O início do genocídio silencioso

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 10 meses 20 dias atrás.

Foi noticiado ontem que as primeiras células-tronco embrionárias brasileiras foram desenvolvidas pela USP. O grupo da dra. Lygia Pereira – cuja “pesquisa continuou sendo desenvolvida enquanto a ilegalidade do uso de células embrionárias era discutida” com financiamento estatal – somente há três meses conseguiu produzir a primeira linhagem de células-tronco embrionárias. A notícia afirma ainda que as células obtidas “são pluripotentes, ou seja, têm capacidade de se tornar diferentes tipos de células”.

Bom, o que dizer? Antes do mais, considero no mínimo irresponsável que o governo tenha financiado uma pesquisa antes que fosse decidido se ela era legal ou não. Claro que, vindo do PT, não é nenhuma novidade, pois o governo que financia o que é manifestamente crime (como o aborto) certamente não teria escrúpulos nenhum em financiar o que ainda se estava discutindo se era ou não crime; mas não consigo evitar o incômodo que me causa a sensação de que o Governo, ao decidir pela continuidade das pesquisas, estava em parte legislando em causa própria devido aos investimentos que nelas vinha fazendo [*].

Depois, é digno ainda de nota o que foi publicado na UOL, sobre as células obtidas serem pluripotentes. Confesso que não entendi nada; “pluripotentes” não são exatamente as células-tronco adultas, sendo a grande alegada vantagem das embrionárias o fato de elas serem “totipotentes”? O alardeado grande resultado da destruição de embriões humanos é a produção de linhagens de células que poderiam ser obtidas a partir de células-tronco adultas, é isso mesmo? Claro está que a questão é de princípio e, por conseguinte, ainda que as células-tronco embrionárias fossem a cura da AIDS, a sua utilização não seria moralmente aceitável; no entanto, acho desonesto alardear um “avanço científico” sem deixar claro que o “avanço” não foi o originalmente alegado [*].

Não resisto ainda a um comentário, que ilustra bem a futilidade do júbilo pseudo-científico vigente; a dra. Lygia fez questão de frisar que nós estamos “dez anos atrasados”, pois as primeiras linhagens de CTEHs surgiram nos Estados Unidos em 1998. No entanto, nem um único resultado terapêutico foi obtido desde então e, por conseguinte, o Brasil está na contramão do verdadeiro desenvolvimento científico, comemorando o ingresso em uma área que só acumulou até agora dez anos de fracassos, sobre uma montanha de incontáveis pequenos cadáveres humanos, à qual a USP fez o favor de acrescentar trinta e cinco (o número de embriões destruídos pelo grupo de pesquisa da dra. Lygia): eis a lúgubre realidade.

Enquanto isso, a Nature publica que um grupo de pesquisadores americanos conseguiu obter células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) seguras, por meio de uma nova técnica que se mostrou bastante promissora nos testes realizados em animais, e que a obtenção de iPS para uso em humanos é apenas “uma questão de tempo”. E as iPS não completaram nem um ano ainda! Quanto sangue precisará ser derramado nos laboratórios, em busca de uma quimera imoral, às custas de seres humanos cujo grito silencioso ninguém pode ouvir, até que as pessoas recobrem o bom senso?

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0 thoughts on “O início do genocídio silencioso

  1. Eduardo Araújo

    Jorge, além de reportarmo-nos a esse governo abortista, não não esqueçamos o papel essencial da mídia comprometida até à medula.

    Papel de distorcer os fatos e forjar uma situação de embate verdadeiramente não existente.

    Sempre que uma equipe de pesquisadores logra êxito com as CTAH – e olhe que já se construiu uma bela história de sucesso com as células tronco adultas – a imprensa mentirosa omite, numa cretinice indizível, esse importantissimo pormenor.

    Agora, quando trata-se de jogar a população contra a Igreja Católica, raramente se vê nessa mídia nojenta o esclarecedor detalhe de que o problema está somente nas células tronco embrionárias, nada havendo de ética ou religiosamente questionável no caso das células adultas.

    Assim, urde-se a seguinte inverdade: a Igreja seria contra as células tronco, que estão produzindo um sucesso atrás do outro, sendo portanto inimiga da ciência e dos pobres portadores de doenças degenerativas. Que Igreja malvada! (sic)

    E o que li de imbecis intelectualóides (o tipo que infesta o cenário universitário e midiático brasileiro) indignados com o “obscurantismo medieval” católico. E de nada adiantava replicar as bestas quadradas neo iluminadas, observando-lhes que a questão resumia-se ao atributo “embrionárias”, que no caso das CT corresponde – muito bem colocado neste seu post – ao lado do fracasso, cuja persistência somente se explica por motivos ideológicos, nada de ciência.

    Abraços

  2. Pingback: FDA impede testes clínicos com células-tronco embrionárias « O Possível e O Extraordinário

  3. Marcio Antonio Campos

    Jorge, isso tudo é uma tremenda barbaridade, mas há dois pequenos reparos a fazer. O primeiro é que a Adin não tornava a pesquisa com embriões ilegal. Só uma decisão do STF poderia ter feito isso. E o segundo reparo é justamente esse: quem definiu pela continuação das pesquisas foi o Supremo, e não o governo.

    De resto, você expôs bem a situação: a pesuisadora acha que temos que correr para produzir teratomas do mesmo jeito que os americanos produzem.

  4. Adriano

    Jorge, creio que totipotente seja apenas o zigoto. As CTEs são pluripotentes, e as adultas… não me lembro exatamente do nome mas “menos potentes” do que as embrionárias. De toda forma, as pesquisas com as iSPs deixa tudo isso num anacronismo atroz.

  5. Jorge Ferraz

    Adriano,

    Agradeço também por teres precisado os termos técnicos. Encontrei na internet a seguinte definição:

    Em ordem decrescente de potencialidade estão as células-tronco totipotentes, pluripotentes e multipotentes. O zigoto e as primeiras células que resultam de sua divisão são totipotentes, pois podem originar todos os tipos de células e, se separadas, como ocorre na origem de alguns casos de gêmeos, podem originar até um organismo inteiro. Células pluripotentes são aquelas que conseguem se diferenciar na maioria dos tecidos, menos em anexos embrionários. São células pluripotentes as células-tronco presentes na massa interna do blastocisto, estrutura que corresponde a um aglomerado com cerca de 200 células, no quinto dia do desenvolvimento do embrião. Células multipotentes têm potencialidade para originar alguns tipos celulares. Um exemplo de células multipotentes é o das células da medula óssea, que dão origem a diversos tipos de células sangüíneas.

    Devo ter me confundido porque ouvi diversas vezes a oposição “totipotentes x pluripotentes” aplicada à oposição “células embrionárias x células adultas”. Por exemplo, o Drauzio diz isso:

    As [células-tronco] adultas estão presentes na maioria dos tecidos e apresentam capacidade limitada de diferenciação, isto é, conseguem formar apenas alguns tipos de células. As embrionárias são totipotentes, ou seja, podem diferenciar-se em qualquer tipo de tecido.

    E, por fim, é claro essas distinções perdem bastante a relevância diante do horizonte descortinado pelas iPS.

    Abraços,
    Jorge

  6. Adriano

    Esse Drauzio aí é o Varela do Fantástico? Aquele que disse que se aborto fosse assassinato então masturbação seria um genocídio?

    Se for o caso não me admiro, pois quem não sabe a diferença entre um indivíduo e um gameta não deve saber muita coisa de embriologia mesmo.

    Sobre as totipotentes, eu disse erroneamente que era apenas o zigoto. De fato, até em estágios posteriores ao blastocisto deve haver células totipotentes pois existem casos de gemelaridade mais tardios, que inclusive são os que mais probabilidade têm de gerar gêmeos unidos e outras complicações.

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