preocupa-se ativamente em **não** entender.

A brincadeirinha é muito simples: basta fingir que se tomou todas as palavras importantes do discurso por homófonos ou quase-homófonos. A criança – que, como toda criança, leva tudo a sério – fica exasperada e começa a tentar dizer a mesma coisa de outra maneira. Aí é só fazer a mesma coisa, com outro homófono e outra palavra.

Por exemplo: vem-nos o petiz, dizendo que “mamãe pediu pra me dar uma lista de compras”. A resposta mais evidente é, claro, “maleta de compras? Pra que é que ela quer que eu te dê uma maleta de compras?! Já não basta a sua mochila?!”. Daí a criança tenta dizer “não, pai, é a lista das coisas que tem que comprar no mercado”, apenas para se ver diante da barreira intransponível da resposta “mas se a lista é das coisas que têm, para quê comprar no mercado? Você quer comprar de novo o que você já tem?!”. E por aí vai.

A brincadeira não tem fim, e garante que a criança desenvolva sua capacidade vocabular ao ponto de, na adolescência, ter um controle ótimo da própria expressão. Meu filhos, graças a Deus, não intercalam “tipo” a cada duas palavras, por exemplo.

Outro dado interessante da minha experiência sensível, que, com o exposto acima, me ajuda a perceber o que está atualmente acontecendo, é o que eu me habituei a explicar dizendo que “o universo conspira em favor do Paulo Coelho”. Todo mundo sabe que o ilustríssimo imortal abeelístico supracitado, depois de – dizem as más línguas – vender a alma ao Capiroto, passou a afirmar que o universo conspiraria em favor dele. Seria uma espécie de domínio da sincronicidade, se se quiser tomar pelo lado junguiano da coisa, ou das probabilidades, quando a matemática é nossa praia. Se se quiser correr o risco da blasfêmia, seria possível até mesmo atribuir à Divina Providência esta suposta conspiração do universo.

O fato é que, decididamente, ainda que o universo conspire em favor do Paulo Coelho, em meu favor ele não conspira. Bom sinal, diriam todos os santos e doutores da Igreja. Na verdade, para mim esta realidade acaba sendo até mesmo um modo informal de ver como está indo o meu apostolado: se está indo bem, posso ter certeza de que tudo o que puder dar errado em meu entorno dará. Se eu deixo meu apostolado de lado, contudo, se eu não debato, não respondo, não prego, não escrevo, e me dedico a beber bom vinho e ouvir boa música, as coisas fluem. O universo que conspira em favor do Paulo Coelho me tem como aliado, e sempre sobra uma casquinha da conspiração lá deles.

Pois bem, aparentemente o Santo Padre Papa Francisco, decididamente, não está no mesmo time do Paulo Coelho. Pessoas inteligentíssimas, que respeito profundamente, vêm apresentando dificuldades em entender o que ele diz que mais parecem a brincadeira que eu fazia propositadamente com meus filhos. Não é um nem dois: tenho visto este fenômeno se repetir em público e em particular, afetando engenheiros, filósofos, teólogos, jornalistas e o que mais vier.

Aí eu pego o texto que causou tantas dificuldades e, mutatis mutandis, é como se eu pegasse o diálogo com a criança que eu citei acima; é evidente que se entendeu tal e tal coisa em senso diverso do desejado pelo emissor do discurso, que “tem” significa, no contexto, “precisa”, não “possui”.

A coisa é ainda mais estranha quando nos damos conta de que muitos dos que ora apresentam dificuldades de compreensão vieram à Fé católica – ou pelo menos se aprofundaram nela e passaram a estuda-la – no pontificado de João Paulo II.

Ora, João Paulo II pode perfeitamente ter sido um santo – sê-lo-á com certeza quando de sua canonização –, mas certamente não era um bom explicador do que quer que seja. Seus textos eram coisas abstrusas, que precisavam ser lidas várias vezes, cheias de referências bizarras a idéias ainda mais esquisitas, que ele julgava necessário combater. Seus discursos de improviso eram piores ainda. Seus atos públicos – mais no que ele permitia que no que ele mandava fazer, mas também nisso – eram frequentemente escandalosos. Pombas, o encontro de Assis foi uma idéia de jerico tão absurda que Deus mandou um terremoto para que Sua voz Se fizesse ouvir. Para não falar da missa celebrada com uma louraça-belzebu fazendo as leituras de maminhas ao léu, enquanto o texto da Veritatis Splendor, acertadíssimo, dizia de maneira confusa e abstrusa que tudo aquilo era coisa a evitar.

Aí me vem um bom amigo, converso joão-paulino, com dificuldades enormes para entender que numa entrevista do Papa Francisco, as palavras “não é possível” não significam “não nos é permitido”, mas “é algo que não está ao alcance de ninguém”.

Ou seja: algo que “não é possível”. E tome idas e vindas por email até o sujeito entender, se é que entendeu!!! Como diria o marido da mulher feia, durma-se com um bagulho desses!

Ao mesmo tempo, o pessoal que já curte uma missa-negra, ou pelo menos que senta no banco dos reservas do time do Paulo Coelho, inventa leituras ainda mais delirantes e arrevesadas de tudo o que o papa fala, de tal modo que dificilmente se têm passado dois dias sem que aparecesse um delírio novo. Ora ele vai ordenar mulheres, ora ele liberou o aborto, era a sodomia-chique das revistas de moda teria ganho aval papal. Daqui a pouco ele vai ter dito que levaria um cartaz louvando grupos de pagode ao show do Iron Maiden.

Ora, a única explicação possível para isto, para tamanho fenômeno de incompreensão localizada, é interferência demoníaca. Não há outra razão; se a incompreensão fosse devida ao discurso propriamente dito, à falta de habilidade do emissor, ou bem a recepção dele seria sempre a mesma – ou seja, todo mundo acharia que o Papa estaria dizendo X, ao invés do Y que ele queria enunciar – ou bem o discurso seria claramente incompreensível. Mas não. O mesmo que vem me perguntar sobre um “não é possível” que ele não consegue entender como “não é possível” vem me dizer que é um absurdo que Fulano ou Beltrano (nunca ambos!) não tenha entendido outro ponto de um discurso papal.

Pelo que ensinam os sábios santos e doutores, e pela modesta experiência, só posso dizer uma coisa de todos estes aparentemente estranhíssimos fenômenos: o Inferno está apavorado com o Papa Francisco! É a versão séria dos probleminhas bestas que eu já encarei tantas vezes; se para mim mandavam um diabrete já velhusco, à beira da aposentadoria, com capacidade de trabalho não lá muito boa, para o Papa vai a elite, o Bope do Hades. Espalham-se pelo mundo, com metafóricos chumaços de algodão sulfuroso para tampas os ouvidos e distorcer as percepções. Não duvido nada que – como já vi acontecer tantas vezes em meu entorno quando meu apostolado estava andando melhorzinho – o Vaticano esteja cheio de problemas, com os aparelhos elétricos pifando, os canos entupindo, os documentos e chaves caindo atrás dos móveis, etc.

A solução, evidentemente, é rezar mais ainda e ir em frente, mesmo sabendo que o Tinhoso é tinhoso e vai continuar atentando. No caso das vítimas, na situação atual, daqueles que vêm tendo dificuldades absurdas para entender o que diz o Papa, eu recomendaria deixar de lado todo e qualquer discurso papal, dedicando-se ao invés à oração. A não ser que sejamos membros da hierarquia e que o discurso papal tenha sido dirigido diretamente a nós, como numa visita de um Bispo ao Papa, vale mais a pena dedicar-se à leitura de obras aprovadas pelo tempo, tão parafraseadas ao longo dos séculos que ficou impossível não encontrar a mesma coisa dita de várias maneiras, todas ortodoxas. Assim escapamos do grosso dos ataques do Chifrudo, ou ao menos não somos usados por ele para atacar a Igreja. Fazer da boa intenção um paralelepípedo para calçar a estrada que leva aos Quintos é, afinal, a especialidade dele.

Além disso, claro, vamos rezar pelo Papa, por este Papa que tanto apavora as hostes infernais!

Ave Maria

Carlos Ramalhete

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

5 thoughts on “«Tem boi na linha; se não é boi, pelo menos é chifrudo» – Carlos Ramalhete

  1. Renan

    É, RAMALHETE, DESSA VEZ…
    Que mo perdoe, sempre que me deparo com seus escritos aproveito bem, dessa vez porém dizer que os textos do Papa João Paulo II, textualmente como disse: “Seus textos eram coisas abstrusas, que precisavam ser lidas várias vezes, cheias de referências bizarras a idéias ainda mais esquisitas, que ele julgava necessário combater. Seus discursos de improviso eram piores ainda. Seus atos públicos – mais no que ele permitia que no que ele mandava fazer, mas também nisso – eram frequentemente escandalosos”…
    A meu ver – sempre o apreciei nesse estilo – o Papa João Paulo II era muito meticuloso e detalhista, esmiuçava o quanto podia e fazia vários subtendimentos para não pairarem dúvidas algumas sobre seus textos, e não se criarem oportunidades de deturpar o sentido original dando-lhes conotações ideológicas, já que fraudar textos da Igreja, particularmente do papado pela mídia globalista é prato do dia, até o NYT já denunciou manobras da maçonaria nesse sentido.
    Que fizeram eles da midia com o papa Francisco recentemente por meio de textos fraudados: ele já abriria a Igreja a gays e seus “casamentos, às abortistas, ao vale-tudo…
    Leia o besteirol, por ex., na Folha de S Paulo de Carlos Heitor Cony dia 22/09 pp ” O Papa e a Maçã”, começando assim: Nesta semana, o Papa Francisco criticou a obsessão da igreja por sexo, manifestada sobretudo na condenação ao aborto e ao casamento gay, etc..
    Não será que a obsessão é ao contrario, dos inimigos da Igreja?
    Lênin sentenciou: Chame-os do que você é e acuse do que você faz!
    Sabemos que o pronunciamento dele foi todo muito diferente para gerarem seus disparates, por sinal a Folha é vista como pró marxistas, como o PT.

  2. Lamartine Hollanda

    Ferraz escreve muito bem, é um grande e humilde apóstolo, parabéns.Porém, sobre o que o Bispo Bergoglio tem dito, em certas ocasiões, sendo ele consciente do que é mídia, linguagem não verbal, núcleos atratores semânticos( falo em termos de antropocibernética, especialmente sóciocibernética), orquestração midiático-política, grandes grupos conspiradores que controlam jornais, TVs, setores da hierarquia comprometidos com a desconstrução da Igreja e etceteras correlatos, minha burrice é grande e não consigo entender as coisas como Ferraz o entende. Claro que, consisderando-se a onipotência e a momniciência do Espírito Santo, Ele pode permitir a eleição de um Papa que diz e faz besteiras( fato histórico comprovado), permitir que tal instrumento de sua vontade confunda as consciências, para disto tirar um fruto positivo mais tarde, como a falha de Adão( até hoje, a Igreja canta: ó feliz culpa que nos trouxe tal Salvador!), ou o pecado de Judas, ou as três negações de Sào Pedro.
    Mas isto não converte os erros dos pecadores mencionados em acertos.Entre uma infinitude de variantes, Deus pode, por exemplo, fazer Bergoglio morrer em momento criticamente importante, ou vivenciar uma transformação espiritual radical, ou, após ter atraido grandemente a atenção da mídia, dizer/fazer algo de valor transformativo essencial.Hipóteses são hipóteses.Mas dizer, na época atual, seja em que contexto for, frases que seguramente seriam utilizadas pela mídia demoníaca para escandalizar os pequenos, isto não cabe nem num diácono encarregado provisoriamente de serviços litúrgicos numa paróquia eventualmente sem um Pai. A não ser que não tivesse o secundário completo, não lesse jornais, não conversasse com ninguém. É a minha setença, smj.Imprimatur. Nihil obstat?

  3. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Prof. Lamartine,

    Obrigado por suas palavras, mas este texto específico não foi escrito por mim, e sim pelo prof. Carlos Ramalhete, como consta no título. Talvez eu devesse ter colocado a assinatura no final do artigo também, para evitar confusões; vou fazê-lo agora, obrigado pela sugestão.

    Quanto às distorções da mídia, que nós decerto sabemos que existem e vão continuar existindo enquanto existir mídia no mundo, o senhor leu esta pequena parábola da entrevista papal?

    Resumindo: saiu o Papa a dar uma entrevista. Conforme ele falava, certas palavras caíram na mídia e foram levadas pelos pássaros, e ninguém as ouviu. Outras palavras caíram naqueles que não entenderam o contexto, e o entusiasmo deles murchou e não deu fruto. Ainda outras caíram naqueles que achavam que elas contradiziam tudo o que já foi dito antes, e a confusão dos seus corações sufocou a mensagem e ela não frutificou. Outras, por fim, caíram como chuva em terreno árido, em pessoas que estavam acomodadas, e que as acolheram com humildade e as fizeram frutificar em trinta, cinqüenta e cem por um.

    Jesus explicou em detalhes esta parábola aos seus confusos Apóstolos, sobre os perigos que o anúncio do Evangelho encontra no mundo. Em nenhum lugar, no entanto, aquela explicação incluiu a frase «o semeador devia ter guardado a semente para si próprio». Quem tem ouvidos, ouça, e dê graças a Deus.

    Abraços,
    Jorge Ferraz

  4. Fernando

    Até hoje eu ouço pessoas dizendo que Bento XVI “liberou o uso da camisinha” por conta daquela entrevista ao Peter Seewald em 2010.

    O papel da mídia é distorcer a informação e gerar notícias sensacionalistas que atraiam leitores. O papel dos “progressistas” é dizer que agora o papa finalmente vai jogar toda a doutrina da Igreja na lata do lixo e “se adaptar aos tempos modernos”. O papel de certa corrente “tradicionalista” radical é confirmar o que a imprensa e os “progressistas” estão dizendo e falar que isso prova que o papa “é herege” e talvez nem seja papa. E o papel dos católicos é tentar sanitizar as informações e perseverar na fé.

  5. Domingos de Oliveira

    Que a mídia é diabólica,isso é.Mas o papa Francisco também não passa a segurança de ser um baluarte em favor da ortodoxia católica.
    Então a situação fica bem complicada.Ele é um “prato cheio” para essa mídia.
    João Paulo II era incansável em sua pregação contra a cultura da morte.Ela claríssimo em suas pregações a favor da moral católica.Bento XVI,nem é preciso falar nada.Era um gigante!!!!
    Ou seja,tempos difíceis.