Igreja Católica e politicagem eclesial

closeAtenção, este artigo foi publicado 6 anos 3 meses 5 dias atrás.

Eu havia lido este artigo nonsense publicado pelo Correio do Brasil. Pode ser classificado simplesmente como “lixo” por uma série de motivos, entre os quais pode-se destacar:

a) não existe no país uma “ultradireita católica”;
b) caso existisse, certamente ela se identificaria mais com os “conservadores” do que com os progressistas;
c) a Igreja não se identifica com os “progressistas” (como o título dá a entender);
d) as comparações com a política (p.ex., falar em setores da Igreja “no campo da centro-direita” (sic)) simplesmente não se aplicam à Igreja;
e) nunca existiu uma “campanha de difamação contra Dilma Rousseff” nos panfletos escritos pela Regional Sul 1 para as eleições presidenciais de outubro passado;
f) etc.

O artigo é tão ruim – mas tão ruim – que eu imediatamente o associei àquele tipo particularmente calhorda de mídia que pode ser classificada simplesmente como máquina de propaganda da mentira (por mais deslavada que seja), com o objetivo de fazê-la passar por verdade por mera força da repetição. Os fatos praticamente se perdem e só a muito custo são encontrados por debaixo da torrente ideológica despejada pelo artigo. O “esquema” (de apresentar a Igreja como um reflexo do [rascunho mais superficial do] jogo político brasileiro) simplesmente não comporta a realidade eclesial e, portanto, todo o longo e enfadonho artigo possui desde o começo um vício de princípio que o compromete totalmente – é já natimorto.

A Igreja não pode ser entendida por meio da simplificação grosseira de “direita” e “esquerda” (relativamente) válidas na esfera política. A Igreja existe antes da política poder ser dividida em “esquerda e direita”. Aliás, a própria política é muito mais complicada do que isto e, quando se vai analisar a Igreja, é necessário ter em conta outros fatos que não meramente os políticos: a Igreja é uma sociedade perfeita que existe no mundo para perpetuar a obra de salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo e tem por fim precípuo a salvação das almas, uma a uma. O relacionamento da Igreja com os poderes seculares deve ser entendido sempre em subordinação àquele fim, e a própria “política” intramuros da Igreja não cabe no reducionismo maniqueísta dentro do qual alguns querem empurrar a realidade até que ela “caiba” mesmo que à força.

Mas, como às vezes acontece, algumas coisas acidentais acabam sendo interessantes. No caso do artigo do Correio do Brasil, foi o Blogonicvs a notar a fala do excelentíssimo senhor bispo Dom Waldyr Calheiros. Cito-o (o blog, não o bispo): “[e]nquanto nos EUA um cardeal reza pelas vítimas do aborto em frente a um centro de aborto internacional, no Brasil, para o nosso eterno desgosto, alguns bispos pensam (…) que alertar o povo dos perigos de uma candidata que pretende legalizar a morte de inocentes é uma besteira!”. E está muito bem dito.

Quem é, afinal de contas, Dom Waldyr? O Correio do Brasil diz que é da “Diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda”. É uma meia-verdade; Sua Excelência é emérito desde 1999… Sobre os bispos eméritos, é fundamental a leitura deste texto do Oblatvs publicado imediatamente após a eleição de Dom Damasceno para a presidência da CNBB, na semana passada. É verdade que “a reforma católica segue avante, ainda que lentamente!”. Mas ainda estamos muito longe de uma situação minimamente aceitável – e ainda temos muito o que fazer.

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10 thoughts on “Igreja Católica e politicagem eclesial

  1. Pedro

    Puxa, Jorge, mas que texto ruim que você foi arrumar! hehehe

    Ainda tem mais erro esdrúxulo:

    * O panfleto da Regional Sul 1 da CNBB do ano passado (aqui: http://goo.gl/Ko0H) não acusa Dilma de “prócer do comunismo ateu, líder guerrilheira, ladra e assassina.”

    * O panfleto entrou num processo do MP por possível crime eleitoral, e não de difamação. Aliás, se Dilma defendeu a descriminalização do aborto na sabatina da Folha de S. Paulo — tem até vídeo disso na internet — por que haveria difamação em tese?

    * Se a repressão em Volta Redonda aconteceu em 1988 e o regime militar acabou em 1984, não tem como a repressão ter sido feita “pelas forças do regime militar”.

    * Só quem nunca viu a Pastoral da Juventude, a Pastoral Carcerária, a Comissão Pastoral da Terra e a organização do Grito dos Excluídos (só pra ficar nos de maior destaque) para dizer que a alegada ocupação das pastorais por “políticos de carreira (…) deixou espaço para o crescimento do conservadorismo observado na ação dos bispos alinhados a D. Odilo Scherer” (!!!). D. Waldyr está muito mal informado, o jornalista é muito incompetente para não confirmar informações, ou então mente de propósito. Ou tudo isso junto.

    Num texto ruim desse, a única coisa útil que sobrou foi o anúncio de imóvel do Marcel nos comentários =)

    Paz e bem

  2. Ricardo

    Bom, mas em termos de direita, esquerda… Seria algo como esquerda ou direita moderada, centro, extrema esquerda, extrema direita…?

    Certamente não seria de esquerda, ainda mais por tanto combater o comunismo e o socialismo, em acordo com a Igreja. Mas em que grau de “direitismo” você colocaria a TFP?

  3. Aldrovando Cantagalo

    1. D. Waldyr Calheiros? Quando na ativa no episcopado, esse príncipe da Igreja tinha o apelido de “Bispo Vermelho”. Não me perguntem por quê…

    2. Cardeal Scherer conservador? Ué, não foi ele que proibiu ano passado os católicos de fazerem uma passeata contra a candidata abortista Dilma Rousseff?

    3. «a Igreja é uma sociedade perfeita que existe no mundo para perpetuar a obra de salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo e tem por fim precípuo a salvação das almas» Tudo bem, eu acredito nisso. Mas traduza numa linguagem que um não-católico possa entender.

    4. TFP católica? Então por que os tefepistas se recusam a assistir missa (a forma ordinária do rito romano) com os demais católicos? E aquele monte de reza pra Dr. Plinio e Dona Lucilia? Aliás, que eu saiba, a TFP nem existe mais — dividiu-se em dois ramos, o dos “provectos”, que continuam com aquele estilão chá-das-cinco, e a bossa nova do Monsenhor João Clá, que se reconciliou com a Igreja, aceitou o Vaticano II, celebra missa nova e montou uma banda de musica.

  4. Jorge Ferraz Post author

    Aldrovando,

    3. «a Igreja é uma sociedade perfeita que existe no mundo para perpetuar a obra de salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo e tem por fim precípuo a salvação das almas» Tudo bem, eu acredito nisso. Mas traduza numa linguagem que um não-católico possa entender.

    A Igreja é uma instituição com objetivos próprios e que tem n’Ela própria os meios necessários para a obtenção destes objetivos.

    Em suma, o que eu quis dizer é que, diferentemente de outros agrupamentos humanos (sei lá, ONGs que cobram transparência na política ou direitos humanos para criminosos, etc.) que só existem em razão do Estado, as relações entre este e a Igreja são de natureza distinta. O fim do Estado é natural e, o da Igreja, sobrenatural. Para um não-católico, basta entender que os esforços da Igreja são feitos não para a obtenção algum bem-estar material, mas com vistas à remuneração na vida futura. Não faz diferença se o não-católico acredita nisso ou não; basta que ele saiba que a Igreja acredita e, portanto, é com base nestes pressupostos que Ela age no mundo.

    4. TFP católica? Então por que os tefepistas se recusam a assistir missa (a forma ordinária do rito romano) com os demais católicos? E aquele monte de reza pra Dr. Plinio e Dona Lucilia?

    Rapaz, quanto ao “monte de reza”, dependendo do que seja isso, cabe como devoção privada, não? E, sobre a Missa, em uma busca ligeira no site da TFP americana eu não encontrei isto…

    Abraços,
    Jorge

  5. Aldrovando Cantagalo

    É que eu fico imaginando o que um não-católico, ou mesmo uma católico ignorante, como o são a esmagadora maioria, pode entender ao ler a frase “a Igreja é uma sociedade perfeita”. Usar esse tipo de expressão sem abrir um parêntese para ao menos uma breve explicação, hoje em dia faz mais mal que bem. Não são os saudáveis que precisam de médico…

    Quanto as rezas a dr. Plinio e dona Lucilia, há um interessante parecer de d. Antonio de Castro Mayer:

    Resposta de Dom Mayer
    “Sobre a Ladainha acima, de Dona Lucília, devo dizer:
    1- Jamais soube de sua existência. Só agora tomei dela conhecimento, e mesmo assim, indiretamente.
    2- Considerada em si mesma, ela desconhece várias determinações da Santa igreja, contém erros contra a Fé; envolve, em conseqüência, graves conseqüências negativas para a piedade dos que dela se utilizam habitualmente.
    a. ela constitui um pio exercício de culto a pessoa nem canonizada, nem beatificada, condições que devem ser tomadas em consideração mesmo em exercício de culto privado;
    b. Atinge a blasfêmia, uma vez que atribui a outrem invocações com que a santa Igreja engloba prerrogativas para destacar a excelência do culto singular da santidade da Mãe de Deus;
    c. Várias das invocações envolvem graves erros contra a Fé. Assim chamar a Dona Lucília a fonte da Luz (a luz por excelência é Deus Nosso Senhor), Medianeira de todas as nossas graças, e outras. – o mesmo se diga das prerrogativas atribuídas ao correlativo dessas invocações, como “inefável”( só Deus); Doutor da igreja( como se fora “o” Doutor da igreja.
    d. É prejudicial aos que dela fazem uso, sobretudo habitual, pois, insensivelmente vão deformando conceitos próprios de verdades da Fé, como a onímoda transcendência de Deus, estrutura da Santa Igreja, lugar único de Maria Santíssima no plano da redenção, etc.
    Respondendo às perguntas finais:
    À 1ª. A ladainha não é lícita, contraria o Direito canônico;
    À 2ª., não;
    À 3ª., não;
    À 4ª., não.
    Campos, 4 de Novembro de 1983, São Carlos Borromeu, Doutor da Igreja.
    Antonio de Castro Mayer, Bispo.
    Segue-se à assinatura o seguinte texto manuscrito:
    Documentação canônica que cauciona minhas observações:
    a. advertência geral, cânon 1261, § 1º.
    b. ladainhas precisam de aprovação mesmo para culto privado: cânon 1259, § 2º, ver comentário da BAC.
    c. Culto só a pessoas canonizadas ou beatificadas: cânones 1255 a 1256.
    d. Perigo aos fiéis: cânon 1261, § 1º. In fine.

  6. Ricardo

    Quanto ao citado monte de reza, acho que o Aldrovando deve se referir a uma suposta idolatria que o Orlando Fedeli disse que há na TFP ao Plínio.

    Ele escreveu um livro chamado “No país das maravilhas: a gnose…” (tem no site da Montfort).

    Apenas dei uma olhada por cima, então não sei bem o que fala. Mas há algo como uma certa submissão cega ao Plínio e uma certa devoção a ele por isso. O Fedeli também diz que há na TFP uma seita chamada Sempre Viva e um exagerado uso do nome de Maria, algo que já não seria mais hiperdulia mas uma verdadeira idolatria.

  7. Pedro

    Na segunda-feira (dia 16/5) comentei a notícia com basicamente as mesmas palavras do meu comentário aqui, no mesmo dia.

    Adivinha: o comentário lá foi moderado.

    Ou seja, além de falarem (MUITA) besteira, censuram os outros. Que falem para os próprios umbigos, então.