Pedro Cardoso e a pornografia na televisão brasileira

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 10 meses 8 dias atrás.

Tive uma grata surpresa ao ler um texto do ator Pedro Cardoso, referente a um discurso pronunciado pelo mesmo na primeira exibição do filme “Todo mundo tem problemas sexuais”. A sinopse do filme deixa entrever que é somente mais uma depravação brasileira; o discurso de Pedro Cardoso, contudo, fez-me ter vontade de assisti-lo.

Não esperava encontrar tanto bom senso num manifesto pronunciado por um comediante brasileiro. O problema abordado por Pedro Cardoso – evidente para quem mantém intacto o seu senso de moralidade, mas (infelizmente) irrelevante para a grande maioria dos telespectadores nacionais – é a questão da pornografia na televisão e no cinema, entendendo por isto não apenas a exibição de cenas explícitas, mas toda a “erotização” que parece ter se tornado conditio sine quae non para qualquer produção televisiva / cinematográfica nos dias de hoje. Por exemplo, seria atigida pela crítica do autor aquela menina de calcinha e soutien na tela da Globo às três horas da tarde. Muita gente acha que é normal. Eu acho um tremendo absurdo. Parece que há atores brasileiros que também concordam comigo, o que é muito reconfortante.

O discurso inflamado do comediante brasileiro não passou despercebido da mídia. TERRA publicou uma reportagem sobre o assunto, com o polêmico título de “Pedro Cardoso diz que atores são obrigados a fazer pornografia”. Há, certamente, toda uma questão moral sobre o assunto – que não está alheia ao discurso de Pedro Cardoso -, mas achei particularmente interessante uma objeção (à primeira vista) “meramente técnica” do ator, sobre interpretação de personagens e nudez:

A minha tese é de que a nudez impede a comédia, e mesmo o próprio ato de representar. Quando estou nu sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem. Quando vemos alguém nu vemos sempre a pessoa que está nua. O personagem é justamente algo que o ator veste. Ao despir-se do figurino, o ator despe-se também do personagem, e resta ele mesmo, apenas ele e sua nudez pessoal e intransferível. Diante da irredutível realidade da nudez de seu corpo, o ator não consegue produzir a ilusão do personagem. O ator ou atriz que for representar um personagem que estiver nu, terá que vestir um figurino de nu (seja lá o que isto quer dizer!).

Não sou ator, nunca estudei artes cênicas, nunca fiz curso de teatro, de modo que não posso fornecer uma discussão aprofundada sobre a tese de Pedro Cardoso; no entanto, ela me parece bastante óbvia e, justamente por isso, genial. E vou mais além: a reconhecida incapacidade do ator em representar um personagem nu, pelo simples fato de que, quando o autor se despe do figurino, resta “apenas ele e sua nudez pessoal e intransferível”, é uma eloqüente expressão – certamente involuntária – de um aspecto básico da antropologia cristã: a tremenda verdade de que o ser humano é uma união indissociável entre corpo e alma, de modo que, ao olhar para o próprio corpo, ele não consegue simplesmente dizer “este é um corpo” (como consegue fazer, p.ex., com uma roupa), mas sim, sempre, “este sou eu”. Por isso é impossível fazer personagens só com o próprio corpo e mais nada, porque o corpo do ator é sempre o próprio ator, e de nenhuma maneira um personagem. Por isso a – a meu ver, extremamente pertinente – crítica de Pedro Cardoso.

Como falei, a questão moral não fica de fora do inflamado discurso do ator brasileiro; é ele próprio a reconhecer que “[a] pornografia está tão dissimulada em nossa cultura que não a reconhecemos como tal”, e ainda a usar expressões extremamente duras ao se referir ao nudismo como “a oferenda que vai ser imolada no altar do tesão alheio dos impotentes”! Em suma, uma excelente notícia; quando até mesmo os profissionais da área descobrem que há algo de podre no seu ganha pão, e têm a coragem de vir a público denunciar isto, é sinal de que – talvez – podemos ter alguma esperança. Parabéns ao Pedro Cardoso pela coragem de gritar que o rei está nu. Que mais e mais pessoas possam segui-lo, a fim de que consigamos deter – um pouco que seja – esta queda vertiginosa no abismo da imoralidade que sofre a nossa civilização.

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0 thoughts on “Pedro Cardoso e a pornografia na televisão brasileira

  1. Fabrício L.

    Incentivo a todos escrever para o ator Pedro Cardoso com palavras de apoio. Quem sabe, ao receber apoio popular, mais atores não se motivem a aderir ao protesto do Pedro?

    Paz e Bem!

  2. Marcella

    Nossa, se calcinha e sutien é um absurdo, a praia é uma putaria total…

  3. sandra nunes

    O Pedro Cardoso protestou porque SUA COMPANHEIRA fez o filme onde fica NUA e o SELTOM MELLO que é o diretor fez uma apresentação particular do copião na casa dele para os amigos!
    Nada tem de puritanismo do Pedro e sim a utilização do “make off” .

  4. Lilian Alves de Jesus

    Concordo plenamente com ele, mas infelizmente brasileiro gosta de pornografia.

  5. sandra nunes

    OLHA SÓ, DEU NA UOL E CORROBORA TUDO QUE EU DISSE:

    17/10/2008 – 16h38
    Selton Mello responde ao manifesto contra a nudez de Pedro Cardoso
    Da Redação
    O ator e diretor Selton Mello respondeu por escrito ao protesto de Pedro Cardoso contra a ditadura da nudez no cinema e na televisão, feito antes da sessão do filme “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, de Domingos de Oliveira, no Festival do Rio. Mello escreveu um texto com dois pontos e o publicou no site de seu primeiro filme como diretor, “Feliz Natal”, que está na 32ª Mostra de São Paulo.

    No manifesto, Cardoso afirmou que “cineastas de primeiros filmes” promovem “sessões privês” para exibir a nudez de atrizes para amigos. As insinuações do ator apontam para Mello, que dirigiu Graziella Moretto em suas primeiras cenas de nudez no cinema no filme “Feliz Natal”.

    Embora não assuma publicamente, Cardoso estaria namorando Graziella e ficou enfurecido com a notícia de que, nas folgas das filmagens, Mello convidava a equipe para assistir, em sua casa, a versões prévias do filme, que ele mesmo editava.

    A seguir, a íntegra do texto de Mello, publicado no site do filme que dirigiu e que será exibido no sábado (18) na 32ª Mostra de São Paulo:

    “Tomando como ponto de partida o manifesto do ator Pedro Cardoso e o fato de a imprensa envolver meu nome e trabalho neste episódio, sinto-me no dever de me posicionar, fazendo uma reflexão em dois movimentos:

    1- O filme Feliz natal, dirigido por mim, foi concebido e realizado em um ambiente de harmonia, com todos os envolvidos – elenco e técnica – trabalhando com respeito mútuo e delicadeza. Delicadeza é o sentimento que reinou antes, durante e mesmo depois das filmagens, com manifestações carinhosas trocadas entre toda a equipe e elenco, felizes por termos exercido nosso ofício de forma tão inspirada e apaixonada. Portanto, estou seguro e muito contente por ter realizado um filme simples e delicado, conduzido com o respeito habitual que sempre tive com qualquer pessoa que tenha cruzado meu caminho, e assim foi durante toda minha vida como homem e artista. E escrevo isto em nome de toda uma equipe que sempre falou a mesma língua e pode atestar minhas afirmações.

    2- Quanto a emitir uma opinião sobre o manifesto, penso que se uma cena de nudez estiver inserida em um contexto legítimo, como expressão genuinamente artística, sem traço algum de banalização, me parece algo bastante natural e belo. Há centenas de exemplos disto na história do cinema e da arte.”

    Selton Mello

  6. Fernanda

    Pedro Cardoso foi muito corajoso e não vejo seu discurso como sendo algo moralista; ele é contra a banalização da nudez, contra, o que ele mesmo diz: “a pornografia disfarçada de boa moça”. E acho que ele tem um bocado de razão no que diz, o apóio totalmente! Não precisamos de cenas de nudez nem de sexo p/ contarmos boas histórias. Acho q o q é sugerido é muito + interessante do q aquilo q é explícito.