A precisão das imprecisões

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 7 meses 15 dias atrás.

O acesso a elas [às encíclicas papais] não é dos mais fáceis. A dificuldade não está no fato de serem escritas num latim de chancelaria florido de elegâncias humanistas, mas no fato de nem sempre ser facilmente perceptível o sentido da doutrina. Decide-se então traduzi-las e, ao tentar fazê-lo, acaba-se por compreender pelo menos a razão de ser de seu estilo. Não se podem substituir os termos desse latim pontifical por outros emprestados de alguma dessas grandes línguas literárias modernas, e muito menos desarticular as frases para articulá-las de outra maneira, sem logo perceber que, por mais cuidadoso que se tente ser, o original perde muito de sua força ao longo da tradução, e não somente de sua força, mas de sua precisão, o que ainda não é o mais grave, pois a verdadeira dificuldade, bastante conhecida daqueles que se arriscam nesse desafio, é a de respeitar exatamente o que se poderia chamar, sem nenhum paradoxo, de a precisão de suas imprecisões. A precisão sabiamente calculada de suas imprecisões desejadas. Quantas vezes não se pode pensar, após madura reflexão, que se sabe o que, num determinado aspecto, a encíclica quer dizer, mas ela não o diz expressamente e, sem dúvida nenhuma, ela tem seus motivos para interromper, em determinados princípios, a determinação mais precisa de um pensamento preocupado em se manter sempre aberto, pronto a dar acolhida a novas possibilidades. Além do curso de teologia que lhes faz falta, e que demandaria vários anos, seria útil aos filósofos cristãos freqüentar por algum tempo uma escola de aperfeiçoamento, uma finishing school, situado em algum lugar entre a Basílica do Latrão e o Vaticano, e vinculada preferencialmente à Gregoriana, onde se ensinaria a arte de ler uma encíclica pontifícia.
[Gilson, Étienne; “O Filósofo e a Teologia”, pp. 184-185. São Paulo, Paulus, 2009]

Eu já tive a oportunidade de comentar aqui sobre o que eu considerava ser a verdadeira intransigência, necessária aos católicos de todos os tempos. Aproveito o texto em epígrafe para fazer algumas outras considerações sobre o tema, que tem uma importância capital nos dias de hoje, em que os católicos atravessam, além de outras, uma crise intelectual.

Desnecessário julgo reafirmar a importância capital das expressões com as quais os dogmas católicos foram expostos ao longo dos séculos; a Fé é uma virtude intelectual, definida como a adesão – voluntária e movida pela graça – do intelecto às verdades reveladas por Deus e propostas pela Igreja. A célebre definição do Doutor Angélico (credere est actus intellectus assentientis veritati divinae ex imperio voluntatis a Deo motae per gratiam) complementa-se com o Actus Fidei ([m]eu Deus, eu creio tudo o que Vós revelastes e a Santa Igreja nos ensina) e com o Credo do Povo de Deus ([n]ós cremos todas essas coisas que estão contidas na Palavra de Deus por escrito ou por tradição, e que são propostas pela Igreja): não há veritati divinae à qual aderir que não nos venha mediante o ensino da Igreja, de modo que negar este é negar a Verdade e, por conseguinte, perder a Fé.

No entanto, permanece sempre a radical incapacidade da linguagem humana de exprimir plenamente o infinito. As fórmulas utilizadas pela Igreja expressam, efetivamente, a Verdade Divina, e isto é evidente e incontestável. Não esgotam, contudo, esta mesma Verdade; há sempre espaço para que – sem que as fórmulas antigas deixem de ser verdadeiras, óbvio – as coisas sejam ditas de uma forma diferente. Gilson fala, aliás, de uma maneira muitíssimo curiosa, das imprecisões desejadas com as quais a Igreja se expressa. E isso foi escrito antes do Concílio Vaticano II…

Por que motivo seria útil à Igreja manter imprecisões no Seu ensinamento? Justamente por uma questão de fidelidade à Verdade Revelada, que a Igreja não pode trair com as fórmulas que propõe. Não há interesse da Igreja em “esgotar” um certo aspecto do Dogma, exatamente porque Ela sabe que a Verdade é “inabarcável” e, se por um lado é possível garantir a perfeita correspondência entre uma fórmula e a Verdade, por outro lado não é possível fechar à inteligência humana a possibilidade de expressar a Verdade de uma outra maneira.

E, mais ainda: se por um lado é relativamente fácil dizer o que uma coisa não é, em contrapartida é extremamente difícil dizer o que a mesma coisa é. Dizer o que algo não é, é excluir uma tese errônea; dizer o que algo é, é excluir todas as teses, concebidas ou por conceber, que contradigam a afirmação realizada. Para utilizar um exemplo meramente ilustrativo, se eu mostro uma mão fechada e pergunto para alguém o que tem dentro, é muito mais fácil ele dizer o que não tem dentro (não tem um elefante, não tem um piano de cauda, não tem um alienígena) do que o que tem dentro. Muitas vezes é necessário dizer o que as coisas não são, apontar simplesmente o erro, ao invés de afirmar categórica e univocamente o que elas são; e a Igreja, que é sábia, muitas vezes apenas delimita o espaço da investigação teológica, sem contudo traçar uma linha única que deva ser universalmente seguida. Para tanto, Ela Se utiliza de imprecisões deliberadas.

Há, infelizmente, incontáveis exemplos de pessoas que não percebem e não respeitam estas imprecisões desejadas no ensino da Santa Igreja. A maneira mais fácil de se apontar uma “contradição” entre o “Magistério pré-conciliar” e o “Magistério pós-conciliar” é, exatamente, atropelar este terreno voluntariamente impreciso e restringir os limites que a Igreja manteve deliberadamente flexíveis. É sem dúvidas necessário, sim, ser intolerante e defender a Doutrina Católica de deturpações; no entanto, é igualmente necessário ter a sensibilidade intelectual para identificar e respeitar, nos ensinos dos Papas, “a precisão de suas imprecisões”. Referindo-se a tal arte, que não é fácil, Gilson diverte-se falando que, para dominá-la, seria necessário um curso específico em Roma para isso… no entanto, quantos leigos auto-intitulados teólogos nós encontramos, atacando – sem pudor e sem prudência – a Igreja de Nosso Senhor!

Que a Virgem, Sedes Sapientiae, alcance-nos as luzes do Alto, do Espírito Santo de Deus, a fim de que não percamos o rumo em meio aos nossos combates. E que nos esforcemos para estarmos sempre muito bem unidos à Igreja de Nosso Senhor, em comunhão afetiva e efetiva com o Sucessor de Pedro, o Doce Cristo na Terra e cabeça da Igreja de Deus, Ela que é Coluna e Sustentáculo da Verdade, contra a qual podemos ter a certeza de que as portas do Inferno jamais prevalecerão.

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0 thoughts on “A precisão das imprecisões

  1. Joachim Di Fiore

    Jorge,

    Preciosos o texto do Gilson e seus comentários sobre ele!

    Apenas reforçando o já dito, não há aquela afirmação de S. Tomás de Aquino em que diz que somente podemos dizer de Deus aquilo que Ele não é?

    É isso ou estou enganado?

    Abraços,

  2. Joachim Di Fiore

    Aqui está:

    “Limitamo-nos a falar apenas da philosophia negativa – embora Tomás tenha formulado também os princípios de uma theologia negativa. Certamente este traço também não aparece com clareza nas interpretações usuais; freqüentemente é até ocultado. Será raro encontrar menção do fato de a discussão sobre Deus da Summa Theologica[20] começar com a sentença: “Não podemos saber o que Deus é, mas sim, o que Ele não é”. Não pude encontrar um só compêndio de filosofia tomista, no qual se tenha dado espaço àquele pensamento, expresso por Tomás em seu comentário ao De Trinitate de Boécio[21]: o de que há três graus do conhecimento humano de Deus. Deles, o mais fraco é o que reconhece Deus na obra da criação; o segundo é o que O reconhece refletido nos seres espirituais e o estágio superior reconhece-O como o Desconhecido: tamquam ignotum! E tampouco encontra-se aquela sentença das Quaestiones disputatae: “Este é o máximo grau de conhecimento humano de Deus: saber que não O conhecemos”, quod (homo) sciat se Deum nescire.[22].”

    in “Luz Inabarcável – o Elemento negativo na filosofia de Tomás de Aquino” – Josef Pieper
    http://www.hottopos.com/convenit/jp1.htm#_ftnref22

    Abraços,

  3. Jorge Ferraz

    Di Fiore,

    Não conhecia a frase – excelente! Ela vem ao encontro daquilo que eu estava tentando dizer no post, e que o Aquinate diz de maneira muito melhor do que eu:

    Quia de Deo scire non possumus quid sit sed quid non sit, non possumus considerare de Deo quomodo sit, sed potius quomodo non sit
    Summa Theologica I, 3 prologus.

    Obrigado!

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz

  4. Felipe Coelho

    Prezado Jorge, Ave Maria Puríssima!

    Gilson não é um bom guia nesses assuntos de interpretação: além de aliado a De Lubac contra o Pe. Garrigou, ou seja um filomodernista, Gilson é tão apegado ao método histórico e à letra, que julgava impossível extrair um sistema filosófico das obras teológicas de Santo Tomás, só porque nelas esse sistema não se encontra literal e sistematicamente, mas apenas aplicado à solução das diversas questões. O Pe. Tonquédec refuta isso magistralmente.

    Gilson foi declaradamente contrário à Aeterni Patris, de Leão XIII, que é a Carta Magna da Filosofia Cristã, e opos-se também a toda tradição tomista de séculos. Dizia-se “tomasiano” e não “tomista”, como os revisionistas de Marx dizem-se “marxianos” para se afastarem dos marxistas históricos.

    Gilson, com suas reinterpretações não-sistemáticas e de sabor existencialista do tomismo, foi ainda um dos grandes responsáveis — ao lado de Fabro que aliás consta ter sido plagiado por Gilson — pela destruição da unidade tomista. E, assim, também pelo triunfo do neomodernismo, por mais que eles tenham tido o mérito de ter refutado Teilhard e Rahner, o que acrescento por justiça.

    Esse mesmo excesso literalista transparece da citação acima. É claro que é possível uma boa tradução fiel de um documento papal, apesar da diversidade das línguas! Que tolice pretender o contrário.

    Apresso-me em acrescentar a ressalva de que os documentos papais são fontes primárias donde colher a doutrina, e a nós, leigos, convém aprender antes das fontes secundárias, que são, para além do Catecismo, os Catecismos de Perserverança e quando muito os Manuais de Teologia (escolásticos, claro), pois assim aprendemos o sentido dos documentos papais tais como os entende a Igreja. E nisso concordo com o fim, e só com o fim, da citação de Gilson.

    Quanto às indefinições propositais contidas nas definições e ensinamentos da Igreja, são para permitir as interpretações diferentes dadas pelos diversos sistemas aprovados pela Igreja (tomista, escotista, suareziano, etc.), os quais porém concordam todos no principal, são todos escolásticos e Católicos.

    O que se objeta ao “magistério” conciliar e pós-conciliar é que suas indefinições são postas para permitir também, e dar cidadania na Igreja, a questões que jánão são licitamente disputadas mas há muito decididas, e à escola condenada pelas Encíclicas sobretudo de Pio XII, como a Humani Generis, numa palavra, a “nova teologia” neomodernista que hoje manda na Igreja Conciliar.

    Portanto, seu paralelo não procede.

    Felizmente, não foram somente imprecisões e expressões “abertas” a serem “ensinadas” pelo “magistério” conciliar, mas verdadeiros erros e leis más impossíveis de vir da Santa Igreja, mudanças estas que, ademais, têm uma coerência interna que mostra subjazer a elas um verdadeiro sistema herético modernista.

    Por fim, cuidado com o agnosticismo e o simbolismo (cf. Pascendi, Humani Generis)! Claro que as fórmulas dogmáticas são adequadas e não meramente aproximativas para exprimir as verdades da Fé, embora não para esgotá-las! Cf. nosso Pe. Penido, sobre o valor da Analogia em Teologia Dogmática. Pieper foi heterodoxo como Gilson.

    Um abraço,
    Em JMJ,
    Felipe Coelho
    [email protected]