Basta ouvir os fados

closeAtenção, este artigo foi publicado 6 anos 7 meses 12 dias atrás.

Voltando para Recife, relembrando com gosto o tempo de férias. De descanso; viajar rejuvenesce e dá novas forças. Novas idéias. Abre novos horizontes.

A parada forçada em Lisboa fez-me adquirir um CD de fado. Gosto da triste música portuguesa (ok, não é sempre triste; mas gosto particularmente do fado triste português). Em particular, hoje fui e voltei do trabalho ouvindo “Não venhas tarde”. É um primor.

“Não venhas tarde”, / dizes-me tu com carinho. / Sem nunca fazer alarde / do que me pedes baixinho. / “Não venhas tarde!”, / e eu peço a Deus que, no fim, / teu coração ainda guarde / um pouco d’amor por mim!

O sujeito do fado trai a mulher. Tu sabes bem / que eu vou pra outra mulher. / Que ela me prende também, / e eu só faço o que ela quer. Mas ele não conta isso como quem se gaba, como nas músicas que costumamos escutar nos dias de hoje. Ele conta com uma profunda dor de alma, que transparece na melodia triste. Dá quase para perceber o rosto do eu-lírico corando de vergonha ao dizer como age a mulher dele: Tu estás sentindo / que te minto e sou cobarde. / Mas sabes dizer sorrindo: / “Meu amor, não venhas tarde!”.

Sou cobarde! Não, ele não se orgulha do que faz. Ao contrário, tem vergonha. Afirma ser covarde. Afirma rezar para que a mulher ainda tenha amor – um pouco que seja – por ele, ao final. Apesar de tudo. E a mulher não “faz barraco” – sem nunca fazer alarde… – pelo que ele faz. Ao contrário, apenas lhe pede que não volte tarde. Ele, escravo dos seus pecados, sempre cai miseravelmente: E eu volto sempre mais tarde / porque não sei fugir dela. Mas tem consciência – e medo – das conseqüências que podem advir de suas atitudes:

Sem alegria, / eu confesso: tenho medo / que tu me digas um dia: / “Meu amor, não venhas cedo!” / Por ironia, / pois nunca sei onde vais: / que eu chegue cedo algum dia / e seja tarde demais!

Ok, e qual o ponto aqui? É óbvio que esta situação não é bonita, claro que não é um modelo a ser buscado ou uma situação nostálgica de “manutenção de aparências” que se deseje resgatar. O ponto é justamente este: trata-se de uma situação condenável que todos sabem – até o próprio marido infiel – ser condenável. Até o adúltero sabe que está errado!

Lembro-me também d’O Príncipe e o Mendigo do Mark Twain. Em uma certa passagem, quando o Príncipe – em trajes andrajosos e na companhia de uma guilda de ladrões – afirma ser o Rei da Inglaterra, recebe uma dura reprimenda dos bandidos. “Todos nós somos uns criminosos que não valemos nada” – cito de memória, mas o sentido é este -, “mas temos um grande amor e respeito pelo nosso rei”. E segue-se um grito de “longa vida ao Rei da Inglaterra!”. Qual o ponto? É precisamente a enorme diferença entre quem erra sabendo estar errado e quem, ao contrário – de novo: como nos nossos tristes dias… -, exalta e defende o erro como se ele fosse a coisa certa. Os bandidos do livro do Mark Twain não exaltavam a bandidagem. O eu-lírico infiel do fado não exalta a própria infidelidade. E isto faz toda a diferença.

Todas as (falsas) polêmicas sobre revolução moral e hipocrisia da sociedade não percebem este ponto fundamental: ninguém tem a pretensão de transformar o mundo em um lugar perfeito de onde o pecado seja totalmente erradicado, mas isso não nos dá o direito de eliminar a diferença entre o que é certo e o que é errado. Não é porque a prostituição é “a profissão mais antiga do mundo”, e que sempre existiu, que nós devemos conferir-lhe cidadania moral. Não é porque existem – e sempre existiram – mulheres que fazem aborto que nós devemos deixar de o classificar como uma atitude condenável. Os princípios são ideais que devem pautar os atos concretos. Não são os atos concretos que determinam quais são os princípios.

No fundo, é como dizia Garrigou-Lagrange: a tolerância com as falhas concretas dos seres humanos não implica (e, aliás, nem pode implicar) em uma transigência para com os princípios morais. A existência de maridos infiéis (coisa que, até onde me conste, também sempre existiu) não torna o adultério aceitável. No entanto, muito pior do que uma turba de adúlteros é um único sujeito – por bom marido que seja! – que ouse defender o adultério como um comportamento normal e louvável. Pior do que Sodoma e Gomorra inteiras é um indivíduo – por casto que seja! – que tenha a petulância de fazer a apologia do homossexualismo como uma atitude normal e moralmente aceitável. A diferença entre ambos não é meramente quantitativa, e sim de essência. Se é verdade que errar é humano, defender o erro com pertinácia é diabólico. Afinal, como a Igreja sempre ensinou, negar a verdade conhecida como tal é pecado contra o Espírito Santo. Ou, nas imprecações das Escrituras Sagradas: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!” (Is 5 20).

Não precisamos que os arautos da revolução moral nos venham atirar em face a existência onipresente do mal do mundo, quer como justificativa para aboli-lo enquanto conceito, quer para revogarmos os decretos morais que, desde que o mundo é mundo, em maior ou menor grau, pautaram a totalidade das sociedades conhecidas. Não precisamos que nos digam que certas coisas sempre existiram, pois isso nós sabemos muito bem – basta ouvir os fados! Entre uma coisa ter sido sempre feita e esta coisa ser moralmente correta, no entanto, vai um abismo que os inimigos da moral insistem em ignorar. E, neste abismo, infelizmente caem muitos que se deixam levar pelo canto-de-sereia dos revolucionários modernos.

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14 thoughts on “Basta ouvir os fados

  1. Alex

    Jorge, seu artigo é muito interessante! Chamou-me a atenção a questão da literatura, da influência positiva que pode ter a literatura na vida das pessoas. Mas também não podemos nos esquecer que ela, a literatura, pode também ter uma influência negativa ou funesta na vida das pessoas ou no mundo real. Sobre essa influência funesta, gostaria de citar o Olavo de Carvalho:

    A superioridade dos piores

    Olavo de Carvalho
    Diário do Comércio, 20 de dezembro de 2010

    Já citei várias vezes a máxima de Hugo von Hofmannsthal, profundamente verdadeira, de que nada está na política de um país sem estar primeiro na sua literatura. Uma das decorrências dela é que, sem extenso conhecimento da história cultural e literária, o observador só capta, dos fatos políticos, a forma final ostensiva com que aparecem no noticiário do dia, sem nada enxergar das correntes profundas onde se formaram e onde poderiam, em tempo, ter sido modificados.

    Praticamente não existe manobra política, tática ou estratégica, que não tenha surgido antes como artifício literário. A razão disso é simples: ninguém pode fazer o que primeiro não imaginou, e explorar as possibilidades do imaginário social, tornando-as pensáveis na linguagem comum, é a função precípua dos artistas da palavra. Na “direita” brasileira, a obsessão da economia, da administração e do marketing leva muitos pretensos “homens práticos” aos erros mais pueris e desastrosos, que poderiam ter sido evitados com um pouco de cultura literária.

    Vou dar-lhes um exemplo chocante.

    […]

    http://www.olavodecarvalho.org/semana/101220dc.html

  2. Magna

    Jorge,
    Se é fado lusitano, não deixe de apreciar (parcialmente) esta belíssima obra musicada por Cristina Branco: http://www.melomusic.nl/cd_slanl.htm, é um refrigério para nossa alma diante do dilúvio de obras privadas de beleza e inexpressivas. Os áudios conseguem-se pela net.

  3. Lampedusa

    Jorge,

    Belo post!

    Gosto de pensar que o homem, quando deixa de almejar o ideal para contentar-se com o que julga possível, acaba por se bestializar.

  4. Karina

    Jorge, fez-me lembrar de um filme que assisti essa semana, apenas um trecho, confesso.

    O nome era algo como “coisas que você pode dizer só de olhar para ela”.

    Eu comecei a descrever a parte que eu vi, mas ia ficar outro post.

    O resumo da ópera é: a moça, que “namora” há 3 anos com um cara casado, se vê grávida e, muito decididamente, agenda o aborto. Nesse meio tempo, todas as cenas mostram a mediocridade da vida dela: a atenção que o amante lhe dá é sempre migalha, ela menospreza e manipula as pessoas a sua volta a todo o tempo, e no fim, fica claro que o aborto só aumentou a solidão em que aquela mulher vivia.

    Achei muito interessante o ponto de vista do filme, pois é justamente como nesse fado: apesar de mostrar a decisão pelo aborto, fica explícito que ele não é solução para coisa alguma.

    No mais, voltaste realmente inspiradíssimo das férias.

  5. Karina

    Ah, sim, o mais legal: quem ajuda essa moça a perceber a mediocridade de sua vida é uma mendiga. A moça é vivida pela excelente Holly Hunter, que fez O Piano.

  6. Rafael

    Eu pensava e dizia algo bastante semelhante ontem, apesar de com outro enfoque. Dizia mais ou menos o seguinte: “Se você não pode mudar sua maneira de ser de uma hora pra outra, ao menos pense de maneira diferente. Isso faz toda a diferença. Com o tempo você naturalmente se tornará alguém melhor.”
    Até mesmo o bandido que sabe que o que faz é errado se torna um bandido melhor, se assim posso dizer. Como nos filmes de faroeste, onde o ladrão de bancos jamais seria capaz de machucar uma moça ou um rapaz inocente.
    Se você vê com outros olhos um pecado, ou mesmo um comportamento inadequado, inapropriado, mesmo que você não seja capaz de mudá-lo, algo dentro de você já mudou. E quando você muda por dentro certamente isso se refletirá exteriormente, em maior ou menor grau.

  7. Alien

    Jorge, chegastes a ver algo do rock português? Em especial seu maior expoente, a banda de pop/rock Xutos & Pontapés? Se não, vá atrás que vale a pena! :D

  8. Lívia

    PERFEITO!

    É o que sempre digo: O que vemos hoje já existe desde sempre. A diferença é que, antes, as pessoas sabiam do que se envergonhar.

    ABORTO, INFIDELIDADE, PROSTITUIÇÃO e tantas coisas imorais sempre existiram, mas a noção moral de hoje é totalmente diferente da de antes. Hoje é motivo de vanglória ser desonesto, imoral et cetera…

    Grata pela reflexão.

  9. Pingback: Deus lo Vult! - Retrospectiva 2011 | Deus lo Vult!