O pêndulo sobre o esgoto

Sobre a recente polêmica envolvendo o apoio de autoridades eclesiásticas a projetos políticos escusos e a excomunhão latae sententiae prevista no Decretum Contra Communismum, a leitura deste texto do Rodrigo Pedroso é fundamental para um adequado entendimento do que está sendo discutido. Eu próprio, aliás, já defendi aqui, inclusive há poucos meses, a mesmíssima tese pugnada pelo advogado, à qual remeto os leitores.

Ainda sobre o mesmo assunto, ontem mesmo S. E. R. Dom Fernando Rifan publicou, na sua coluna semanal, um oportuno texto onde fala que «[n]a ânsia de defender coisas corretas, [alguns que se intitulam católicos] perdem o respeito devido às autoridades da Igreja e as desprestigiam, para alegria dos inimigos dela».

É o bastante para contextualizar os leitores. Há algo que julgo oportuno dizer sobre o assunto; porque parece que o comportamento humano (católico inclusive) segue um movimento pendular e, quando se aproxima de um dos extremos, retorna – e retorna por vezes violentamente – ao extremo oposto, atropelando o que estiver no caminho.

Concretamente, aqui, o terreno sobre o qual balança este pêndulo é a conivência promíscua [de parte considerável] das autoridades católicas com o esquerdismo degenerado que domina o cenário político nacional. Sim, está-se falando, principal mas não exclusivamente, do apoio que [muitos d]os senhores bispos do Brasil prestam ao Partido dos Trabalhadores.

Exemplo do apoio criminoso (que clama aos céus vingança!) das autoridades católicas aos detentores atuais do poder político é esta nota divulgada no final do mês passado, onde – no meio da maior crise política da história recente do país e onde a sra. presidente da República, por medo das manifestações populares, cogita cancelar a sua participação em uma cerimônia (da qual participarão inclusive autoridades internacionais) comemorativa fim da II Guerra Mundial – a Conferência faz uma tentativa patética de limpar a barra do Executivo Nacional dizendo que «[o] momento não é de acirrar ânimos, nem de assumir posições revanchistas ou de ódio». Ou seja: a julgar por essa nota, a CNBB pensa que a insatisfação popular extravasada em manifestações públicas como os “panelaços” ou as marchas “fora Dilma!” não passa de um revanchismo odioso e censurável.

Prova de que o Partido dos Trabalhadores é uma pústula nojenta, anticristã e indigna de receber o apoio, quer dos católicos, quer mesmo de qualquer pessoa minimamente civilizada, são os recentes cadernos de teses aprovados no V Congresso Nacional do partido. Sobre o tema, é suficiente citar este texto:

Finalmente, em um documento oficial membros do PT reconhecem querer estabelecer a ditadura do proletariado, pedindo coisas como cassação de Jair Bolsonaro, estatização da Rede Globo, estatização de todas as emissoras que tenham programas religiosos, inimputabilidade do MST e de outros órgãos paramilitares do PT, impeachment de todos ministros do STF que condenaram mensaleiros e daí por diante.

Tudo isso é de uma nojeira inaceitável, de uma podridão indescritível. Sobre este esgoto nauseabundo, balançam-se muitos católicos oscilando entre dois erros extremos. O primeiro deles é o de aceitar passivamente esta pouca vergonha, sob a argumentação de que os bispos devem ser respeitados. O segundo, achincalhar publicamente as autoridades constituídas da Igreja, sob o argumento de que aquela pouca vergonha não pode ser jamais aceita.

Ora, o problema, o grande problema em suma, é que os católicos mais apressados são forçados a uma escolha impossível. As duas fundamentações são perfeitamente sólidas. Não é possível aceitar o conluio promíscuo entre Igreja e poder secular corrupto. Não é possível insurgir-se contra as autoridades constituídas da Igreja. A questão só se resolve quando se toma distância para uma visão panorâmica do problema: para se rejeitar a vergonhosa participação das autoridades eclesiásticas nos bacanais de César não é necessário achincalhar-lhes publicamente, e recusar o linchamento moral dos Pastores da Igreja não implica em ser omisso diante das obscenidades escandalosas dos bispos católicos.

Isso parece bastante difícil, contraditório até. Porque parece que falar em «vergonhosa participação das autoridades eclesiásticas nos bacanais de César» é já promover «o linchamento moral dos Pastores da Igreja», e recusar o achincalhamento público das autoridades religiosas implica necessariamente em silenciar sobre «as obscenidades escandalosas dos bispos católicos». Para se separar essas coisas (que, conceda-se, andam entranhadas mesmo, como a luminosidade e o calor de uma vela; e cuja separação é mais uma operação do intelecto do que algo realizável empiricamente, mas vá lá), é preciso dizer, e sustentar com firmeza inquebrantável,

i) que não está [necessariamente] excomungado quem apóia o Partido dos Trabalhadores;

ii) que, do fato de não haver excomunhão para o apoio ao Partido dos Trabalhadores, não segue que tal apoio seja desejável, prudente ou mesmo legítimo;

iii) que a Conferência dos Bispos não tem legitimidade alguma para apoiar projetos políticos atentatórios contra a Fé Cristã;

iv) que, do fato da Conferência não ter legitimidade para apoiar políticas escandalosas, não segue que ela seja absolutamente ilegítima para todo o resto ou como tal possa ser tratada;

v) que os bispos católicos, por piores que sejam, devem ser sempre respeitados;

vi) que, do fato dos bispos deverem ser sempre respeitados, não segue que seja legítimo seguir-lhes em seus escândalos ou mesmo silenciar sobre estes;

vii) etc.

É, em suma, estreita esta senda – verdadeira corda bamba! – sobre a qual os católicos precisam caminhar! No entanto, não parece existir outra alternativa. Quem olha apenas para os pontos extremos do movimento do pêndulo erra, e pode errar profundamente, ao buscar dar-lhe um impulso contrário que termine por o levar ao extremo oposto. O problema, na verdade, é a situação de fato sobre a qual oscila, de um lado para o outro, em guerra fratricida inútil, este movimento pendular. É preciso desfazer o concubinato horrendo entre a CNBB e o PT, este é ponto fulcral aqui: porque, se esta obscenidade não existisse em primeiro lugar, se não houvesse a situação de fato absurda em que nos encontramos, nenhum desses erros opostos teria razão de existir.

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Os detentos de Rebibbia não são modelos de virtude

Certo leitor do Deus lo Vult! dispara aqui no blog:

Bergoglio mostra para quem queira ver a sua estratégia.

Levou para a Santa Sé um travesti e lavou o pé do mesmo durante a cerimônia do Lava-Pés. Sabendo-se da repercussão negativa que isso teria para a sua imagem dentro da Madre Igreja, agora ele tenta consertar criticando de forma superficial, típica dos modernistas, a tal “teoria do gênero”.

Primeiramente, o Papa não levou ninguém “para a Santa Sé”. O que ele fez foi visitar (como aliás parece ser já tradição…), na Quinta-Feira Santa, um presídio nos arredores do Vaticano e, lá, celebrar a Missa da Ceia do Senhor.

Segundamente, e mais importante, há uma diferença enorme, gigantesca!, entre o militante LGBT que ostenta orgulhoso a sua transexualidade e o presidiário transexual. Ora, o que se esperaria encontrar num presídio? A nata da intelectualidade contemporânea? As vestais do mundanismo moderno? De maneira alguma. Em um presídio, encontram-se criminosos condenados!

Quais os crimes cometidos pelos detentos cujos pés foram lavados pelo Vigário de Cristo? Infeliz ou felizmente, nós não temos acesso à ficha criminal de cada um deles. Parece razoável imaginar que houvesse, lá, assaltantes e agressores, prostitutas e traficantes de drogas, talvez estupradores e assassinos. E se é legítimo lavar os pés a ladrões e traficantes, por que não haveria de ser, também, lavá-los a um transexual? Alguém acaso imagina que ir ao encontro de criminosos no cárcere é, de alguma maneira, condescender com o crime, apoiá-lo, legitimá-lo, diminuir-lhe a importância ou coisa do tipo? Se lavar os pés de criminosos condenados evidentemente não é apologia ao crime, por que lavar os pés de um transexual seria uma defesa do transexualismo?

É exatamente o que pergunta o blogueiro do Cigueña de la Torre. E a sua colocação é bastante pertinente: uma coisa é questionar a conveniência de o Papa celebrar a missa do Lava-Pés em um presídio, ou a evidente distorção do sentido das rubricas da Missa in Coena Domini (que mandam lavar os pés a viri selecti) em curso. Outra coisa bem diferente é se aferrar à especificidade do pecado de um dos criminosos ao qual o Santo Padre lavou os pés na última Quinta-Feira Santa e, munido disso, alardear um escândalo que de modo algum se depreende dos fatos passados em Roma!

Não é razoável esperar encontrar a fina flor do catolicismo em um presídio italiano, e nem faz o menor sentido pretender que os detentos de Rebibbia sejam modelos de virtude apresentados, pelo Vigário de Cristo, à imitação dos fiéis católicos. Tal interpretação dos fatos é evidentemente disparatada – e isso vale tanto para o transexual quanto para o assaltante ou estuprador. O crime não passa a ser moralmente lícito porque o Papa lavou os pés a criminosos. O mesmo para o transexualismo.

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Os 88 anos de um gigante

Era um dia de abril de 1927: vinha à luz aquele que, muitas décadas depois, sentar-se-ia no Trono de Pedro sob o nome de Bento XVI. E faria história.

No meu entender, são duas as principais razões pelas quais o papado de Bento XVI merece ser considerado “histórico”. Em primeiro lugar, ele foi, e o foi sinceramente, com todas as forças de sua alma, um resistente. Foi ele o Papa que impôs serena e intransponível resistência a todas as demandas por mudanças na Igreja que lhe chegavam, violentamente, todos os dias, dos quatro cantos do planeta. É injusto chamá-lo simplesmente de “conservador”, uma vez que o termo carrega uma conotação negativa totalmente inaplicável a Bento XVI. Ele não lutou simplesmente por “conservar”, de maneira acrítica e beligerante, a tradição da Igreja Católica – atividade que por si só já seria extremamente meritória, vale mencionar. Ele foi além e se empenhou, com admirável e incansável zelo, por fazer essa tradição conhecida ao mundo.

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É lógico que “conservar” a mensagem da Igreja – no sentido de garantir que ela não sofra acréscimos e nem mutilações – é uma coisa necessária. É um dever da mais alta necessidade, primário até, coisa à qual católico algum – muito menos o Papa! – pode se furtar. No entanto, a simples conservação não é suficiente: é preciso levar as almas à Fé. É neste sentido que o atual pontificado, aliás, fala tanto em acabar com a autorreferencialidade da Igreja: a Fé é pra ser guardada, sim, indubitavelmente, mas é também para ser transmitida. A doutrina deve ser levada ao conhecimento dos homens: Cristo disse “ide e ensinai” (cf. Mt XXVIII, 19), e a importância deste mandato não pode ficar escondida sob a necessidade (sem dúvidas legítima) de preservar a pureza da Fé.

E a outra razão pela qual o papado de Bento XVI se pode dizer histórico é o seu término: foi ele o homem que proferiu a Grã Renúncia após séculos. A estreiteza do nosso horizonte histórico faz com que nos escape a importância desse gesto, sem dúvidas; mas, mesmo daqui, já existem duas coisas que podemos entrever. Primeira, que a pressão pela renúncia será, doravante, mais um peso acrescido à cruz reservada aos vigários de Cristo – que isto os torne mais santos! E, segunda, que a boa convivência entre um Papa e o seu sucessor tende a ser uma eficaz barreira à verossimilhança da tese de ruptura entre pontificados, que a cada conclave interessa aos aproveitadores propagar. Acho que já o disse aqui: não canso de me perguntar o carnaval que não se faria se o cardeal Bergoglio tivesse sucedido a um falecido Bento XVI… E, sob esta ótica, a renúncia do Papa que hoje completa 88 anos afigura-se-me providencial.

São os 88 anos de um gigante. Feliz aniversário, Bento XVI! Que o Deus Altíssimo o abençoe e guarde, proteja-o e não o entregue às mãos dos seus inimigos. Que o aproximar-se de Deus sobrepuje o avançar dos anos: que a santidade de vida nada deva à velhice alcançada. Obrigado por tudo.

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Papa Francisco ataca a teoria de gênero!

A mídia secular não é a melhor fonte de notícias a respeito do Papa Francisco, mas vale a pena citar esta matéria do Jornal do CommercioPapa ataca a teoria de gênero e defende colaboração entre homem e mulher. E vale a pena citá-la por pelo menos duas razões.

Primeiro, porque é um bálsamo encontrar, na mídia laica, uma notícia que soe desabonadora às expectativas anticatólicas que os incréus têm a respeito do atual pontificado. Não é interessante divulgar a doutrina católica e, por isso, quando o Papa Francisco costuma aparecer na mídia, as mais das vezes é para que ela – a mídia – faça propaganda d’alguma ideia anticatólica. O expediente já foi empregado tantas e tantas vezes que perdeu a graça: na verdade, a gente já nem esperava mais encontrar, nas manchetes dos jornais, o Papa associado àqueles aspectos do Catolicismo que desagradam o pensamento mundano hoje hegemônico…

(E há algo de profundamente triste nisso, sem dúvidas. Atingiu-se um novo patamar de perda de referências: agora não é mais simplesmente que as pessoas não dêem ouvidos ao que diz a Igreja Católica. Atingiu-se o paroxismo: as pessoas não associam mais o Romano Pontífice à Igreja Católica!)

A segunda razão pela qual vale a pena citar a matéria do Jornal do Commercio é esta: a Catequese de hoje, na verdade, não tem nada de excepcional. O Papa trata o tema de modo bastante rudimentar, repleto de lugares-comuns e de banalidades – atenção, que com isso não se está fazendo pouco caso da catequese pontifícia! Está-se, tão-somente, afirmando o caráter introdutório, basilar, fundamental do discurso pontifício. E o ponto a que quero chegar é: nem mesmo um texto superficial, que aborde trivialidades da doutrina católica, pode mais ser proferido pelo Papa Francisco sem que a mídia rasgue as vestes e acuse o golpe.

Tive a curiosidade de procurar por “Papa”, “Teoria” e “Gênero” no news.google.com. As manchetes são impressionantes. Papa Francisco arremete contra la teoría de géneroCritica papa Francisco la teoría de género que reconoce a homosexualesPapa contra “Teoría del género” de grupos LGBTPapa Francisco califica a la teoría de género de ‘error de la mente humana’. Ao que parece, apenas a mídia tupiniquim lembrou acrescentar, ao final da manchete, que o Papa também defendeu a colaboração entre homem e mulher…

Quem lê pensa que saiu uma encíclica sobre o tema, uma bula papal condenando solenemente a tese, uma exortação detalhada e específica sobre o assunto! Quando, na verdade, a única frase, no meio da audiência geral, é quando Sua Santidade se pergunta «se a chamada teoria do gênero não seja expressão de uma frustração e de uma resignação, que visa a cancelar a diferença sexual porque não sabe mais como lidar com ela». E isso me leva a pensar em algumas coisas.

Pergunto-me no que acontecerá quando vier, de Roma, alguma coisa mais substancial a respeito do tema do que a menção en passant de hoje. Que retórica usarão os (de)formadores de opinião para indispôr as pessoas contra o Papa, agora que já gastaram todo o seu repertório para fulminar uma menção incidental à teoria de gênero?

Pergunto-me ainda se o problema de certa mídia não é, ao contrário do que parece à primeira vista, mais de falta de senso de proporções do que de astúcia inteligentemente voltada para o mal. Porque parece haver certa má fé em pinçar banalidades do quotidiano do Papa Francisco para as pintar como flagrantes oposições ao ensino da Igreja, como vaticínios infalíveis de que a Esposa de Cristo está se curvando aos “avanços” do século XXI. Ora, mas neste caso de hoje a banalidade pinçada é desfavorável à agenda moderna…! O que me leva a pensar que, talvez, eles simplesmente não sejam capazes de ponderar os fatos sobre os quais julgam precisar falar. Talvez, no final das contas, o deplorável nível intelectual do homem médio contemporâneo deva ser creditado não apenas à manipulação da imprensa, mas a uma sua nada negligenciável falta de bom senso e de competência na realização do seu trabalho.

Pergunto-me, por fim, se não existe algo de irônico nesse serviço à Igreja prestado por linhas tortas, uma vez que a maior parte das pessoas não vai ler a catequese hebdomadária do Papa Francisco mas tão-somente a matéria do jornal (que digo? A maior parte das pessoas vai ler somente a chamada da matéria!). E talvez isso ajude a formar, no imaginário coletivo, uma imagem do Papa Francisco um pouco mais próxima daquela de um Sumo Pontífice. Quem sabe as pessoas encontrem mais o Papa nestas manchetes (mal-feitas!) de ódio mal-disfarçado do que em todas as outras onde se incensa um ídolo moderno que, para ser mais palatável, costuma ser apresentado sob uma batina branca e por detrás do rosto sorridente de um antigo cardeal argentino.

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Nunca se fez tanto por nós…!

É passada a agonia do Getsêmani, a traição do horto. A prisão imunda, a noite interminável. Os julgamentos injustos, os gritos da turba assassina, o caminho do Calvário, o Gólgota e o Sepulcro. Tudo passado ao longo de três dias intensos. Três dias que têm tudo a ver conosco: porque é no interior do Tríduo Santo que se desenrola o drama de nossas vidas.

Sandro-Botticelli-The-Resurrection

É passado…! O alvorecer do dia de hoje encontra o Sepulcro aberto, o Túmulo vazio, deixado para trás por Aquele que venceu o mundo e a morte. Hoje, como após o pecado de Adão, os homens morrem. Hoje, como naquela época longínqua, recusamo-nos a morrer. Mas hoje, diferente do que acontecia antes da Páscoa de Cristo, pela primeira vez na história, há-nos opção.

Diante de um Deus que irrompe, vivo, do Hades profundo, não dá para ficar impassível. Afinal, nunca se fez tanto por nós. E nunca o merecemos menos.

É Páscoa! É a vitória de Cristo sobre a morte, que é também a nossa vitória. Ele se fez Vítima por nós. Ele, ressurrecto e glorioso, é também por nós. Ressuscitou verdadeiramente: é a razão da nossa esperança.

Ele vive! Feliz e Santa Páscoa a todos!

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Começa a Semana Santa

São poucos os dias que separam o Domingo de Ramos da Sexta-Feira da Paixão: que separam a entrada gloriosa de Nosso Senhor em Jerusalém, aclamado pelo povo, da Sua Crucificação horrenda, instigada também pelo povo, poucos dias depois. Na Liturgia de ontem, o drama se desenrola com ainda maior volatilidade: o contraste entre os gritos de «Hosana!» e «Crucifica-O!» atinge o fiel católico que assiste à Missa no pequeno intervalo entre a procissão de entrada e o Evangelho. Nós O saudamos! Nós O crucificamos!

A súbita mudança de humor pode parecer inverossímil; no entanto, com que facilidade os nossos melhores propósitos de amor e dedicação a Deus esvanecem-se e dão lugar, da noite para o dia, aos mais mesquinhos sentimentos de egoísmo e amor-próprio! Não cabe somente aos judeus daquele tempo o terrível crime do deicídio; em verdade, cada um de nós, e por incontáveis vezes!, assassinamos a Deus. Verdade que aprendemos no Catecismo. Verdade que a Sagrada Liturgia não nos deixa esquecer. Verdade enfim que experimentamos em nossa carne – que, se mirarmos com sinceridade o espelho de nossa alma, não deixaremos de ver com desconcertante clareza.

Começa a Semana Santa. É uma síntese de nossa vida. Sigamo-la atentamente.

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Ave, ó Cheia de Graça!

É grande o mistério do dia de hoje: um anjo do Céu foi enviado a uma cidade de Nazaré, à porta de uma Virgem, prometida em casamento, para informar-lhe de que o Altíssimo a escolhera para ser Mãe do Seu Filho. É grande o mistério porque conhecemos o resto da história, sim, sem dúvidas: porque sabemos que aquele “Sim” hoje pronunciado foi o início da maravilhosa obra da Redenção que, hoje, alcança-nos e nos torna gratos. Mas, ainda se não o conhecêssemos em seus detalhes, ainda que não estivéssemos olhando em perspectiva, do futuro, ainda assim haveríamos de pasmar diante do quadro da Anunciação.

Ora, é coisa grandiosa um Anjo envolto no esplendor do Paraíso; e, exatamente por isso, é coisa ainda mais grandiosa uma Virgem por ele saudada. Porque o destinatário da mensagem é maior do que o mensageiro; e se é grande o Arcanjo São Gabriel – quem o haverá de negar? -, imagine-se o quão maior não deve ser a Virgem a quem ele foi enviado…! A Regina Angelorum escondida em Nazaré. A Imaculada Conceição resplandecente no mundo que ainda não fora visitado pelo Verbo de Deus. A Santíssima Virgem ao entardecer, recebendo a visita de um mensageiro dos Céus.

Parece grandioso o Paraíso? Imaginam-se cheios de glórias e esplendores os salões da Jerusalém Celeste onde assenta-Se em Seu trono o Deus Onipotente e Três-Vezes Santo? No dia de hoje, no entanto, o Céu inteiro voltava-se para uma pequena cidade de Nazaré e, em sequência, visitavam a Virgem Maria um mensageiro das falanges angélicas e o próprio Espírito Santo de Deus! Quem é esta que recebe tanta deferência do Todo-Poderoso? Quem é esta a quem acorrem, pressurosos, os habitantes celestiais? Quem é esta por quem o próprio Deus deixa a Eternidade para fazer-se Homem?

O nome da Virgem era Maria, diz-nos as Escrituras Sagradas: é uma Mulher, e isso nos enche de profunda reverência e gratidão. Porque Ela – e nenhuma outra – é a predileta do Deus Altíssimo, o qual A culminou com todas as graças do Céu. Porque Ela é o ápice da descendência de Eva, a criatura mais perfeita, a mais bela flor desabrochada fora das muralhas do Éden: Ela elevou a nossa humanidade aos umbrais da Eternidade.

Ave, gratia plena! É a saudação de Deus por meio de um Anjo que, hoje, ressoou em Nazaré. Estas salvas já foram repetidas incontáveis vezes ao longo dos séculos; mas parece que ainda é pouco para o que Ela é. A saudação angélica é o louvor perfeitíssimo à Virgem Maria; mas a perfeição desta Senhora é tamanha que, dizemos sem medo de errar, Ela ainda não foi saudada o suficiente. Unamo-nos ao coro dos anjos e dos santos neste dever de justiça. Repitamos, hoje e a cada dia, com todas as nossas forças, com toda a nossa alma: Ave, ó Cheia de Graça!

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Sempre há flores possíveis

Foi no final do mês passado que correu a internet o vídeo de uma menina, chilena, vítima de uma doença grave e incurável; a adolescente, de nome Valentina, fazia uma súplica emocionada para que a deixassem morrer. À eutanásia há quem confira o eufemismo de “morte piedosa”; para estes, pôr fim ao sofrimento de um doente terminal seria uma atitude piedosa e compassiva, até moralmente exigível àqueles que pretendem possuir algum grau de civilidade e empatia.

Os problemas com esta argumentação – que, aqui, saltam aos olhos – são dois.

Em primeiro lugar, uma decisão é tanto melhor tomada quando mais se a toma de maneira isenta e desapaixonada, longe da turbação mental que a experiência concreta e presente de um estado de espírito extremo (como, por exemplo, as terríveis dores e a ausência de perspectiva de futuro características de doenças graves e incuráveis) costuma provocar. Em uma palavra, ao contrário do que a viralização do vídeo da pequena Valentina induz a crer, estar doente não qualifica especialmente a pessoa para decidir em questões graves de vida e de morte – muito pelo contrário aliás. A dor oferece muitas vezes obstáculo à meditação serena. E morrer é grave. Decisão assim tão grave simplesmente não pode ficar nas mãos de quem sofre. Impôr-lha, isso sim, é uma desumanidade insensível, é acrescentar à já precária condição de vida do doente um fardo como maior não pode haver.

Em segundo lugar, matar – matar diretamente, por meio da administração de um veneno, do sufocamento, da inanição ou de qualquer coisa do tipo – é, em si mesmo e para além de qualquer possibilidade de floreio retórico, um mal. Não se trata aqui principalmente de “aliviar” as dores de ninguém, e sim de empurrar a pessoa para aquele lado da existência do qual não há volta possível, cortar-lhe sem possibilidade de remendo o único fio que a liga à existência terrena, cerrar-lhe definitivamente a porta que dá acesso ao mundo dos vivos. Tal não pode ser pintado com as cores bonitas de um «dormir para sempre» que apaguem a realidade nua e crua da morte, dessa experiência única, irrepetível e irrevogável que, em situações normais, ninguém deseja para si: como é possível que alguém, com a consciência tranquila, ofereça, como uma dádiva, ao que sofre aquilo que o sadio não desejaria para si nem como a mais cruel das penas? Há um quê de doentio na idéia de que pode ser um bom negócio oferecer a morte àquele a quem não se é capaz de consertar a vida. Repugna à razão humana acreditar, assim, sem mais, como se fosse um lugar-comum, que uma coisa pode servir de sucedânea do seu oposto.

No entanto – e embora esta outra notícia tenha merecido muito menor divulgação -, após o seu vídeo ganhar notoriedade mundial e após receber diversas visitas, a garota chilena mudou de idéia: Valentina desistiu da eutanásia! Vejam a pequena reportagem de seis minutos. Por que fizeste aquele vídeo, Valentina? “Estava cansada, já não aguentava mais”. E agora? Ainda queres dormir? “Já não sei”. Ao final, o que tens a dizer? “Sigam-me apoiando. Tenho que seguir adiante”.

Sim, é coisa edificante encontrar uma menina, aos catorze anos de vida, portadora de fibrose cística, e que há menos de um mês queria morrer… dizendo, agora, entre sorrisos, que precisa seguir adiante! Veja-se, foi bem pouco o que mudou. Algumas poucas semanas se passaram. O prognóstico da adolescente ainda é bastante delicado. No entanto, que diferença entre os dois vídeos! E que importante lição: não é verdade que, quando não haja mais nada que se possa clinicamente fazer por uma pessoa, só reste entregá-la à morte. Não, tal não é verdade! Sempre há flores que podem ser oferecidas no lugar do veneno pretensamente libertador. É sempre possível fazer algo – algo em si mesmo bom – por alguém a quem não se pode fazer mais nada. E é sempre possível mudar a maneira como as vicissitudes da vida – mesmo uma doença grave – nos influenciam. Eis que, do Chile, uma adolescente nos está a ensiná-lo. Que o bom Deus a console! E nos abra os ouvidos para que possamos entender.

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Vilipendiado o Sacramento da Confissão. Duas vezes.

Foi somente hoje que tomei conhecimento de que uma jornalista italiana, fingindo-se de penitente católica, frequentou confessionários, contou histórias inventadas, gravou tudo e depois publicou as conversas que teve com os sacerdotes católicos que a atenderam. A história se reveste de uma malícia assustadora por algumas razões.

É de uma falta de respeito desmedida para com um ritual que os católicos têm por sagrado, antes do mais. Ninguém precisa da Fé Católica e Apostólica para entender o seguinte: para se aproximar de um sacramento, ao qual os católicos atribuem o poder de perdoar os pecados, contando premeditada e deliberadamente uma mentira – i.e., uma coisa que a Doutrina Católica classifica como «pecado» – com o intuito de redigir uma matéria sensacionalista, é preciso um profundo desprezo pela sensibilidade religiosa alheia.

Isso não é uma coisa, insista-se, que para se evitar seria necessário possuir convicções religiosas profundas. É questão de capacidade básica de convivência social, onde um mínimo respeito às convicções dos outros é exigido para evitar a multiplicação de conflitos desnecessários. Que ninguém invente, aqui, de dizer que os católicos são uns intolerantes que estão a exigir de todo mundo que se comporte em conformidade com as suas – dos católicos – crenças! Porque o que se percebe com clareza é que o anticlericalismo moderno – do qual o caso aqui em análise é paradigmático – atingiu assustadores limites de falta de noção.

Porque – é outra coisa que salta aos olhos quando tomamos contato com a matéria – parece que a sra. Alari não vê o menor problema nem com o sacrilégio bárbaro que cometeu, nem com as ulteriores reações que se lhe seguiram. Ela age como se não tivesse feito nada demais e como se as críticas enérgicas de personagens tão díspares quanto o Arcebispo de Bologna e a Ordem Profissional Italiana de Jornalistas não fossem dirigidas a ela, não lhe dissessem respeito. Um sociopata não demonstraria mais desdenhosa indiferença pelo seu entorno.

Se a maneira de obter a matéria já enoja, o seu conteúdo é de estarrecer. O único texto primário sobre o tema que encontrei foi esta postagem (da semana passada) do blog di Laura Alari. Aqui não há a história completa; trata-se, simplesmente, de um texto que trata – é o título – sobre a ida ao confessionário no papel de uma divorciada recasada que pede para receber a Comunhão Eucarística. O post é somente a transcrição do diálogo, particularmente macabro, entre Don Marco e a personagem que a Laura interpreta.

“Eu comungo sempre que vou à Missa. O senhor julga que cometo um pecado assim tão terrível?”. O padre, de início, não o nega taxativamente; mas a sua tergiversação quase equivale a uma negativa tácita, como que preparando o terreno para o que virá à frente: “Você faz uma coisa que a Igreja diz para não fazer”.

O começo da conversa parece animador. “Se vocês vivem como irmãos e irmãs não há problema”, diz o padre. Corretíssimo. “Verifique se não há razões para que o seu primeiro matrimônio tenha sido nulo”. Perfeitamente. Poderia ter terminado por aqui – quantas graças o bom Deus não deve ter concedido ao padre para que ele calasse a boca neste instante trágico! Mas Don Marco, infelizmente, não conseguiu se conter. As graças atuais passaram. E o padre continuou por conta própria: “Estou lhe dizendo o que a Igreja pede, mas no final é você que deve escolher”.

Silêncio. O padre acrescenta: “Se duas pessoas divorciadas decidem passar juntas o resto de suas vidas, eu não vejo nada de mal; antes é uma coisa positiva. Ainda mais porque, no caso de vocês, estamos falando de pessoas maduras envolvidas em um relacionamento sério, fundado sobre sentimentos verdadeiros; quem já sofreu uma vez não torna a fazer as coisas com superficialidades”. Isso é serviço que preste um Sacerdote do Deus Altíssimo no Tribunal Sagrado da Penitência Sacramental?

“Se falamos de sacramentos, é claro que, na minha posição, eu não direi nunca que tu podes receber a comunhão, uma vez que a Igreja reconhece apenas um Matrimônio. Mas tampouco te direi, jamais, que não podes recebê-la”. “Por quê?”, pergunta a incrédula. “Porque quando a vida acaba nós não nos pomos diante da Igreja, mas sim de Deus, e é a Ele que prestaremos contas de nossas ações”.

O padre ainda pergunta o que aconteceria se, no próximo Sínodo da Família, as coisas mudassem. “Não acontecerá!”, ele garante em seguida. “Mas, ainda que acontecesse, todos nós continuaríamos sendo as mesmas pessoas, com a nossa história particular a colocar diante do Bom Deus”.

“Mas padre,” – insiste por fim a mulher – “isto é andar contra as regras da Igreja”. E a cereja do bolo: “Isso tudo que estou dizendo não significa infringir as regras nem diminuir o problema. Em vez disso, significa olhá-lo de frente e lidar com ele de outros pontos de vista, que é o que estou tentando fazer: oferecer a você outras perspectivas”. Fim de post. Cai o pano. La commedia è finita; la tragedia tuttavia sigue.

Vistas as coisas em seu conjunto, a insistência de Don Marco em dizer à falsa penitente que não comungue não passa de uma piada de mau gosto, de uma hipocrisia farisaica grosseira. Afinal, dizer que a Igreja lhe manda não comungar ao mesmo tempo em que tenta por todos os meios persuadir-lhe de que isso não tem tanta importância – não deve ser levado tão a sério assim… – uma vez que i) a situação dela é linda e maravilhosa, ii) cada um deve agir de acordo com a própria consciência, iii) no final não prestaremos contas a Igreja mas sim ao Bom Deus e iv) oferecer outras perspectivas para enfrentar o problema não significa ir contra as regras (?), outra coisa não significa que desdizer indiretamente o que, contudo, algum formalismo meramente protocolar ainda manda dizer com todas as letras. O que vale, o que fica, não é o que confessor diz, e sim o que ele insinua. Qualquer pecador reticente o perceberia sem nem mesmo precisar de que o padre falasse tanto.

Ao sacrilégio da jornalista segue-se, de maneira terrível, esta horrenda prevaricação de um sacerdote da Igreja…! Que o Altíssimo tenha misericórdia de nós. Sim, a sra. Alari não faz a menor idéia do que significa o Sacramento da Confissão para os católicos, como se dizia acima. É verdade. Contudo, a julgar pelo que acabou de se ver, nem o reverendíssimo pe. Marco o sabe – e este caso é muito, muito mais grave do que o primeiro.

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O que existe de «comunismo» no Ocidente contemporâneo

Impressiona, por vezes, a dificuldade que têm as pessoas – mesmo as bem-intencionadas… – em entender o porquê de ser o comunismo uma doutrina condenada pela Igreja ou mesmo de identificar traços comunistas na sociedade em que hoje vivemos. São dois problemas: por um lado, muitos parecem incapazes de reconhecer o comunismo que se lhes antolha; por outro lado, do comunismo sobre o qual ouvem falar como de a uma coisa distante, muitos não conseguem emitir um juízo de reprovação.

Penso que os dois problemas estão intimamente relacionados: é porque pintam com cores muito carregadas o comunismo, a fim de incutir horror a respeito dele, que as pessoas não o conseguem enxergar na política contemporânea; e é porque mitigam-lhe o alcance em um sem-número de aspectos, a fim de o adequar à realidade contemporânea, que as pessoas não conseguem emitir sobre ele o juízo de reprovação que seria esperado…

Parece fundamental esclarecer algumas coisas. E a primeira coisa que precisa ficar clara parece ser a seguinte: o comunismo contemporâneo, de matriz gramsciana, não é imediatamente identificável com a doutrina fulminada pela Quadragesimo Anno. Isso – atenção! – não implica em dizer que o atual estado de coisas é catolicamente aceitável; mas, até mesmo para que consigamos conversar com os nossos interlocutores, é necessário reconhecer que há diferenças – e diferenças à primeira vista deveras relevantes – entre o passado e o presente.

Em 1931, Pio XI dedicou alguns parágrafos da sua encíclica para falar sobre a «evolução do socialismo». O horizonte histórico do Soberano Pontífice, naturalmente, abrangia o intervalo de tempo compreendido entre a publicação da Rerum Novarum – 1891 – e a data em que ele escrevia a Quadragesimo Anno. E, já então, o Papa se sentia autorizado a dizer que «[g]randes foram as transformações, que desde os tempos de Leão XIII sofreram tanto a economia, como o socialismo»…! Que se dirá, então, das transformações ocorridas nesses mais de oitenta anos que nos separam do Magistério de Pio XI? Ora, se num tempo em que as mudanças ocorriam com relativa lentidão um Papa julgou oportuno assinalar as «grandes (…) transformações» sofridas pelo socialismo, que metamorfoses não precisaríamos apontar, hoje, em pleno século XXI, quando tudo parece transmudar-se tão vertiginosamente que não se consegue sequer acompanhar?

O mesmo trabalho sistematizador de Pio XI, no entanto, o seu sucessor não julgou oportuno realizar. Na Centesimus Annus, escrita seis décadas depois, S. João Paulo II não traçou a evolução do socialismo até os seus dias. Ao invés de julgar o acerto ou o equívoco dessa escolha, contudo, parece (muito!) mais relevante atentar para aquilo que o documento traz de propositivo. E penso que um dos seus pontos-chaves encontra-se no número 13, quando o Papa vai falar do erro fundamental do socialismo, de onde peço licença para uma citação um pouco longa:

[O] erro fundamental do socialismo é de carácter antropológico. De facto, ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo económico-social, enquanto, por outro lado, defende que esse mesmo bem se pode realizar prescindindo da livre opção, da sua única e exclusiva decisão responsável em face do bem ou do mal. O homem é reduzido a uma série de relações sociais, e desaparece o conceito de pessoa como sujeito autónomo de decisão moral, que constrói, através dessa decisão, o ordenamento social. Desta errada concepção da pessoa, deriva a distorção do direito, que define o âmbito do exercício da liberdade, bem como a oposição à propriedade privada. O homem, de facto, privado de algo que possa «dizer seu» e da possibilidade de ganhar com que viver por sua iniciativa, acaba por depender da máquina social e daqueles que a controlam, o que lhe torna muito mais difícil reconhecer a sua dignidade de pessoa e impede o caminho para a constituição de uma autêntica comunidade humana.

Pelo contrário, da concepção cristã da pessoa segue-se necessariamente uma justa visão da sociedade. Segundo a Rerum novarum e toda a doutrina social da Igreja, a sociabilidade do homem não se esgota no Estado, mas realiza-se em diversos aglomerados intermédios, desde a família até aos grupos económicos, sociais, políticos e culturais, os quais, provenientes da própria natureza humana, estão dotados — subordinando-se sempre ao bem comum — da sua própria autonomia. É o que designei de «subjectividade» da sociedade, que foi anulada pelo «socialismo real».

Ao invés de assinalar o «socialismo» historicamente existente, o Papa vai mais fundo e oferece uma definição do que existe de condenável no socialismo. A mudança de abordagem é notória. E ela nos autoriza algumas conclusões:

1. O fenômeno histórico «socialismo» é susceptível de profundas transformações no decurso da história, tendo se apresentado, ao longo do tempo, sob roupagens as mais diversas.

2. O seu «erro fundamental», no entanto, é de caráter antropológico. Significa que o que existe de comum entre os diversos “socialismos” historicamente existentes – e poderíamos até mesmo dizer, por que não?, teoricamente possíveis – é uma determinada concepção a respeito do homem: a de que ele não passa de uma «molécula do organismo social», a ele subordinada, somente em referência ao qual o homem pode se afirmar.

3. Isso significa também – é o mais importante! – que a identidade diacrônica do socialismo não advém de uma unidade política, de um concurso de atores, de uma continuidade de escola de pensamento à qual explicitamente se vinculam acadêmicos, nem nada do tipo. O que faz o socialismo ser socialismo é um determinado erro antropológico. Portanto, ainda na hipótese de que pessoas distintas, separadas no tempo e no espaço, chegassem, por meio distintos e totalmente independentes entre si, a conclusões antropológicas redutíveis àquela visão do homem enquanto “molécula do organismo social”, então a mesma censura que se aplica ao «socialismo» seria aplicável, igualmente, a todas essas pessoas, por mais que elas aparentemente nada tenham que ver umas com as outras.

Ora, é muito difícil demonstrar (v.g.) que o lulo-petismo obedece a instruções de Moscou, que Barack Obama é subserviente aos interesses da KGB ou que o neoconstitucionalismo latino-americano é controlado diretamente de Havana pelos herdeiros da família Castro. Tais elucubrações, no entanto, são totalmente desnecessárias para que se reconheça um determinado traço comum a todos esses fenômenos, que não é de ordem política e nem estratégica mas sim conceitual; e para que se possa, a partir dessa identificação, rejeitar essas concepções políticas como equivocadas e incompatíveis com a visão de «homem» esposada pelo Catolicismo. Nem todo erro exige uma enorme conspiração por trás. E não é por não haver conspiração que o erro fica afastado.

O que torna o comunismo condenável não é apenas a sua insistência em perpetrar genocídios, mas sim a sua visão utópica quer do homem, quer da realidade social. E o que existe de socialista nos regimes políticos latino-americanos hodiernos não é meramente uma gradativa concentração de poderes e correspondente cerceamento de liberdades individuais, mas sim certa concepção de «sociedade» somente em função da qual deve ser dado espaço ao homem para existir. Vistas as coisas dessa maneira, talvez nos seja possível, afinal!, contornar as dificuldades apresentadas no início deste texto. E se, retratada agora com estas características, talvez haja discordâncias a respeito da valoração que merece tal visão de mundo, quiçá consigamos nos pôr de acordo ao menos quanto à situação de fato da existência e predominância desta concepção social. Já será um grande avanço.

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