Os paradoxos do Cristianismo – Chesterton

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Este estranho efeito provocado pelos grandes agnósticos, de levantarem dúvidas ainda mais profundas do que as suas próprias, poda ser exemplificado de várias maneiras. Citarei apenas uma. Quando li e reli todos os relatos não-cristãos e anticristãos a respeito da Fé, de Huxley a Bradlaugh, logo uma lenta e horrível impressão gravou-se, gradual mas graficamente, sobre o meu espírito – a impressão de que o Cristianismo devia ser algo extraordinário. De fato, o Cristianismo (como eu o entendia) tinha os mais  violentos vícios, mas tinha também, aparentemente, o místico talento de conciliar defeitos que pareciam incompatíveis entre si. Atacavam-no por todos os lados e pelas mais contraditórias razões. Assim que um racionalista acabava de demonstrar estar o Cristianismo demasiadamente longe para o leste, outro vinha demonstrar, com igual clareza, que ele estava muito mais longe para o oeste. E tão logo minha indignação esmorecera perante sua angular e agressiva quadratura, logo minha atenção era despertada para observar e condenar sua enervante e sensual esfericidade. Caso algum leitor não tenha compreendido o que quero dizer, dar-lhe-ei tantos exemplos quantos, ao acaso, lembrar-me a respeito desta auto-contradição do ataque cético. Começarei por apresentar quatro ou cinco exemplos; existem mais de cinqüenta.

Por exemplo, deixei-me influenciar bastante pelo eloqüente ataque contra o Cristianismo por sua desumana melancolia, pois sempre pensei (e ainda penso) que o pessimismo sincero é o pecado imperdoável. O falso pessimismo é uma realização social, mais aceitável do que qualquer outra coisa e, felizmente, quase todo o pessimismo carece de sinceridade. Mas, se o Cristianismo fosse, como se costumava dizer, algo meramente pessimista e contrário à vida, então eu estaria inteiramente disposto a mandar pelos ares a Catedral de S. Paulo. O mais extraordinário, porém, é o seguinte: provaram-me, no Capítulo I (para minha absoluta satisfação), que o Cristianismo era demasiadamente pessimista; mas, depois, no Capítulo II, provaram-me que ele era, em grande parte, otimista demais. Uma das acusações contra o Cristianismo era a de que ele impedia os homens, por meio de lágrimas e terrores mórbidos, de procurarem a alegria e a liberdade no seio da Natureza. Outra acusação, porém, era que ele confortava os homens com uma fictícia providência e os colocava numa creche rosa e branca. Um grande agnóstico perguntava por que motivo a Natureza não era suficientemente bela, e por que razão custava tanto ser livre. Outro agnóstico argumentava que o otimismo cristão – “esse vestido ‘de mentirinha’ tecido por mãos piedosas” – escondia de nós o fato de que a Natureza era feia e que era impossível ser livre. Quando um racionalista classificava o Cristianismo como um pesadelo, já outro começava a chamá-lo de paraíso dos tolos. Isso me intrigavam porque tais acusações pareciam-me incompatíveis. O Cristianismo não podia ser, ao mesmo tempo, uma máscara preta sobre um mundo branco e uma máscara branca sobre um mundo preto. A situação de um cristão não podia ser, ao mesmo tempo, tão confortável a ponto de ser ele um covarde para prender-se a ela, ou tão desconfortável a ponto de ser um tolo para nela permanecer. Se o Cristianismo deturpava a visão humana, devia deturpá-la de uma forma ou de outra: o cristão não poderia usar, ao mesmo tempo, óculos verde e óculos cor-de-rosa. E, como todos os rapazes daquele tempo, eu repetia com terrível alegria as zombarias que Swinburne proferia contra a monotonia do credo:

“Venceste, ó pálido Galileu, e o Mundo tornou-se sombrio com o Teu hálito”.

Mas, quando li as narrativas deste mesmo poeta acerca do paganismo (como em “Atlanta”), cheguei à conclusão de que o Mundo era ainda mais sombrio, se isso fosse possível, antes do Galileu bafejá-lo com o seu sopro, do que depois disso. Certamente o poeta afirmava, em abstrato, que a própria vida era escura como breu. E no entanto, de uma forma ou de outra, o Cristianismo a tinha obscurecido ainda mais. O mesmo homem que acusava o Cristianismo de pessimismo era, ele próprio, um pessimista. Achei que devia haver algo errado. E, num momento de exaltação, veio-me à mente a idéia de que aqueles talvez não fossem os melhores juízes da relação entre a religião e a felicidade, pois não possuíam nem uma coisa nem outra.

Deve-se compreender que não concluí, apressadamente, que as acusações eram falsas ou que os acusadores não passavam de loucos. Apenas deduzi que o Cristianismo deveria ser algo mais estranho e perverso do que se pretendia afirmar. Uma coisa pode ter esses dois defeitos opostos, mas era necessário que fosse bastante estranha para poder concentrar tais características. Um homem podia ser muito gordo em uma parte do corpo e muito magro em outra, mas seria preciso que tivesse uma compleição deveras singular. Nesse ponto, todos os meus pensamentos centravam-se, apenas, na bizarra forma da religião cristã, sem atribuir qualquer forma bizarra ao pensamento racionalista.

Segue-se outro caso semelhante. Uma das coisas que eu julgava que mais depunham contra o Cristianismo era a acusação que lhe faziam, de que havia algo de tímido, de monacal e de desumano em tudo o que se costuma chamar de “cristão”, especialmente sua atitude perante a resistência e a luta. Os grandes céticos do século XIX eram, em grande parte, viris. Bradlaugh, de forma expansiva, e Huxley, de forma reservada, eram, decididamente, homens. Em comparação, parecia aceitável que existisse algo de fraco e de excessivamente paciente nos ensinamentos cristãos. O paradoxo do Evangelho acerca da outra face, o fato dos padres nunca lutarem em guerras, uma centena de coisas, enfim, tornava plausível a acusação de que o Cristianismo era uma tentativa de transformar o homem em um cordeiro. Li isso e acreditei, e, se não tivesse lido nada diferente, continuaria a acreditar. No entanto, li algo muito diferente depois. Virei a página seguinte do meu manual agnóstico, e logo meu cérebro ficou de pernas para o ar. Descobri, então, que tinha de odiar o Cristianismo, não por combater pouco, mas por combater demasiado. A religião cristã parecia a mãe das guerras. O Cristianismo tinha inundado o mundo em sangue. Eu, que havia ficado zangado com o Cristianismo por ele nunca se zangar, tinha, agora, de zangar-me com ele, porque sua fúria havia sido a coisa mais horrível e mais monstruosa da História da Humanidade. O seu ódio embebera-se na Terra e fumegara até o Sol. As mesmas pessoas que criticavam o Cristianismo por sua mansidão e pela não-resistência dos mosteiros eram as que vinham, agora, acusá-lo pela violência e pela bravura das Cruzadas. Fora por culpa do pobre e velho cristianismo (de uma forma ou de outra) que Eduardo, o Confessor, não combatera, e Ricardo Coração de Leão, sim. Os Quackers (assim ouvíamos dizer) eram os únicos cristãos típicos e, no entanto, os massacres de Cromwell e de Alba eram crimes tipicamente cristãos. O que tudo isso queria dizer? Que Cristianismo era este que sempre proibia as guerras e sempre estava a provocá-las? Qual poderia ser a natureza de uma coisa que era insultada, primeiramente, por não combater e, depois, por estar sempre envolvida em lutas? Em que mundo de enigmas se gerara esse monstruoso assassino e essa monstruosa mansidão? A forma do Cristianismo tornava-se mais estranha a cada instante.

Passo, agora, ao terceiro caso; o mais estranho de todos, porque envolve uma objeção real contra a Fé. A única objeção real contra a religião cristã é o fato [de] ser ela uma religião. O Mundo é um grande lugar, habitado por povos das mais diferentes espécies. O Cristianismo (parece-me razoável fazer esta afirmação) está limitado a um tipo de povo: surgiu na Palestina, e, praticamente, parou na Europa. Esse argumento impressionou-me fortemente na mocidade, e senti-me como que arrastado para a doutrina que sempre fora pregada nas sociedades éticas, isto é, a doutrina segunda a qual existe uma grande e inconsciente igreja que pertence a toda a Humanidade, fundada sobre a onipresença da consciência humana. Os credos – dizia-se então – dividiam os homens, mas a moral ao menos acabava por uni-los. A alma podia procurar as mais estranhas e mais remotas terras e épocas, e, ainda assim, encontraria o essencial senso comum ético. Podia encontrar Confúcio sob as árvores do Ocidente, mas encontrá-lo-ia escrevendo: “Não roubarás”. Podia decifrar os mais obscuros hieróglifos encontrados no mais primitivo deserto, e o seu significado, depois de decifrado, seria este: “Os meninos devem dizer a verdade”. Eu acreditava nesta doutrina da irmandade de todos os homens que diz respeito à posse de um senso moral, e nela acredito ainda, como acredito em outras coisas. Eu ficava, então, muito irritado com o Cristianismo, porque sugeria (como eu supunha) a idéia de que todas as épocas e impérios dos homens tinham escapado, inteiramente, a esta luz da justiça e da razão. Mas encontrei, depois, algo surpreendente. Verifiquei que as pessoas que diziam ser a Humanidade uma Igreja, de Platão a Emerson, eram as mesmas que afirmavam ter a moralidade mudado totalmente, afirmando, ainda, que o que era considerado certo em uma época já não o era em outra. Se eu pedisse, digamos, um altar, responder-me-iam que não havia necessidade dele, pois os nossos irmãos nos haviam deixado claros oráculos e um credo, nos seus ideais e costumes universais. Mas, se eu, serenamente, argumentasse que um dos costumes universais do homem era ter um altar, então os meus agnósticos mestres virar-se-iam completamente e responder-me-iam que os homens sempre tinham estado mergulhado nas trevas e nas superstições dos selvagens. Verifiquei que seu constante desdém em relação ao Cristianismo era por ser ele a luz de um povo, enquanto deixava todos os outros morrerem nas trevas. No entanto, pude também observar que era para eles motivo especial de orgulho o fato de serem a ciência e o progresso a descoberta de um povo, enquanto todos os outros povos jaziam na escuridão. O seu principal insulto contra o Cristianismo era, efetivamente, para eles, motivo de glória, e parecia uma estranha injustiça toda a sua relativa insistência nesses dois aspectos. Ao considerarmos algum pagão ou agnóstico, era forçoso lembrarmo-nos de que todos os homens tinham uma religião; ao considerarmos algum místico ou espiritualista, tínhamos apenas de ponderar as absurdas religiões que alguns homens professavam. Podíamos acreditar na ética de Epicteto porque a ética nunca tinha mudado, mas não devíamos acreditar na ética de Bossuet porque a ética tinha mudado. Operara-se uma mudança em duzentos anos, mas não em dois mil.

Tudo isso começava a parecer alarmante. Não que o Cristianismo fosse suficientemente mau para agregar em si todos os defeitos, mas qualquer vara era suficientemente boa para açoitar a religião cristã. A que poderíamos comparar esta coisa extraordinária que todos estavam ansiosos por contradizer, sem mesmo repararem que, assim procedendo, contradiziam a si próprios? Observei o mesmo em todo o lugar. Não posso dispor de mais espaço para esta discussão em todos os seus pormenores, mas, para que não se suponha que estive selecionando, injustamente, três casos aleatórios, mencionarei, rapidamente, alguns outros. Alguns céticos descreveram que o grande crime do Cristianismo tinha sido o seu ataque contra a família. O Cristianismo arrastava as mulheres para a solidão e para a vida contemplativa de um mosteiro, longe de seus lares e de seus filhos. Mas logo outros céticos (ligeiramente mais avançados) vinham dizer que o grande crime do Cristianismo era forçar-nos ao casamento e à constituição da família, condenando as mulheres ao duro trabalho do lar e dos filhos, proibindo-lhes a solidão e a vida meditativa. As acusações eram, na verdade, contraditórias. Dizia-se, ainda, que algumas palavras das Epístolas ou do Rito do Matrimônio revelavam desprezo pelo intelecto das mulheres. No entanto, concluí que os próprios anticristãos sentiam desprezo pelo intelecto das mulheres, porque seu grande desdém pela Igreja no continente era devido ao fato de afirmarem que “só as mulheres” a freqüentavam. Outras vezes, o Cristianismo era censurado por seus trajes indigentes e pobres, por seu burel e suas ervilhas secas. Entretanto, no momento seguinte, o Cristianismo era censurado por sua pompa e ritualismo, seus relicários de pórfiro e suas vestes de ouro. Acusavam-no por ser demasiadamente humilde e por ser demasiadamente pomposo. O Cristianismo era acusado, ainda, de ter sempre reprimido em extremo a sexualidade, quando Bradlaugh, o Malthusiano, descobrira que ele a reprimia muito pouco. De um só fôlego, lançavam-lhe ao rosto uma recatada respeitabilidade e uma religiosa extravagância. Nas capas do mesmo panfleto ateu, fui encontrar a fé censurada por sua falta de união (“uns pensavam uma coisa e outros pensavam outra”) e, ao mesmo tempo, por sua união (“é a diferença de opinião que impede o Mundo de se arruinar”). No decorrer da mesma conversa, um amigo meu, livre-pensador, censurava o Cristianismo por desprezar os judeus e depois desprezava a si mesmo por ser judeu.

Eu desejava ser absolutamente imparcial, como ainda o desejo ser agora, e não concluí que o ataque ao Cristianismo fosse de todo injusto. Concluí apenas que, se o Cristianismo estava errado, estava, sem dúvida, muito errado. Tão hostis terrores poderiam ser combinados em uma só coisa, mas tal coisa devia ser bem estranha e única. Há homens que são avarentos e, ao mesmo tempo, perdulários; porém, são raros. Há também homens lascivos e, ao mesmo tempo, ascéticos, mas estes também são raros. Mas, se este amálgama de loucas contradições realmente existisse, pacifista e sanguinário, suntuoso e maltrapilho, austero e lascivo, inimigo das mulheres e seu tolo refúgio, pessimista declarado e otimista ingênuo, se este mal existisse, então haveria nele algo de supremo e único. De fato, não encontrei nos meus mestres racionalistas explicação alguma para tal excepcional corrupção. O Cristianismo (teoricamente falando) era, a seus olhos, apenas um dos mitos ordinários e um dos erros dos mortais. Eles não me davam a chave para esta retorcida e desnatural maldade. Esse mal assumia as proporções do sobrenatural. Era, sem dúvida, quase tão sobrenatural como a infalibilidade do papa. Uma instituição histórica que nunca se mostrou acertada é um milagre tão grande como uma instituição que nunca pode errar. A única explicação que imediatamente me ocorreu à mente foi que o Cristianismo não viera do céu, mas do inferno. Na verdade, se Jesus de Nazaré não fosse Cristo, devia ter sido o Anticristo.

G. K. Chesterton, “Ortodoxia”, pp. 114-121. Ed. LTr, São Paulo, 2001.

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19 thoughts on “Os paradoxos do Cristianismo – Chesterton

  1. R. B. Canônico

    Como assim qual a intenção?

    A intenção é que as pessoas leiam, e quem deve comentar são os leitores, não o Jorge!

    O fato é que com as hordas céticas torrando a paciência de todos por aqui, nada melhor do que um texto como esse para fazer o pessoal pensar.

  2. Jorge Ferraz Post author

    Alexandre,

    Chesterton é genial! E esse texto em particular é tão bom que eu não ousaria maculá-lo com minhas considerações… :)

    Quando publiquei esse texto, pensava justamente nos ataques descabidos à Igreja que vemos quotidianamente (inclusive aqui no Deus lo Vult!), como se Ela fosse a causa de todas as mazelas do mundo. E as palavras do terrível polemista inglês caem como uma luva: se a Igreja fosse o que os seus detratores dizem que Ela é, seria uma “excepcional corrupção” que “assumi[ri]a as proporções do sobrenatural”. Na verdade, o próprio desperdício de tempo e energia dos anti-clericais em difamar a Igreja dá testemunho em favor d’Ela.

    Abraços,
    Jorge

  3. Alexandre Magno

    R. B. Canônico, é provável que você tenha se apressado tratando comigo dessa maneira. Minhas perguntas não foram para prejudicar o Jorge. Foram simples perguntas de quem ignora as respostas; como deve ser.

    O fato é que com as hordas céticas torrando a paciência de todos por aqui, nada melhor do que um texto como esse para fazer o pessoal pensar.

    Aff! R. B. Canônico, você, por algum dom sobrenatural, já “sabe” o que a partir do meu primeiro comentário?

    Desculpe-me, mas é o que pareceu: que você pretendeu saber de algo (sobre minha intenção) de modo sobrenatural. Eu, pelo contrário, perguntei ao Jorge:

    Qual foi a sua intenção ao colocar esse texto aqui?

    Ele, como autor do blog, sempre está expressando suas opiniões, “comentando” (não necessariamente na área de comentários, mas dentro mesmo dos posts). O leitores podem comentar, e o Jorge também. Normalmente o Jorge faz isso: comenta; é verdade, geralmente, não quando reproduz os textos na íntegra, mas quando os referencia. Todavia, estranhei o fato dele não dizer uma palavra, pois o texto em questão apresenta facetas… que podem “complicar”.

  4. Alexandre Magno

    Jorge Ferraz:

    “Chesterton é genial! E esse texto em particular é tão bom que eu não ousaria maculá-lo com minhas considerações… :)”

    Nossa! Talvez eu tenha lido o post de uma maneira “distraída”, e não esteja vendo direito. Mas um problema que estou vendo é que o texto não parece colocar um “ponto final”. Ele deixa como opção a terrível escolha de se ter Jesus como o Anticristo.

    Chesterton:

    “A única explicação que imediatamente me ocorreu à mente foi que o Cristianismo não viera do céu, mas do inferno. Na verdade, se Jesus de Nazaré não fosse Cristo, devia ter sido o Anticristo.”

    Eu já tinha feito essa infeliz reflexão, mas não ousei exteriorizá-la, nunca, pois ela pode muito facilmente confundir a muitos. Se era Chesterton “genial”, eu não sei. O que sei é que essa reflexão aí não é genial! Aliás, encaro ela como uma armadilha.

    Jorge Ferraz:

    Quando publiquei esse texto, pensava justamente nos ataques descabidos à Igreja que vemos quotidianamente (inclusive aqui no Deus lo Vult!), como se Ela fosse a causa de todas as mazelas do mundo. E as palavras do terrível polemista inglês caem como uma luva: se a Igreja fosse o que os seus detratores dizem que Ela é, seria uma “excepcional corrupção” que “assumi[ri]a as proporções do sobrenatural”. Na verdade, o próprio desperdício de tempo e energia dos anti-clericais em difamar a Igreja dá testemunho em favor d’Ela.

    Pelo que eu já disse e por outras, eu não concordo que esta seja das melhores estratégias para defender a Igreja e procurar salvar almas. Fazendo uso dela muito facilmente a confusão é semeada, principalmente quando não se sabe o nível formativo do leitor.

  5. Jorge Ferraz Post author

    Alexandre, caríssimo,

    Sinceramente, não vejo como “a terrível escolha de se ter Jesus como o Anticristo” possa ser uma opção intelectualmente válida para quem quer que leia o texto.

    Primeiro, porque a ironia é evidente nas próprias expressões usadas (já que, não havendo Cristo, não pode tampouco haver o Anticristo), segundo porque a caricatura de Igreja apresentada pelos anti-clericais, caricaturizada ainda mais por Chesterton – “[u]ma instituição histórica que nunca se mostrou acertada” – não pode ser confundida com a Igreja Católica por quem mantém as suas faculdades mentais minimamente intactas, terceiro porque o texto foi escrito para combater agnósticos, para os quais a hipótese do Cristianismo ter vindo “do inferno” simplesmente não faz sentido – o que só dá mais ênfase à ironia.

    Não se trata de uma “reflexão” apresentada como uma hipótese minimamente plausível, e sim como uma zombaria ao modus operandi dos anti-clericais que não percebem a inverossimilhança de seus ataques à Igreja. Este texto presta-se a uma muito bem feita e bem humorada reductio ad absurdum para desmontar os ataques anti-clericais.

    Não te parece que isso seja evidente?

    Abraços,
    Jorge

  6. Alexandre Magno

    Léo indicou, para quem nunca ouviu falar do genial Chesterton, o texto “Quem é esse sujeito, e por que nunca ouvi falar dele?“, que está no site Veritatis Splendor.

    Lá eu encontrei:

    …E POR QUE NUNCA OUVI FALAR DELE?

    Há três respostas possíveis para essa pergunta:

    1. Não sei.
    2. Você foi enganado.
    3. Chesterton é o escritor mais injustamente desprezado do nosso tempo. […]

    Agora eu estou suspeitando que fui enganado!

    No texto referenciado acima encontrei:

    […] você não pode considerar se educado enquanto não ler o Chesterton completo. Além disso, ler todo o Chesterton é por si só uma educação quase completa.[…]

    Certamente um exagero! Digo isso mesmo sem conhecer o que o homi disse porque esse mérito é demais para qualquer um que não seja o Senhor. Mas…

    Apesar disso, e apesar da minha primeira impressão sobre o texto do post, que “por acaso” é dele, eu fiquei com muita vontade ler Chesterton.

    Encontramos textos traduzidos desse homem onde? Já estive pelo site da The American Chesterton Society.

  7. Manzoni

    Alexandre

    Há comunidades no orkut que trazem links para textos de Chesterton em português. Se não encontrar, avise-me que lhe indico uma boa.

  8. Sue

    Alexandre, um pequeno problema de interpretação de texto impediu você de perceber a declaração de Chesterton de que NÃO HÁ POSSIBILIDADE LÓGICA DE JESUS SER UM SER HUMANO COMUM. Mais, ele diz que Jesus É o Cristo e a única alternativa para ele ser o Cristo é ele ser o seu oposto, nunca algo diferente disto: “Na verdade, se Jesus de Nazaré não fosse Cristo, devia ter sido o Anticristo.”

    Ou seja, o que ele diz é que não há de se escapar do aspecto sobrenatural da Igreja, MESMO SENDO OPOSITOR DELA. Ele usa o exagero estilístico de forma verdadeiramente genial, mostrando num caleidoscópio de informações conflitantes que os detratores da Igreja NÃO CONSEGUEM EM NENHUM MOMENTO TER UMA VISÃO COMPLETA DELA e caem em constante contradição nas suas observações.

    Chesterton é meu escritor favorito! É difícil de achar neste país ignorante e sem preocupação literária, mas quem achar em um sebo “Dois Alqueires e Uma Vaca” por favor, comprem!

    Abraços fraternais a todos

    Sue

  9. Alexandre Magno

    Jorge Ferraz:

    Sinceramente, não vejo como “a terrível escolha de se ter Jesus como o Anticristo” possa ser uma opção intelectualmente válida para quem quer que leia o texto.

    Como ter Anticristo sem Cristo?

    De fato, na minha fala reproduzida por você “o Anticristo” quiz significar “o Mal”. Apesar de que… para além disso, o Anticristo poderia estar presente sem o Cristo ter “vindo”. Ou não?

    Talvez minha percepção sobre o texto esteja mesmo falha, e até muito falha. Ainda que esteja (não o li novamente ainda, com mais calma), posso dizer que você está pressupondo, pelo menos, que:

    (1) os leitores estão todos cultivando com afinco a intelectualidade, sempre apegados à lógica;

    (2) os leitores não têm dúvidas existenciais, ou a respeito de Deus, do Bem e do Mal, e da salvação da almas, e estão com Fé sempre firme;

    (3) [você está pressupondo que] ainda que o texto não seja uma “reflexão”, as pessoas não possam fazer ou continuar reflexões a partir dele.

    Jorge Ferraz:

    Primeiro, porque a ironia é evidente nas próprias expressões usadas (já que, não havendo Cristo, não pode tampouco haver o Anticristo),

    Para quem está preparado e quer abraçar o senso de ironia.

    Sobre o “não havendo Cristo, não pode tampouco haver o Anticristo”, já falei acima.

    Jorge Ferraz:

    segundo porque a caricatura de Igreja apresentada pelos anti-clericais, caricaturizada ainda mais por Chesterton – “[u]ma instituição histórica que nunca se mostrou acertada” – não pode ser confundida com a Igreja Católica por quem mantém as suas faculdades mentais minimamente intactas,

    Pois é. O que seriam essas “faculdades mentais minimamente intactas“? Essa expressão, principalmente nesse contexto, está carregada de subjetividade, de indeterminação.

    Como pensar sobre aquelas pessoas que não conhecem a Igreja, como ela é (e precisam conhecê-la)? Muitas delas se satisfazem com caricaturas. Você lembrou disso?! Será que Chesterton – por mais “genial” que ele possa ter sido – lembrou disso? Ele pode ter “escolhido” ensinar para quem já sabia, e um ensino assim pode ser desastroso quando chega a alguém que precisa ainda aprender (uma base).

    Jorge Ferraz:

    terceiro porque o texto foi escrito para combater agnósticos, para os quais a hipótese do Cristianismo ter vindo “do inferno” simplesmente não faz sentido – o que só dá mais ênfase à ironia.

    Só dá mais ênfase à ironia? Por que, se a noção se inferno não serve para eles?

    Jorge Ferraz:

    Não se trata de uma “reflexão” apresentada como uma hipótese minimamente plausível,

    Posso concordar isso. Mas o tal texto pode sim suscitar ou alimentar “uma relfexão apresentada como um hipótese minimamente plausível”. Volto a dizer: não penso que seja das melhores estratégias para defender a Igreja e procurar salvar almas.

    Jorge Ferraz:

    e sim como uma zombaria ao modus operandi dos anti-clericais que não percebem a inverossimilhança de seus ataques à Igreja.

    Um zombaria que pode custar caro: algumas almas, que estão desgovernadas.

    Jorge Ferraz:

    Este texto presta-se a uma muito bem feita e bem humorada reductio ad absurdum para desmontar os ataques anti-clericais.

    Somente se se restringe ao conjunto finito de proposições proposto por ele mesmo (implícita ou explicitamente).

    Jorge Ferraz:

    Não te parece que isso seja evidente?

    Não, como acabei de falar. Aliás, o “evidente” pode nos trair. Aliás, quero aproveitar e dizer que, por vezes, quando se diz “mas é evidente…” se está fazendo um redução.

    Mas eu ainda vou fazer outras leituras e avaliações…

    Não lhe ocorreu que, apesar do texto ser bem humorado, alguns raciocínios que ele “planta” podem ser “sólidos” demais e engasgar?

  10. Alexandre Magno

    Sue:

    “Alexandre, um pequeno problema de interpretação de texto impediu você de perceber a declaração de Chesterton de que NÃO HÁ POSSIBILIDADE LÓGICA DE JESUS SER UM SER HUMANO COMUM.”

    No literal eu não encontrei essa “declaração”. Então, por favor, para me pouparem palavras, dêem uma olhadinha no meu último comentário das falas de Jorge. Observem lá sobre o pressuposto de “que os leitores estão todos cultivando com afinco a intelectualidade, sempre apegados à lógica“.

    Sue:

    “Ele [Chesterton] o exagero estilístico de forma verdadeiramente genial, mostrando num caleidoscópio de informações conflitantes que os detratores da Igreja NÃO CONSEGUEM EM NENHUM MOMENTO TER UMA VISÃO COMPLETA DELA e caem em constante contradição nas suas observações.”

    Pois é. Essa parte, assim como outras (certamente), é muito útil. Diante dessa conclusão de que os detratores da Igreja “NÃO CONSEGUEM EM NENHUM MOMENTO TER UMA VISÃO COMPLETA DELA” eu quero lembrar a questão: isso significa que eles são MAUS? Pode ser, em alguns a casos, mas (para mim) é melhor considerar que “muitos dos que não compreendem a Igreja e a atacam” precisam de ajuda!

  11. Alexandre Magno

    Manzoni:

    “Há comunidades no orkut que trazem links para textos de Chesterton em português.”

    Seria interessante o aproveitamento do momento, e termos algo fora do Orkut, aqui, talvez. Na verdade, eu não uso Orkut! :-)

  12. Alexandre Magno

    As duas falas a seguir são de G. K. Chesterton. Elas foram extraídas da (amostra de) tradução de Ortodoxia que é encontrada no site Mundo Cristão.

    Se eu oferecesse todas as minhas razões para ser cristão, a grande maioria seria exatamente as razões que o senhor Blatchford [editor de um periódico socialista] daria para não o ser.

    Certo, aqui nós podemos lembrar do que a Sue falou: “os detratores da Igreja NÃO CONSEGUEM EM NENHUM MOMENTO TER UMA VISÃO COMPLETA DELA e caem em constante contradição nas suas observações”.

    Para responder ao cético arrogante, não adianta insistir que deixe de duvidar. É melhor estimulá-lo a continuar a duvidar, para duvidar um pouco mais, para duvidar cada dia mais das coisas novas e loucas do universo, até que, enfim, por alguma estranha iluminação, ele venha a duvidar de si próprio.

    Já aqui, parece que pouco importa a Chesterton a crise que ele pode “oferecer” aqueles ignorantes. Isso pode começar a nos ajudar a entender como Chesterton (não) lidava com algumas das questões que eu tenho apresentado.

  13. Pingback: Deus lo Vult! » A qualidade dos ataques à Igreja

  14. Roberto Pires

    Excelente texto.
    Marcou o trecho em que o autor reflete sobre a incredibilidade das analogias cépticas entre felicidade e religião.

  15. Alexandre Magno

    Em 10 June 2009 at 1:15 pm, Jorge Ferraz escreveu:

    […] como se Ela [a Igreja Católica Apostólica Romana]  fosse a causa de todas as mazelas do mundo. [!] E as palavras do terrível polemista inglês [Chesterton] caem como uma luva: se a Igreja fosse o que os seus detratores dizem que Ela é, seria uma “excepcional corrupção” que “assumi[ri]a as proporções do sobrenatural”

    Hoje, depois de ter lido Ortodoxia, O Homem Que Foi Quinta-feira: um Pesadelo, algum conto com o Padre Brown, e alguns dos textos publicados pelo Blog do Angueth, percebo que Chesterton usa muito a exposição de paradoxos, deixando indeterminações propositalmente, confiando que o leitor terá sempre, no essencial, o mesmo senso que ele.

    Em 10 June 2009 at 5:58 pm, Jorge Ferraz explica concluindo:

    Não se trata [quanto ao texto do post acima] de uma “reflexão” apresentada como uma hipótese minimamente plausível, e sim como uma zombaria ao modus operandi dos anti-clericais que não percebem a inverossimilhança de seus ataques à Igreja. Este texto presta-se a uma muito bem feita e bem humorada reductio ad absurdum para desmontar os ataques anti-clericais.

    Não te parece que isso seja evidente?

    Pode até ser, no caso vislumbrado. Mas hoje acrescento: não, não me aparece esse tipo de evidência em algumas leituras que faço de Chesterton.

    Hoje oportunamente observo que realmente há dificuldade para separar senso comum da subjetividade de quem quer que seja, como aponta Aldrovando Cantagalo em 21 October 2011 at 6:52 pm, no post “Feto é autor de processo por ofensa à honra. Sim, FETO”.

    Ali, Jorge havia escrito:

    Descobrir a irrelevância de uma agressão gratuita lançada em tweet não-replicado de um Zé-Ninguém é questão de bom senso, é fruto de percepção básica do mundo.

    Ao que Aldrovando comentou:

    É fruto da humildade de espírito não confundir os próprios critérios subjetivos e opiniões pessoais com uma “percepção básica do mundo”.

    O assunto é outro, aqui nesta página, e não é o Jorge, mas achei oportuno fazer agora o link entre as duas conversas.

    E mudando o assunto…

    Em 10 June 2009 at 6:55 pm eu dizia: «eu fiquei com muita vontade ler Chesterton». Com certeza Chesterton é realmente um ótimo autor!

    Em 10 June 2009 at 7:44 pm, Manzoni me indicou o Orkut. Mas eu acabei encontrando muito material de Chesterton por outros meios: Google Books, Resposta Católica, Blog do Angueth etc.

    Acima, seguiu-se uma série de comentários, o que desenvolveu a conversação. Hoje eu venho aqui para dizer que:

    Eu prefiro mesmo é ler os livros em papel…

    Quero ler Hereges e O Homem Eterno.

    Então, se alguém tem livros de Chesterton para trocar, por favor, escreva-me declarando interesses. Talvez eu possa satisfazer algum.

    Podemos usar o sistema LivraLivro para mediar a transação; ou eu posso comprar seu livro, pelo Mercado Livre.

    Novidade

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    Comentários? [email protected]

    Para fazer esses testes eu estou aproveitando comentários que estão como “não-lido” no meu Gmail. Com o novo editor assistente TinyEd está sendo muito mais fácil e ligeiro avaliar, aproveitar, redigir e submeter comentários.

  16. André Gomes Quirino

    Ao lado de G. K. Chesterton, François Mauriac, Paul Claudel e Walker Percy, o francês Georges Bernanos figura entre os grandes escritores cristãos do século XX, ao ponto de o grande teólogo alemão Hans Urs von Balthasar ter-lhe dedicado um livro inteiro. Sua obra tem sido publicada no Brasil pela É Realizações Editora, e agora sua passagem pelo país é narrada ao público local. O estudo de Sébastien Lapaque “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)” acaba de ser publicado, trazendo à luz a visita de Bernanos a várias cidade do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sua estadia no sítio Cruz das Almas, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

    Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro: http://goo.gl/O8iFve e http://goo.gl/ymS4lL
    Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

    Confira também:
    Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
    Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
    Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z
    Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
    Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
    Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm