O desabafo de Bento XVI

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 5 meses 13 dias atrás.

O Santo Padre vai tornar pública amanhã uma carta na qual esclarece os motivos pelos quais decidiu revogar as excomunhões que pesavam sobre os quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X – leio no Último Segundo. Como não poderia deixar de ser, o Fratres in Unum traz informações melhores, e traduz os trechos da carta que já foram publicados por fontes de notícias italianas. Leiam.

Apesar da carta reproduzir o óbvio – que nós estamos cansados de defender aqui contra os que julgam ser capazes de ensinar Teologia ao Sagrado Magistério da Igreja Católica (por exemplo, que os sacerdotes da FSSPX ainda “não exercem de modo legítimo qualquer ministério na Igreja”, e que “[n]ão se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962 – isso deve ser bem claro para a Fraternidade”) -, não é exatamente sobre este ponto que eu desejo me deter agora, nessas linhas. Quero falar um pouco sobre o Santo Padre.

O Vigário de Cristo trava uma batalha descomunal e absurdamente ingrata nos nossos dias; trava-a sozinho, consciente de seu papel como Sucessor de Pedro, consciente de que precisa consumir-se em defesa da unidade da Igreja de Nosso Senhor e da integridade da Sã Doutrina da Salvação. É atacado por todos os lados e, mesmo assim, avança resolutamente. Sofre e não desanima; é contrariado e não desiste.

Mas é humano e, como ser humano que é, às vezes desabafa – e esta carta me pareceu um desabafo do Santo Padre, como que as queixas de um Pai amoroso que quase não recebe senão ingratidão dos filhos pelos quais se consome. Sabe o Papa – sabe-o, porque é católico, porque tem graça de estado para bem exercer o governo da Igreja, porque é o Vigário de Nosso Senhor – o que deve fazer para o bem dos fiéis católicos; percebe no entanto o Papa que estes mesmos fiéis – por cujo bem ele trabalha sem descanso – não raro voltam-se contra ele.

A crise da Igreja chegou a um tal ponto que, hoje, podemos infelizmente constatar – e creio ser exatamente esta a percepção do Santo Padre, que motivou a sua carta – que muitos fiéis católicos, provavelmente a maioria deles, estão distantes do Vigário de Cristo. Grande parte deles, arrasados pela crise de Fé que se alastrou como praga pela Igreja, não faz a mínima idéia de quem seja o Papa. Outra parte bem considerável [que até sabe relativamente quem ele é] gostaria que ele fosse diferente (quer em uma direção, quer na outra direção oposta). O Papa permanece assim praticamente sozinho, abandonado pelos que não o conhecem, abandonado pelos que, conhecendo-o, não o aceitam: e, no entanto, é precisamente destes que ele é Pai, e são precisamente estas ovelhas que ele precisa pastorear – esta é a sua missão – e levar aos prados verdejantes da Eternidade, onde o Bom Pastor as aguarda.

O Papa é chefe da Igreja, não de uma “igreja” imaginária, não da “igreja espiritual” que querem os modernistas nem da “igreja obscurecida pela Outra” que querem alguns “tradicionalistas”, mas sim da Igreja que existe, da Igreja Católica e Apostólica, fundada por Nosso Senhor e que existirá neste mundo – sempre a mesma! – até a consumação dos séculos; e é também Pastor dos cordeiros e das ovelhas que Jesus Cristo mandou que ele apascentasse. Mas os homens que fazem parte da Igreja não são sempre os mesmos; o grau de fidelidade deles à Igreja à qual pertencem pode sempre ser maior ou menor – mistérios da liberdade humana! – e, no entanto, são estes os homens, imperfeitos e pecadores, que a Igreja precisa salvar, são estas as ovelhas, preguiçosas e sarnentas, que o Papa precisa conduzir.

E, no entanto, elas não querem ser conduzidas…! Queixa-se o Santo Padre; a Cruz talvez afigura-se-lhe pesada demais, o cálice quiçá descortina-se-lhe amargo em demasia, mas ao humano queixume segue-se a divina resolução – como outrora no Jardim das Oliveiras – e, a despeito do quanto seja difícil, é como se desse para ouvir o Santo Padre dizer ao Todo-Poderoso: non sicut ego volo sed sicut tu. O Cálice é amargo, a Cruz é terrível, mas o Papa está disposto a entorná-lo até o fim, a sangrar dependurado até a morte, para ser fiel ao ministério petrino que o Senhor lhe mandou exercer.

Non sicut ego volo sed sicut tu – bem que as ovelhas poderiam fazer esta mesma oração, dirigidas ao Sucessor de Pedro, ao Doce Cristo na Terra: Santo Padre, que seja feito não como nós queremos, mas como Tu queres! Bem que as ovelhas poderiam tornar menos penosos os sofrimentos de Bento XVI. Bem que elas poderiam deixar-se conduzir com maior docilidade. Acaso sonho alto demais…? Não creio. Que os desabafos do Vigário de Cristo possam tocar os fiéis católicos; e que estes se esforcem, cada um naquilo que lhe compete, para que possam realmente cerrar fileiras em torno do Papa, para que, sob o Seu cajado, possam ser enfim conduzidos à Bem-Aventurança Eterna onde são aguardados. Oremus pro Pontifice nostro Benedicto; Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius. Amen.

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3 thoughts on “O desabafo de Bento XVI

  1. Julie Maria

    Não tenho dúvida da solidão deste gigante da fé. E no entanto, como Paulo VI ao escrever Humana vitae ao mesmo tempo que era atacado por todos os lados, tinha a certeza de estar afirmando, ensinando, esclarecendo, aprofundado a verdade da fé católica e por isso, com que paz o fazia! Não a paz que o mundo oferece, mas a paz de Cristo, paz que é unida -como você maravilhosamente colocou – com o cálice e a cruz.

    Papa Bento XVI sabia da crise da Igreja, melhor do que ninguém: 23 anos na frente da Congregação que recebia exatamente o que se passava de “pior” no Corpo Místico de Cristo. E não há como não ver a Amorosa e Sapientíssima Providência Divina de dar, a este mesmo zeloso sacerdote de Nosso Senhor, as chaves do Reino e a missão de ser Vigário de Seu Filho, quando seus planos eram bem outros…

    Por sua missão na Congregação (e vemos isso seus escritos, muitos dos quais não temos aqui no Brasil traduzidos), ele tem consciência que está numa época onde a eterna luta do “mal e o bem” se vê claramente no interior da Santa Igreja, como já falou também Paulo VI. E no entanto, pela spes salvi eu creio que ele, no meio de tanta solidão sente-se reconfortado por pequenos gestos humanos que o consolam em suas profundas dores pelos filhos pródigos Filhos que todos somos, de alguma forma ou de outra.

    Ele sabe que existem pessoas que estão dispostas, com a graça divina, a dar a vida por ele, pela Igreja, pela fé católica… por Nosso Senhor Jesus Cristo !!! Ele sabe que nesta provação imensa que a Santa Igreja está atravessando, sairá uma primavera de santos, e que ele do céu irá contemplar a obra que foi possível porque ele disse FIAT, contrariando seus planos de viver com seu irmão e escrevendo teologia… Ah, um santo temos como Petrus hoje.

    Eu tenho medo sabe do que? Medo de não render meus talentos quando Deus me concedeu, nada menos, que estes gigantes como Papas durante minha peregrinação nesta terra. Não terei nenhuma desculpa por esconder os Seus talentos, pois como Cabeça do Corpo que sou membro, está um verdadeiro pai, que me ama, me acolhe, me exorta, me anima, me corrige. Me torna sua filha. Ter ele como pai, e a Igreja como Mater é a experiência mais bela que eu posso ter na minha vida. Que todos possam provar isso algum dia…

    E sim, rezemos muito por ele, e por nós: que se faça Santo Padre SUA VONTADE! Amém.

    PAX

    Julie Maria

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